É só trabalho, e tudo bem

Não entendo nada de teologia, mas talvez seja razoável afirmar que as pessoas são hoje menos religiosas do que já foram.
É só trabalho, e tudo bem

Não entendo nada de teologia, mas talvez seja razoável afirmar que as pessoas são hoje menos religiosas do que já foram.

A ciência preencheu vários requisitos que antes eram atendidos por preces, mas não deu conta de todos eles, nem poderia dar.

Como seres humanos, continuamos carentes da metafísica. E, na falta da religião, vamos buscar essa metafísica em outros lugares, mesmo sem perceber.

Assusto-me, por exemplo, com o fenômeno crescente das seitas corporativas.

O escritório antes como um templo e o home office agora como um altar em domicílio.

Converso com uma amiga que se mata de trabalhar em startup, sábado, domingo, ganha mal e está crente de que vai mudar o mundo.

Para grandes empresas é ainda pior, mergulhadas na fé de quem já está mudando o mundo, empoderando a sociedade e cumprindo o propósito de transformar a existência das pessoas.

O que me faz querer lembrar: qual é o propósito do trabalho?

Sentir-se útil, sentir-se inteligente. Fazer algo legal, por si e pelos outros. Conversar com as pessoas do trabalho. Tratar bem seus clientes e fornecedores. Ganhar dinheiro para pagar as contas e para investir com o que sobrar.

Passo parte do meu expediente preenchendo planilhas, editando textos, digerindo tabelas numéricas.

São coisas chatas e necessárias, que me permitem deitar a cabeça no travesseiro com um senso de dever cumprido.

Quando faço essas tarefas, estou mudando o mundo?

Não.

Sou um eterno desbravador, pois minha visão não tem limites e minhas metas transformam o impossível em realidade?

Por favor, não.

É só trabalho, e tudo bem.

Se você precisa o tempo todo acreditar que está fazendo algo grandioso, talvez seu trabalho seja simplesmente uma merda.