Em busca da terra do nunca

Hoje é o último Day One antes da eleição. É quase uma obrigação falar disso. Os dois leitores desta newsletter sabem de meu histórico contra o PT. Não me abstenho da lembrança. Ainda somos os mesmos.

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Em busca da terra do nunca

Eu gostava quando o Corinthians jogava de manga longa. Já estava feliz antes mesmo da bola rolar. Fazia frio no Pacaembu naquele dia. Era 30 de setembro de 1992. Olhando em retrospectiva, parece loucura, mas era pura diversão.

Estávamos só eu, com sete anos, e um primo de 18, espremidos no meio da Gaviões e de muita névoa, uma espécie de “natural mystic, blowing through the air”.

A torcida se dividia entre amor e ódio pelo Neto. Havia aqueles incapazes de esquecer a campanha de 90, quando o Xodó da Fiel carregou o time nas costas até o título Brasileiro. E outros críticos da sua então atual forma física.

Neto já não corria tanto. Ele seria substituído no próximo lance, assim que a bola saísse. Àquela altura, as vaias e os xingamentos contra o camisa 10 predominavam. O alto-falante do estádio já havia anunciado a troca iminente. Viola aquecia-se à margem do campo.

Mas Neto ainda era Neto. E eu me orgulho de nunca ter estado entre os que desconfiaram. Os heróis são feitos de outro material; ah, eu já sabia.

Num desses raros momentos de brilhantismo alcançado apenas pelos verdadeiros gênios, daqueles em que o mundo inteiro parece parar para contemplar a magia, a bola veio cruzada da direita e ele pegou de bicicleta. Um silêncio súbito imposto por apreensão e ansiedade tomou conta da arquibancada… quase podíamos ouvir o barulho da energia cinética gerada pela movimentação da perna direita em direção à bola: Vlau!

Um foguete direto no ângulo. Pura explosão! Nós, que defendemos o canhoto Xodó em todo o percurso, gritávamos, gargalhávamos, nos abraçávamos feito crianças (bom, eu era criança), pulávamos de um lado para outro. A materialização da felicidade, em seu estado mais primitivo. Estávamos felizes com o time e com a gente, representando ali a verdadeira Fiel, a identificação consigo mesmo.

O lado dionisíaco da criatividade e da euforia cobra seu preço. Depois do gol, entorpecido pela adrenalina no sangue, indignado com os xingamentos anteriores e enfurecido com a posterior substituição, Neto arrancou a camisa e foi expulso.

Os repórteres correram para entrevistá-lo. Que erro foi esse de tirar a camisa e tomar cartão vermelho? Como fez isso? “Cara, cê viu o gol? Cê já viu gol mais bonito do que esse aí? Tá de brincadeira? Puta golaço de bicicleta. Fiz porque eu sou um cara que é artilheiro, só isso.” A mediocridade tentando entender o extraordinário. Não lhe parece uma impossibilidade lógica? Nunca serão, jamais serão.

Essa era a minha Pasárgada. Às vezes, tenho vontade de correr para lá. Depois, desisto. Acho que Ruy Castro, meu articulista favorito ao lado da Tati Bernardi (ela está especialmente afiada hoje!), é que está certo: “Pasárgada já deve estar lotada”. Eu quero mesmo é ir pra terra do nunca.

Lá, todo mundo é criança, tem menos de 16 anos, não precisa votar. Nós não temos o privilégio. Temos de decidir entre Jair Bolsonaro e Fernando Haddad: eis a imposição da vida adulta. Sonhamos com Peter Pan, acordamos com o Capitão Gancho.

Hoje é o último Day One antes da eleição. É quase uma obrigação falar disso. Os dois leitores desta newsletter sabem de meu histórico contra o PT. Não me abstenho da lembrança. Ainda somos os mesmos.

Gostaria, porém, de concentrar os comentários na ligação das eleições com os mercados. Mais especificamente, em duas questões sobre as quais mesmo o “smart money” (os reais ganhadores de dinheiro) se debruça hoje.

Direto ao ponto, a primeira questão é: dado o cenário ainda indefinido, principalmente no segundo turno, mercados já não teriam exagerado no apreçamento de um cenário muito otimista?

Minha visão é de que não. Minha perspectiva (nome elegante para “educated guess” ou, em bom português, “chute”) é de que as urnas mostrarão no domingo mais votos em Jair Bolsonaro do que as pesquisas no geral vêm apontando. Parece haver algum nível de voto envergonhado no 17, há uma onda crescente ainda em formação em prol do candidato do PSL e a invalidação de alguns títulos de eleitores no Nordeste desfavorece a candidatura de Haddad, fato que não está devidamente capturado nas pesquisas, cujas amostras, na tentativa de serem representativas, não estão capturando adequadamente esse fenômeno. Não me surpreenderia, inclusive, com uma potencial vitória já no primeiro turno — atribuo alguma coisa em torno de 30 por cento para esse cenário.

