O projeto da sorte para você

Só sorte não vai ajudá-lo a ganhar mais dinheiro. Richard Wiseman descobriu a partir de uma série de estudos científicos que as pessoas sortudas geram sua própria fortuna a partir de quatro princípios básicos.

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O projeto da sorte para você

Na sexta-feira, almocei com um grande banqueiro brasileiro. É uma daquelas interlocuções que não me acho digno de manter, mas que, por alguma razão, a Empiricus acabou me proporcionando. Ele pergunta interessado o que estou achando dos mercados e das fintechs; eu me pergunto o que estou fazendo ali.

Merecedor ou não, valorizo a possibilidade de conversar com gente brilhante. Agradeço por isso e pela quentinha.

Nietzsche dizia que boas ideias surgem de uma longa caminhada. Eu acredito que elas vêm de boas conversas. Caminhar conversando, então, é quase um sonho.

Divido aqui a visão do sujeito primeiro pelo seu brilhantismo intelectual. Depois porque seu nível de conexão e acesso a informação podem nos render insights valiosos para investir.

“O que você está chamando de O Segundo Mandato Temer é o que eu falo aqui internamente como vitória da agenda. Não sei ainda a cara, a pessoa em si que vai ser eleita. Mas me parece um tanto claro que a esquerda está morta e virá alguém à direita. Então, conhecemos todos e isso cria um ambiente muito favorável. A única eventual dúvida é sobre o Bolsonaro, se ele vai caminhar para o centro ou se vai ficar mais extremo. Ele é muito ‘shallow’ (superficial) e não dá para acreditar na sua conversão liberal.”

Essa foi a visão do ciclo eleitoral, que, obviamente, converge para a que tenho mantido aqui. Quer dizer, colocando-me no meu devido lugar: a minha visão converge para a dele.

Sobre a economia e os mercados em geral: “As pessoas estão menosprezando o que aconteceu neste país nos últimos anos. Estamos falando da perda de 10% da renda per capita. Isso só acontece em cenário de guerra, hiperinflação. A recuperação agora é cíclica, mas é vigorosa. O crédito está claramente voltando e esse é um indicador antecedente importante. Estou otimista com a economia e com a Bolsa”.

Também aqui estamos alinhados.

Em certo momento, a conversa migrou para fundos e investidores da moda. Passamos um a um, do Ibrahim Eris à crista da onda no momento.

“Você não tem medo disso?”

“Claro que tenho.”

Eu tenho um problema importante com o gestor da moeda, aquele que mais subiu na janela dos últimos 12 ou 24 meses. Pra mim, e aqui marco claramente se tratar de uma posição pessoal muito contrária ao consenso (sim, eu respeito quem pensa diferente), se tem um fundo ou uma abordagem de investimento que você precisa evitar é justamente aquele(a) que ofereceu o maior retorno no ano passado.

Por mera aplicação da lógica, a maior alta de um determinado intervalo de tempo aconteceu por conta da materialização de um evento considerado de baixíssima probabilidade. Perceba que a cotação de uma ação ou de qualquer outro ativo reflete uma expectativa de consenso, um cenário-base projetado à frente. Para que esse ativo se multiplique de valor, suba muito mais do que os demais, precisa, portanto, acontecer algo muito surpreendente, ex-ante fora do radar dos investidores e não contemplado pelas cotações. Somente assim pode haver uma supermultiplicação.

Na era do big data, das notícias em tempo real e da inteligência artificial, os mercados são informacionalmente muito eficientes. Ou seja, normalmente, as cotações refletem, de fato, o cenário mais provável à frente.

Então, como corolário dessa construção, se um determinado investidor ou gestor multiplicou seu capital por um fator muito alto num ano, ele apostou pesado num evento de baixíssima probabilidade que acabou se materializando.

