8 ou 80

Penso que hoje há três coisas verdadeiramente importantes para guiar os mercados: eleições 2018, reforma da previdência e inflação norte-americana.

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8 ou 80

Leio cinco jornais por dia. Acho que estaria melhor se não lesse nenhum. Diante do excesso de informação, somos seduzidos por falsas narrativas. Estamos mais suscetíveis a confundir ruído (aquilo que não importa, tratando-se apenas de um mero movimento aleatório) com sinal (uma verdadeira mudança nos fundamentos).

Definitivamente, este não é um jogo de quem acessa mais informação – no Google, há informação infinita e de graça. Não acredito que o melhor investidor seja aquele que mais vezes preencheu o campo “Search” – até gostaria que fosse assim; minha mãe, datilógrafa impecável, com diploma de melhor aluna, seria candidata ao topo do ranking. Selecionar, interpretar e garimpar assimetrias derivadas da informação já representam atitudes ao menos um pouco mais dignas.

Não abandono o hábito da leitura matinal por uma neurose idiota, medo de que, justamente no dia em que não o fizer, terei perdido a notícia capaz de mudar o mundo – ou, ao menos, a minha vida inteira. Obviamente, é um mito, mas o que não é?

Como não se perder em meio ao overload de informação?

Penso que hoje há três coisas verdadeiramente importantes para guiar os mercados. O resto é sujeira, falácias da narrativa criadas para vender jornais explicando porque a Bolsa (o dólar ou o juros) subiu/caiu 1%.

Vamos aos três:

1. A eleição de 2018. Ok, é cedo. Sei disso. Mas não importa muito o que é do ponto de vista ontológico. O mercado reage a qualquer notícia capaz de mexer com o risco político do ano que vem. Interpretações de aumentos das chances de Lula significam mercados em baixa. Evidências em prol da polarização Lula/Bolsonaro também. Em contrapartida, indicações da emergência de um candidato de centro competitivo, capaz de impetrar uma agenda reformista e fiscalista, representariam valorização dos ativos de risco.
Nesse sentido, precisamos prestar atenção à grande notícia do dia: “Aprovação a Luciano Huck dispara e atinge 60%”.

Sou um entusiasta da candidatura de Luciano Huck. Acho o sujeito capaz de arejar o espectro político brasileiro e oferecer à população a alternativa de fora do establisment partidário convencional. Num momento em que ele tergiversa sobre sua potencial candidatura, a melhora de posição no ranking de imagem pode servir de estímulo e confirmá-lo no páreo.

Veja que não acho ruim sua hesitação neste momento. Ao contrário, é ótimo que não queime a largada, como fez Doria, de quem eu pessoalmente gosto também – felizmente, parece ter se dado conta e voltado atrás; agora, quero logo garantir meus ingressos para assistir à sua estreia na prefeitura.

Huck é um reformista – isso não dá pra negar. O sujeito reforma carro, casa… e sempre dá a isso uma conotação positiva, do bem. Assim também pode ser com as reformas fiscais. Mesmo que venhamos a aprovar a reforma da Previdência proposta ontem formalmente pelo presidente Michel Temer, teremos de revisitar o tema no próximo governo, por isso a importância de um candidato alinhado à pauta das reformas e capaz de fazê-las sem ser acusado de pacto com o demônio ou mordomo de filme de terror.

As informações são também de que ele seria capaz de reunir um time de primeira, liderado por Armínio Fraga na Economia, possivelmente atraindo também Marcos Lisboa para perto, revivendo aquele ataque do Santástico: Pelé e Coutinho. Ayres Britto como ministro da Justiça, quem sabe… para fortalecer a Lava Jato e produzir a desejada e necessária limpeza ética/moral do sistema político brasileiro.

Luciano Huck é competitivo, conhecido, admirado, com boa formação, teria apoio do PIB e também de boa parte do Nordeste.

“Ah, mas não seria a ‘eleição da Rede Globo’?”