Ainda mais importante talvez seja a composição dos votos no segundo turno. Se comparar a pesquisa Empiricus/Paraná, disponível na sua área do assinante, com aquelas de Datafolha e Ibope, perceberá muito mais votos em Bolsonaro no segundo turno do que em Haddad. Eu não sei de nada, mas desconfio de muita coisa. Só confio na nossa pesquisa. E ponto-final.

Aliás, só um comentário rápido: foi vergonhoso o quanto se soube antes das pesquisas ao longo das últimas semanas. Ontem, falava-se sem qualquer tipo de vergonha na cara de que os mercados melhoraram durante o dia porque conheceram os números do Datafolha — se isso não é inside information, me desculpem, mas eu vivo em outro planeta. Não foi um caso isolado.

Volto à argumentação central.

Sem querer ficar muito técnico, mas o apreçamento do mercado hoje representa canonicamente o Valor Presente Líquido de um modelo binominal. Em português, o preço hoje é a probabilidade estimada para o cenário Haddad vezes o preço estimado para o cenário Haddad mais a probabilidade estimada para o cenário Bolsonaro multiplicado pelo preço estimado no cenário Bolsonaro.

Quase ninguém ainda dá 100% de chance para Bolsonaro. Ou seja, essa ponderação vai ficando, a cada dia, mais favorável ao candidato do PSL, o que indica uma média maior, pois o preço estimado no caso Bolsonaro é maior. Logo, o VPL desse binominal aí de cima ainda tem muito a subir.

Para encerrar a resposta à primeira pergunta, lembro do chamado “efeito certeza” das finanças comportamentais. De acordo com uma série de estudos na área, o mercado não vai colocando racional e proporcionalmente nos preços o aumento de probabilidade. Há uma reação desproporcional ao se ter certeza sobre algo, ao se passar do campo da mera possibilidade para real materialização da coisa.

Agora, a segunda questão, que me remete um pouco aos comentários de ontem do Paulo Leme: os mercados não estariam subestimando o risco de Bolsonaro não conseguir tocar as reformas de fato e não ser realmente liberal?

Tenho dois problemas com essa proposição ou pergunta. O primeiro é uma velha questão dos economistas: se sua forma de ver o mundo não está em conformidade com a realidade, a culpa não é da realidade. Eu não sei se Bolsonaro é ou não reformista — acho que há argumentos para os dois lados. Mas, neste momento, o mercado claramente o trata como reformista. Então, agora, basta.

Isso leva direto ao segundo ponto: “Ah, mas essa candidatura vai dar problema no Brasil lá na frente”. Eu também acho. Mas não dá para fazer o segundo gol antes do primeiro. Com a confirmação da vitória do candidato do PSL, os ativos de risco vão subir num primeiro momento. O que vai acontecer depois? Bom, daí teremos que pensar depois. Projetar o futuro já é difícil. Agora, o futuro depois do futuro já é insanidade.

Termino todo esse papo com considerações sobre a posição técnica do mercado. Gringo praticamente ainda não veio e institucional no Brasil não compra Bolsa. Está começando agora. Juro longo não tem liquidez, nem ninguém com posição e é outra coisa em que há muita gordura. O mercado é um teatro grande com uma porta pequena. Nos momentos de pânico, o caos realmente é maior. Mas preciso lembrar que a entrada também pode ser muito complicada. Se o investidor passa sua alocação em Bolsa de 1% para 2%, foi apenas um pequeno ajuste em seu portfólio. O fluxo para o mercado, porém, dobrou.

Por fim, seria infantilidade esperar que não haverá “overshooting” (algum exagero) no processo. Sempre há. E não necessariamente é ruim. Como escreveu J.M. Barrie para “Em Busca da Terra do Nunca”: “As crianças não deveriam ir pra cama à noite. A cada vez que acordam, estão mais velhas”.

Mercados iniciam a sexta-feira com ganhos, reagindo às novas pesquisas eleitorais, que apontaram Bolsonaro mais forte frente ao último Ibope. Na pesquisa Empiricus/Paraná, o candidato do PSL bate Haddad no segundo turno com alguma folga. Hoje, é basicamente isso a ditar o rumo dos ativos brasileiros.

Na agenda econômica, IPCA apontou inflação de 0,48%, contra expectativa de 0,44%. Lá fora, importante Relatório de Empregou mostrou a criação de 134 mil postos de trabalho

Ibovespa Futuro abre em alta de 1,44%, dólar e juros futuros recuam.

P.S.: Se você não viu com detalhes o que aconteceu com as opções de Petrobras e Banco do Brasil nessas últimas semanas, recomendo muito fortemente olhar isto aqui.