Desta vez é diferente, claro

Somos muito impelidos a extrapolar o cenário de curto prazo para o futuro.

Desta vez é diferente, claro

“Bem, você sabe… É precisamente por essa razão que fiquei chocado. Porque eu passei 40 anos ou mais acumulando considerável evidência de que essa forma de ver o mundo, essa espécie de ideologia, parecia funcionar bastante bem. Aqueles de nós, entre os quais me incluo, que acreditaram que instituições financeiras, tomando atitudes movidas pelo autointeresse, protegeriam seus acionistas, estamos perplexos agora.”

Peço desculpas pela tradução mal feita. A essência está preservada. É um trecho daquilo que ficou conhecido como The Alan Greenspan Confession, o momento em que Alan Greenspan, então presidente do Fed, confessava ter acreditado por 40 anos num modelo errado. Ali caia uma espécie de muro, construído por décadas por meio da crença naquilo que convencionou-se chamar de modelo da escolha racional, desdobrando-se no chamado 1o Teorema do Bem-estar.

Em português, os agentes econômicos, mais especificamente, os bancos no caso, tomando decisões apoiados exclusivamente no autointeresse e na ideia de maximizar sua própria utilidade (uma espécie de nível de satisfação, felicidade ou algo parecido) acabariam levando ao ótimo social.

Não era só Alan Greenspan que acreditava nesse tipo de funcionamento do mundo, claro. Ao contrário, a ideia era consensual, tanto na academia quanto nos formuladores de política econômica. Todos nossos problemas estavam resolvidos. Os economistas, supostamente, teriam encontrado a fórmula mágica. Vivíamos 20 anos daquilo que convencionou-se chamar de A Grande Moderação, um período marcado por baixa volatilidade da inflação e do crescimento, uma combinação desejada por todos.

A ausência de volatilidade das variáveis macro era lida como ausência de riscos. Os ciclos econômicos estariam extintos e não precisaríamos mais nos preocupar com bolhas, booms and busts, estabilidade gerando instabilidade nada disso. Ben Bernanke, que curiosamente viria a substituir Greenspan à frente do Fed, revisitou o tema das bolhas, perguntando em artigo razoavelmente clássico Should Central Banks Respond to Movements in Asset Prices?. Deveriam os Bancos Centrais se preocupar com preço dos ativos? A resposta foi clara: “não precisa. Um sistema bem feito de metas de inflação dá conta de tudo”, numa linguagem mais institucional e elegante, evidente.

Foi justamente essa crença de que tudo estava bem, que não precisávamos nos preocupar com os preços das hipotecas, dos MBS e afins, que nos conduziu à crise de 2008, ao menos na proporção que ela se deu.

O modelo em que todos os economistas acreditavam estava errado. Alan Greenspan, talvez o principal formulador de política econômica, admitiu o ponto. Tão errado que nos levou à explosão de setembro de 2008.

A partir dali, iríamos mudar, não é mesmo? As evidências estavam ali. Tivemos evidências materiais de que indivíduos agindo em prol do autointeresse não levam necessariamente ao ótimo social – talvez porque estejam diante do chamado desconto hiperbólico. Maximizam exageradamente seus interesses de curto prazo, enquanto sacrificam o longo prazo. E ai surgem problemas.

O modelo da escolha racional esteve claramente em xeque. E isso foi admitido pelo próprio presidente do Fed. Eu, pessoalmente, não sei nem sequer por onde começo a crítica, pois sequer compactuo com a definição do que chamam de racionalidade. Pra mim, só pode haver uma definição adequada de racionalidade e ela se liga à sobrevivência.

O chamado Sistema 1 de Daniel Kahneman é aquele ligado à intuição, à resposta rápida, ao impulso, às forças dionisíacas. Normalmente, se associa à falta de racionalidade estrita, do ponto de vista econômico.

Mas então pergunto: seria mesmo irracional, diante da necessidade de tomada de decisão ultrarrápida não parar para fazer conta de probabilidade? Se você está no meio da selva e um leão corre atrás de você, o mais certo a se fazer é sair correndo em direção ao Jeep ou calcular por extrapolação qual a trajetória ótima a seguir, considerando as forças centrífugas ali impactando?

Por que o resgate da confissão de Greenspan agora? Porque infelizmente as pessoas não aprendem. Há uma tendência grande a se achar que desta vez é diferente. Somos muito impelidos a extrapolar o cenário de curto prazo para o futuro. E como o curto prazo tem nos sido favorável, achamos que, agora, sim, os economistas encontraram a fórmula mágica.

