Os indecisos nunca estiveram tão convictos

Não podemos negar que o debate de ontem na Band teve uma grande finalidade: reforçou a convicção dos indecisos!

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Os indecisos nunca estiveram tão convictos

Não podemos negar que o debate de ontem na Band teve uma grande finalidade: reforçou a convicção dos indecisos!

Geraldo Melatonina Alckmin cumpriu com precisão e rigor a descrição da bula.

Meirelles teve como único destaque a gravata completamente torta no primeiro bloco – acho que, para tentar retirar votos de Bolsonaro, queriam transmitir a imagem de capitão e amarraram-na no braço do ex-ministro; só faltou tirar cara ou coroa no meio do campo com Alckmin para decidir quem dava mais sono. O resultado seria empate técnico, com margem de erro de dois pontos percentuais, para menos ou para mais. Não, não. Corrigindo: só para mais.

Ciro Games, a julgar pelo histórico explosivo com o microfone na mão, até que jogou bem. Tentou ser simpático e calmo como nunca, falou as besteiras de sempre. Tem algum carisma, raciocínio rápido e é o mais eloquente; também é o mais destemperado e aventureiro. O errado convicto costuma oferecer o maior perigo.

Alvaro Fernando Vannucci Dias poderia ter se saído bem se não tivesse tomado uns goles antes – que dicção foi aquela? Diazepam com Jack Daniel’s, aposto! Para corrigir isso, eu nomearia logo um fonoaudiólogo de vice – ou fonoaudiólogX, para evitar discussões de gênerX.

Bolsonaro mostrou ser capaz de decorar mais um ou dois termos novos sobre liberalismo. Parabéns! Deve ter entrado na onda cool de “gamification” (foi para imitar o Ciro Games?) e comprado um bom jogo da memória, pra treinar antes. Se saiu bem porque, sem ninguém perguntar, não precisou explicar aquelas duas ou três palavrinhas que ele mesmo usa sem ter a menor ideia do que significa.

Uma pena Marina não ter ido – talvez tenha sido por conta de restrições orçamentárias, cuja compreensão lhe falta para entender a impossibilidade lógica da simultaneidade de expandir o investimento público, reduzir o déficit fiscal e incrementar os gastos sociais; tudo isso, claro, sem aumentar imposto. Criamos um novo conceito de ajuste fiscal sem postura fiscalista.

Guilherme Boulos se dividia entre a atração obsessiva pelos olhos azuis de Bolsonaro, que não parava de encarar, e a tentação por sair correndo dali e logo invadir um camarim da Band para chamar de seu, já alegando usucapião! Dele, só consigo lembrar dos tempos em que jogávamos bola na Cristiano Viana, dobrando à esquerda na Teodoro, ali em Pinheiros – tomava um rolinho atrás do outro (ele já era meio lento naquela época).

Tudo certo e nada resolvido. De novidade mesmo, só o cabo Daciolo. Muito prazer, em nome de Jesus!

Para o investidor, possivelmente mereça atenção a provável tributação de dividendos, defendida por boa parte dos candidatos. Efeito imediato disso pode ser negativo para Bolsa, mas já está em boa parte precificado, podendo também ser recompensado em alguns casos por elevação dos programas de recompra.

Problema aqui é que, fora os bancos, tradicionais pagadores de dividendos podem não ter “float” (ações emitidas e fora das mãos do controlador, dispersas no mercado) suficiente para suportar as recompras (as empresas de energia elétrica e saneamento são casos clássicos). Então, mercado pode migrar um pouco foco de “bond proxies” (esses mais ligados à distribuição de proventos) para casos de “growth” (crescimento). Pode ser o momento de antecipar esse consumo doméstico mais voltado à expansão de lucros, em detrimento a nomes já consolidados e hoje típicos pagadores de dividendos. Em termos de rotação setorial, essa pode ser uma dinâmica-chave para os próximos meses. Qualidade com growth, em vez de dividendo com value. Raia, Fleury, Localiza, Hypera (embora esta última já pague algum dividendo).