Leia mais: Globo pressiona Luciano Huck a decidir se será candidato em 2018

Essa é a tese do Reinaldo Azevedo, que chama a Empiricus de corretora (não posso negar se tratar de um homem de visão, que nem nós mesmos aqui dentro conseguimos ter) e insinua que faço frontrunning com ações plantando notícias no Antagonista (também devo reconhecer sua criatividade) ….Está errado. Luciano Huck trabalha na Globo, o que é bem diferente de representar os interesses da emissora. Zé de Abreu e Paulo Betti também trabalham na Globo, não custa lembrar.

A parte ruim seria ter um presidente sósia do Rogério Ceni, mas fazer o que, né?

2) Previdência. Esse é o driver mais imediato. Aqui gostaria de dividir uma conversa que tive ontem com um dos principais cientistas políticos do Brasil. Ele está otimista com a aprovação da reforma – diz que faltam apenas oito deputados chave para serem convencidos. Sua sensação é de que o negócio passa.

Talvez custe um pouco mais de emendas, compensação da Lei Kandhir e coisas parecidas. É ruim, claro, mas não significa sacrificar o ajuste fiscal, como tenta emplacar a Folha hoje – ora, a medida mais importante de ajuste fiscal é justamente a reforma da Previdência. Do perdido, a metade, ensina a sabedoria popular.

Se infelizmente precisamos de algumas concessões adicionais para aprovar a nova Previdência, paciência. A alternativa é não conceder coisa alguma e também não aprovar Previdência alguma. Como muito bem lembrou o brilhante Ribamar Oliveira hoje no Valor, mesmo em sua versão mais enxuta, a reforma atual não é nada desprezível e representa um importante passo, mesmo que não completo, em prol do ajuste fiscal.

A aprovação da reforma seria, sim, um catalisador importante para os ativos de risco brasileiros, talvez mais claramente na renda fixa, onde os prêmios estão bastante gordos para prazos minimamente dilatados.

Leia mais: Enquanto olham para a Previdência

3) Inflação norte-americana. No meu entendimento, essa é uma variável fundamental para balizar preços no mundo todo hoje.

Há uma grande discussão atual sobre a existência ou não de bolhas de ativos no mundo. Ou, ainda que não seja uma bolha propriamente dita, ao menos de que os valuations se encontram muito esticados em âmbito global e nos mais variados mercados, de imóveis em Hannover a criptomoedas.

Minha leitura sobre a questão é: se os juros continuarem baixos nos países desenvolvidos, ou seja, mesmo que subam na margem, permaneçam em linha ou abaixo do projetado pelo mercado, os valuations, embora altos, estão adequados para a situação de crescimento sincronizado, baixo custo de oportunidade do capital, amplia liquidez e restrição de ativos (note que o nível de recompra de ações lá fora é brutal e os BCs internacionais recompraram até debêntures da Empiricus).

Em contrapartida, se a inflação norte-americana vier e os juros tiverem de subir mais rápido, então teremos um amplo e significativo de-rating (reapreçamento para baixo) dos ativos em nível mundial.

Neste ponto, precisamos prestar atenção à ata do Fed divulgada ontem à tarde, em que a mensagem foi mais no sentido de que a inflação norte-americana pode ficar baixa por mais tempo do que previamente achávamos.

Leia mais: Meet Joe Black

Considerados 1+2+3, se tivermos alguma notícia nova apontando para a candidatura de Luciano Huck, não houver surpresas negativas com a inflação norte-americana e convencermos os tais oito deputados, podemos sonhar com um bom rali de fim de ano: 80 mil pontos seriam um belo presente de Natal.

Mercados brasileiros iniciam a quinta-feira próximos à estabilidade, sem a referência de Wall Street com feriado de Thanksgiving nos EUA. Forte queda das ações na China impõe alguma cautela, em meio a receios de controle da alavancagem pelo governo por lá.

Por aqui, inflação medida pelo IPCA-15 veio abaixo do esperado, em 0,32%, contra prognóstico de 0,35%. IPC-S e nota do setor externo completam a agenda. Na Europa, destaque para ata do BCE, PMI e PIB na Alemanha e no Reino Unido.

Ibovespa Futuro abre em leve baixa de 0,24%, dólar sobe 0,2% contra o real e juros futuros buscam definir tendência.

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