Uma alta muito vigorosa decorre da concentração e da alavancagem, provavelmente em apostas de baixa probabilidade. A História narra apenas o que foi, e não o que poderia ter sido. Assim, acaba selecionando aleatoriamente vencedores e perdedores. Aqueles que mais irresponsáveis foram e acabaram contemplados com a sorte, com a vitória do azarão em que haviam apostado, são selecionados como campeões, passando para a eternidade (enquanto dura) como gênios.

Não tenho nada contra a sorte. Nosso dia-a-dia está recheado de tentativas de aumentarmos a influência da Deusa Fortuna a partir das superstições. Batemos na madeira pois rituais pagãos no passado buscavam a força positiva dos deuses das árvores. Evitamos o número 13 porque eram esse o número de presentes na Santa Ceia. Não passamos sob a escada para evitar quebrar a santíssima trindade formada pelo triângulo áureo, desenhada pelo chão, a escada e a parede.

Evidentemente, essas coisas não vão ajudá-lo a ganhar mais dinheiro. Você não será mais ou menos contemplado com a sorte se usar este ou aquele amuleto, adotar essa ou aquela superstição. Mas é curioso como você pode, sim, ter um incremento de ocorrências de forças aleatórias positivas sobre si, a partir de uma mudança de comportamento.

Richard Wiseman tem estudado a incidência da sorte ao longo de décadas. Ele descobriu a partir de uma série de estudos científicos que as pessoas sortudas geram sua própria fortuna a partir de quatro princípios básicos.

Primeiramente, elas são habilidosas em criar e perceber as oportunidades que a sorte pode lhes criar. Aqui recupero o exemplo de Nassim Taleb, caracterizando a diferença entre o turista e o flaneur. Enquanto o primeiro viaja com um destino determinado, sem possibilidade de abrir-se para o novo e o inesperado, o segundo faz exatamente o contrário. Dispõem-se a fazer coisas ali na hora, a conhecer gente nova, a buscar maçãs na parte desconhecida da plantação. As chances de descobrir algo surpreendente e inesperado para o flaneur são muito maiores.

Além disso, tomam decisões a partir de uma intuição apurada. Aqui emprego intuição no sentido de Malcolm Gladwell, no “Blink”, e não na conotação negativa ligada à falta de técnica. A intuição é simplesmente um tipo de conhecimento não estruturado e não formalizável. Então, sem formalizar racionalmente uma decisão, ao tomá-la e se beneficiar, o sujeito acaba achando que se tratou da sorte, quando foi, na verdade, a aplicação de um método intuitivo, ligado a uma série de conhecimento acumulado e que fica escondida lá no fundão.

Em adição, os sortudos tipicamente criam profecias autorrealizáveis ao manter um pensamento positivo e perseguir obstinadamente aquilo.

Por fim, adotam uma atitude resiliente diante da adversidade, não abortam o processo no meio do caminho e se mantêm perseverantes mesmo quando aparece uma primeira dificuldade. Um sentimento forte, um propósito ou uma vocação ajudam nesse sentido.

Resumidamente, portanto, se você quer ter sorte, precisa se expor a ela. Pode parecer contraintuitivo, mas é um processo racional, estruturado e formal. Monte estruturas de investimento que busquem assegurar que as surpresas estejam do lado positivo. Se você quer lucrar muito com uma ação, a primeira coisa a fazer é comprar uma.

Mercados abrem a terça-feira estendendo tom positivo da véspera. Ofensiva de assessores e aliados republicanos sobre Donald Trump para conter aumento de tarifas de aço e alumínio arrefece preocupações com guerra comercial global. Commodities sobem e mineradoras são destaque na Europa.

Por aqui, agenda trouxe produção industrial um pouco abaixo do esperado, enquanto aguardamos pesquisa CNT-MDA e dados da Anfavea. Nos EUA, saem encomendas à indústria.

Ibovespa Futuro sobe 1%, dólar cai contra o real e juros futuros estão perto da estabilidade.

P.S.: Caso você não tenha visto ainda o vídeo mais recente da Luciana Seabra, aqui está um esclarecimento importante.