Voltando ao cenário político estrito, precisamos aguardar novos desdobramentos para desanuviar o panorama. Agora de manhã, sai pesquisa XP/Ipespe de intenções de votos. O bom das pesquisas da XP é que você nem precisa ver os dados para saber o resultado; basta olhar para o comportamento do Ibovespa dois dias antes. Vaza mais que torneira remendada com borrachinha.

O único bom sinal veio da capa da Economist. A tradicional revista britânica apontou um cenário político muito incerto no Brasil e se mostrou preocupada. Disse que Bolsonaro pode representar uma ameaça à nossa democracia. Quase me convenceu a votar no candidato do PSL! Pé trocado à altura da Economist só a Exame. Se a revista falou mal do Brasil, esse pode ser um belíssimo sinal de fundo para os ativos locais.

Se Bolsonaro é uma ameaça à democracia ou um liberal convicto, sinceramente, não sei. Acho que, na real, ninguém sabe mesmo. Nem ele. Agora, é fácil repetir clichês e frases ditadas pelo Paulo Guedes. A pergunta que eu gostaria de ter respondida por Bolsonaro é ligeiramente diferente. Embora pareça mais um discurso do que um questionamento, seria algo mais ou menos assim:

“Entendo sua maior inclinação liberal agora. E sei conversas por aí que, de fato, o senhor tem mantido uma relação cada vez mais sólida com o Paulo Guedes. Chego a acreditar que, no começo de seu governo, haverá esforços em prol da aprovação de reformas fiscais e estruturantes, na direção de um Estado menos intervencionista e mais favorável ao livre mercado. A questão, para mim, é que, quando essa pauta for levada à frente, no momento imediato, sua popularidade vai cair, a Folha vai fazer uma capa do tipo ‘Reforma da Previdência tira direitos de dois milhões de pobres’, o Valor, por incrível que pareça, vai por caminho pior. A CUT e o exército das hienas do Tio Scar vão para a rua pedir a cabeça do Bolsonaro. Vai haver pedido de impeachment, baseado em alguma causa inventada. Neste momento, na adversidade, o senhor se manterá fiel à causa e ao Paulo Guedes, mesmo que isso lhe custe alguns valiosos pontos de popularidade? Ou vai voltar a ser o velho Bolsonaro de sempre?”

Quem sabe com essa resposta pudesse começar (apenas começar!) a acreditar no conto do catecismo liberal.

Embora o cenário político venha pesando sobre os ativos brasileiros nos últimos dias, meu entendimento é que, mais uma vez, o desconforto com emergentes tem maior responsabilidade. Já tinha sido assim desde março, com temor de subida dos juros nos EUA numa maior velocidade e preocupação com guerra comercial. Voltou agora com uma crise intensa na Turquia suscitando novamente temor de contágio sobre toda periferia. O país incomodou nos meses anteriores; Argentina veio na sequência e passou – logo, porém, se esse estresse continuar, pode voltar às manchetes, principalmente porque, apesar de superada a primeira etapa, o desafio de rolagem de dívida está longe de terminado.

Hoje a moeda turca volta a sofrer bastante e espraia pessimismo por aí. A preocupação é de intervenção de Erdogan sobre o banco central turco.

Brasil sempre foi e é um beta alto sobre o mercado internacional. Guarda muita sensibilidade sobre o que acontece no mundo. Se quisermos nos entender internamente, precisamos começar olhando lá fora.

Mercados iniciam a sexta-feira no vermelho, sentindo efeitos de discurso populista de Recep Erdogan na Turquia, cuja moeda perde mais de 10% nesta manhã. Aqui, cena política interna indefinida também não ajuda.

Agenda internacional traz preços ao consumidor norte-americano, após inflação ao produtor por lá ficar aquém do esperado na véspera. Resultado fiscal dos EUA é aguardado para mais tarde. PIB japonês superou as projeções de alta de 0,3 por cento, ao crescer 0,5.

Por aqui, destaque para vendas ao varejo, além de uma bateria de resultados corporativos.

Ibovespa Futuro abre em baixa de 0,6%, dólar sobe e juros futuros avançam.

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