Em busca da batida perfeita

Talvez você reclame que só tenho uma ideia na vida. Eu rebato com uma resposta pronta, incontestável: você tem toda razão.

Em busca da batida perfeita

Volto da Amazônia para a convexidade. Já estava com saudades. Paixão antiga sempre mexe com a gente…

Talvez você reclame que só tenho uma ideia na vida. Eu rebato com uma resposta pronta, incontestável: você tem toda razão. E há uma desvantagem adicional: a ideia nem é minha. Peguei tudo do Taleb, que por sua vez deve ter copiado de alguém. Acho que foi o Tales de Mileto que começou com esse negócio.

Sempre me preocupei mais com o método do que com situações particulares ou recomendações específicas. Se você tem um método poderoso e o usa com disciplina, pode aplicá-lo a vários casos individuais.

Talvez essa obsessão metodológica seja uma espécie de formação reativa. Lá em casa, papai era muito intuitivo. Acho que o método na Rua Realengo, 133 era não ter método algum. Não era grafista, nem lia balanço. Sei lá o que ele fazia, mas o resultado prático daquela não-metodologia me fez sonhar com a epistemologia das finanças.

Taleb parecia ter resolvido a coisa. Num mundo em que a incerteza jamais desaparecerá do processo e dominado pelos cisnes negros (se você ainda não leu o Fourth Quadrant, recomendo fortemente), só nos resta perseguir retornos assimétricos. Nunca saberemos qual cenário vai se materializar à frente. Vivemos num mundo que não entendemos. Esse é o desafio.

Assim, você compara o quanto pode perder no cenário ruim com o quanto pode ganhar no cenário bom e monta sua estratégia pensando nessa matriz de payoff. Vai perder algumas, ganhar outras. No longo prazo, por construção, como, em módulo, as vitórias são maiores do que as derrotas, você terá um retorno positivo.

É só e tudo isso que dá pra fazer. O resto é tentativa de adivinhação, magia, charlatanismo ou arrogância intelectual, uma crença em sua capacidade individual de saber mais do que os outros, uma espécie de herói dotado de uma habilidade especial.

Evidentemente, só haverá longo prazo se você chegar vivo ao final do processo. Nenhuma estratégia que implica risco de ruína poderá ser admitida. A acumulação de patrimônio sofre de histerese. Se passa de um determinado ponto, você não volta. Ou seja, em nenhuma de suas estratégias de investimento ou apostas, você poderá perder algo que lhe expulse do jogo, que lhe impedirá de continuar a caminhada rumo ao tal longo prazo.

Ed Thorp endereçou essa pra gente. Para calibrar o tamanho ótimo da aposta, você usa o chamado Kelly Criterion. De forma muito simples e até grosseira, aumenta-se o tamanho da aposta depois de ganhar, e reduz-se depois das perdas. Assim, você nunca “morre”. A verdadeira definição de racionalidade só pode estar ligada à ideia de sobrevivência.

Note que essa perseguição prudente de retornos assimétricos/convexos nos faz chegar quase automaticamente à necessidade de diversificação. Para que a coisa funcione e você se beneficie das propriedades das leis dos grandes números, precisa jogar o maior número de vezes possível.

É intuitivo. Se você aposta cara em duas rodadas, pode perder as duas. Mas se você repetir por um milhão de etapas, é improvável sair derrotado em todas.

A colheita dos benefícios da convexidade exige uma repetição do processo e a diversificação faz isso. Essa história de uma só, Zoraide, tenha dó…Você espalha seus investimentos num punhado de alternativas. Algumas vão bem, outras mal. Mas, se aquilo é mesmo assimétrico/convexo, os que vão bem mais do que compensarão os perdedores.

Aqui entra o problema e onde temos dificuldade de fechar as coisas. Só há verdadeira diversificação se os ativos selecionados são descorrelacionados ou correlacionados negativamente. A questão é que os instrumentos mais convexos disponíveis no mercado brasileiro guardam altíssima dependência entre si e correlação positiva.

Veja as small caps, por exemplo, que são instrumentos clássicos de convexidade. Isso é um grande prêmio de risco e de liquidez. Talvez o gestor, aplicando seu “rigoroso arcabouço de value investing”, ache que pegou uma supermultiplicação por mudanças idiossincráticas na companhia desde 2016. Mas a observação empírica mostra que é apenas um grande ciclo sistêmico. O Brasil é um grande beta. Vai tudo na mesma direção. O ETF de small caps não me deixa mentir sozinho…

Vale o mesmo racional para as opções de compra – boa parte das small caps pode ser apreçada a partir de um modelo feito para opções, como mostrou Robert Merton.

“Ah, mas e as puts?” De fato, são importantes e cumprem um belo papel de proteção. Sou um apaixonado por elas também. No entanto, não dispõem da mesma convexidade dos casos anteriores, pela simples razão de que há um limite de alta para elas – uma ação não pode ir abaixo de zero; logo, há um teto objetivo para as puts.

Então, o sujeito resolve diversificar seus investimentos em Bolsa e vai empreender. Mas é a mesma coisa! Se está ruim para as small caps, provavelmente vai estar ruim para aquela sua pequena startup…

Talvez por isso a gente seja empurrado naturalmente para coisas meio exóticas. Eu compro um pouquinho de bitcoins, e compro ouro também – hoje lançamos um material inédito e gratuito sobre criptomoedas, para você saber tudo que precisa sobre esse novo mercado; está realmente especial. Combinando as duas coisas (ouro e bitcoins), vamos de algo altamente arriscado e algo altamente conservador. Pra mim, diversificação mesmo é isso. O resto é esse Nhém-nhém-nhém, na minha orelha, me chateia…

A teoria é ruim, mas a prática é pior ainda. Refletindo sobre as dificuldades de sua implementação e sobre os custos psicológicos de ter de encarar perdas e mais perdas até um grande acerto, estou convencido de que a convexidade é o pior método que existe, com exceção de todos os outros.

Mercados voltam do final de semana com bom humor, em plena segunda-feira. Enfraquecimento do furacão Irma reduz preocupações, bem como menor tensão geopolítica vinda da Coreia do Norte, sem realização de novo teste de míssil. Metais avançam lá fora e ações de mineradoras se beneficiam, após inflação acima do esperado na China, tanto para o CPI quanto para o PPI.

O iuan teve sua maior desvalorização em três meses depois de a China anunciar um controle mais brando para a moeda – no final, acho que o Stuhlberger vai estar certo de novo…

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