Talvez você esteja seduzido pela “situação sem precedentes de crescimento global acelerado com inflação baixa”. Eu mesmo estou atraído pela ideia. Olhando para os dados mais recentes, a coisa é mesmo muito atraente. Os PMIs têm vindo notadamente acima das projeções – a China, que ameaçou cambalear, voltou rapidamente; até mesmo a Europa passa a crescer com vigor, com o motor germânico bastante embalado e recuperação da periferia.

Ainda mais surpreendente, é que isso acontece simultaneamente à inflação baixa, desafiando o trade off clássico de curto prazo entre inflação e crescimento (ao qual estaria associada uma taxa de desemprego).

É algo novo, de fato. Ou, ao menos, bastante raro. Surgem as mais variadas explicações para a inflação comportada. Possivelmente seja a perda de poder dos sindicatos a partir da maior flexibilização das leis do mercado de trabalho e aumento da força de trabalho. Talvez sejam as forças deflacionárias vindas da China e da Índia, com sua maior integração à economia global empurrando preços para baixo. Quem sabe ainda seja um efeito da desalavancagem mundial, ainda em função das mazelas do subprime… Ou seriam os ganhos de produtividade, em função da tecnologia, da inteligência artificial e da indústria de shale nos EUA, os principais responsáveis pelo fenômeno? Potencialmente, o envelhecimento da população tenha um papel nisso tudo também, não? Ou será que Larry Summers está certo e vivemos um período de estagnação secular? Ah, vai ver é uma combinação disso tudo…

Ninguém sabe ao certo. Com efeito, porém, as condições momentâneas para os ativos de risco são incrivelmente favoráveis. Talvez as pessoas aqui dentro, ensimesmadas por Geddel, Previdência, Lula, Funaro, etc, não se deem conta do ambiente global comprimindo os prêmios de risco – o rali da Bolsa brasileira passa muito longe de ser exclusividade e, em meu humilde entendimento, guarda mais relação com as condições sistêmicas mundiais do que propriamente com avanços estruturais locais. Claro que queremos atribuir o mérito a nós mesmos. Mas estamos apenas surfando as benesses conjunturais de um bull market.

Se mantivermos as condições supracitadas de alto crescimento com baixa inflação e não houver surpresa, toda essa movimentação positiva dos últimos meses deve ser, de fato, estendida. É por isso que acho adequado se manter comprado.

Qual o problema? As condições normalmente não costumam durar e normalmente há surpresas.

Qual será a surpresa? Ora, antever a coisa seria um paradoxo por construção. Se nós soubéssemos exatamente qual o fator de risco que vai catalisar a crise, o atacaríamos antes, prevenindo o problema. As bolhas existem até o momento em que não existem mais.

Em todas as vezes que acreditamos ter encontrado a solução de todos os problemas do mundo, estivemos errados até aqui. Sístole e diástole são características da natureza humana. Nós não podemos fugir de nós mesmos, ao menos por enquanto.

Enquanto houver o homem tal como ele há, a história, com suas teses e antíteses, não terá acabado. Fukuyama não se daria bem no mercado financeiro.

Corolário prático: seguimos comprados, diversificados e com portfólios balanceados, sem exageros, alavancagem e cases de muito risco. Sempre que pudermos, “queimaremos”, sim, alguns trocados em opções fora do dinheiro. Não precisamos estar certos sobre o que vai catalisar o fim do bull market; precisamos apenas estar preparados para isso.

Você quer ter razão? Ou você quer ganhar dinheiro?

Em dia de agenda doméstica fraca e sem grandes, mercados seguem a tendência positiva, embora as variações sejam modestas. Não há indicadores relevantes na agenda doméstica, de tal sorte que pesquisa CNT/MDA domina a pauta, com mercado tentando ler sobre possibilidades para eleição de 2018.

Está gostando desse artigo?Insira seu e-mail e comece já a receber nossos conteúdos gratuitos

Nos EUA, temos construção de moradias iniciadas em agosto. Há grande expectativa sobre reunião do Fed amanhã, sob possibilidade de menção mais enfática de subida do juro básico em dezembro e eventual redução do balanço do Banco Central dos EUA. Na Europa, sentimento econômico na Alemanha é principal destaque.

Minério de ferro caiu fortemente na China, após BC da Austrália alertar sobre excesso de oferta, o que pode causar underperformance de Vale hoje por aqui.

Ibovespa Futuro abre em alta de 0,1 por cento, dólar cai ligeiramente contra o real e juros futuros recuam.

PS.: Rodolfo lança hoje seu PRP. Está realmente imperdível. Vale conferir de perto, com as vagas se esgotando muito rapidamente.

PSS: Daniel faz análise muito detalhada sobre uma oferta de um fundo de shopping center. Momento bem interessante do setor. Relatório ficou impecável e pode configurar bela oportunidade de lucros para quem se interessa por fundo imobiliário.

Conteúdo relacionado