Coragem e prudência ao mesmo tempo

Seremos corajosos e arrojados quando falamos de questões pessoais, em prol de um benefício coletivo. Seremos sempre muito prudentes e conservadores quando se fala no espectro coletivo/global.

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Coragem e prudência ao mesmo tempo

Você é um herói ou um vilão? Dionísio ou Apollo? Yin ou yang? Preto ou branco? Corajoso ou prudente? Teimoso ou perseverante? Acelerado ou lerdo? Civilizado ou neurótico?

Acho que a gente é mais misturado, sabe? 50 tons de cinza, numa versão mais elaborada: Christian Grey e Anastasia Steele ao mesmo tempo. Não sou dos cinéfilos avessos a Hollywood – gosto dos filmes romenos e do Batman, principalmente com o Chris Nolan. Mas penso que a vida real é um pouco mais complexa do que o maniqueísmo cinematográfico americano sugere.

Trabalho com uma planilha gigante na minha frente que todos os dias me desafia: é a hora de tomar um pouco mais de risco em busca de mais retorno ou de se proteger um tanto adicional? Compro mais seguros ou realizo os que já tenho? Vale a pena pagar tão caro por essa proteção? Devo insistir nas minhas convicções ou as evidências sugerem que devo mudar de opinião?

Cada um está tentando encontrar seu jeito de ser e estar no mundo. Não há fórmula mágica. Eu adoraria que tivesse, mas é uma impossibilidade lógica. Se ela existisse, logo seria conhecida, todos usariam e não haveria mais vantagem pra ninguém. Se todos aplicam o mesmo método, todos têm o mesmo retorno, certo? E esse retorno será medíocre, no sentido de média. A verdadeira fórmula mágica seria comprar ETFs. Dado o desempenho recente dos fundos ativos em nível global, talvez até seja mesmo… vai saber…

A Bolsa, os juros e o câmbio replicam a vida – talvez por isso sejam tão interessantes. A arte de equilibrar forças antagônicas, embora, claro, alguns insistam em saber com absoluta certeza qual a força vai predominar. Eu, que não sou besta de tirar onda de herói, vacinado e, agora definitivamente, cowboy fora da lei, acredito que a gente nunca sabe e só fica tentando conciliar a força com seu lado escuro.

No nosso evento na última terça-feira, Nassim Taleb (desculpe, essa semana está dedicada a ele; prometo férias por um tempo a partir de segunda) propôs uma forma de conciliarmos prudência e coragem de forma simultânea. Achei bonitinho e tentei trazer para o escopo estrito das finanças. Vou tentar explicar a analogia.

Qual a pior coisa que pode lhe acontecer?

Normalmente, as pessoas respondem à pergunta com: “eu morrer.”

Mas essa não é a pior coisa que pode acontecer. Você morrer e sua família também morrer é pior do que a alternativa anterior, né?

Podemos subir um nível ainda (ou descer, sei lá): morrem você, sua família e seus amigos.

Dá pra piorar um pouco mais: você, sua família, seus amigos e toda espécie humana – muito embora eu tenha convicção de que a morte de uns dois ou três por ai faria um bem danado pra humanidade.

Podemos continuar com a escadinha com a morte de todo ecossistema mundial.
Sendo assim, e me parece que a construção é irrefutável, é razoável nos preocuparmos mais com as questões coletivas do que com a ótica individual.

Seremos corajosos e arrojados quando falamos de questões pessoais, em prol de um benefício coletivo. Seremos sempre muito prudentes e conservadores quando se fala no espectro coletivo/global. O sacrifício individual em prol do todo, que importa muito mais. Uma atitude verdadeiramente heróica. O herói é aquele que dedica sua vida a um terceiro (ou a terceiros).

Tentei trazer a ideia para a construção de portfólio. Pensei assim: você pode ser extremamente agressivo em apostas individuais – localmente, pode incorrer em perdas de 100% naquela posição específica (ela, em si, era muito arriscada). Contanto, que continue sendo extremamente conservador no portfólio como um todo. É condição sine qua non.

Se você compra uma put (opção de venda) fora do dinheiro, aquilo visto isoladamente é uma operação bastante arriscada – provavelmente, você vai perder todo seu dinheiro. Mas quando olhada dentro do portfólio consolidado, essa aquisição denotou um movimento absolutamente conservador, que reduziu o risco do seu portfólio.

Ou, sob outro ângulo, um investidor que decide comprar pesadamente ações de Fibria como uma forma de ganhar exposição indireta ao dólar está sendo conservador (quer exposição a moeda forte) ou arrojado (montou uma grande posição em renda variável)?

Corolário: você pode tomar muito risco em pequenas posições – acho até que deve fazê-lo, de forma diversificada e convexa (mais ganhos potenciais do que perdas; matematicamente, isso lhe dá um retorno esperado positivo, por construção). Ações, opções, bitcoins. Tudo isso pode ser feito pequeno, com a ciência dos riscos e, mesmo assim, ser conservador. Não é isso que lhe faz um investidor corajoso ou arrojado. Importa seu portfólio consolidado. Ele que precisa ser preservado e contemplado a partir do mais rigoroso conservadorismo.

O raciocínio tem – ou deveria ter – um desdobramento importante e prático sobre o mercado de capitais brasileiro; acho que não é muito diferente no mundo. Os processos de suitability e as classificações de desenquadramento do investidor focam operações individuais. Se você é um conservador clássico, não pode comprar ações nem opções. Posições pequenas e locais, porém, não significam nada se não observadas isoladamente, sem considerar o portfólio como um todo do sujeito.

Em determinadas situações, inclusive, as posições individuais consideradas arriscadas do ponto de vista isolado representam uma redução do risco consolidado, conforme mostrado acima. Sendo assim, qualquer suitability que impeça montagens de posições individuais sem a consideração do portfólio consolidado do investidor presta um desserviço.

Mercados mostram variações moderadas no início da sexta-feira. Investidores se dividem entre dificuldades de Donald Trump em avançar reformas nos EUA, o que vem gerando tensão desde ontem a partir da resistência de parlamentares à proposta de mudança tributária, conversas locais sobre a aprovação da nova Previdência e um IPCA um pouco abaixo do esperado (alta de 0,42 contra 0,49% esperado). Agenda norte-americana traz ainda sentimento do consumidor pela universidade de Michigan.

Ibovespa Futuro abre em baixa de 0,2%, juros futuros caem ligeiramente após o IPCA e dólar opera perto do zero a zero contra o real.

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