Quem vai pagar o pathos?

“A Empiricus completa oito anos. É indisfarçável a felicidade em ver a filha crescendo e aumentando sua expectativa de vida.”

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Quem vai pagar o pathos?

Amanhã a Empiricus completa oito anos. Falando assim, até parece muito. Normalmente, não penso nisso, mas, sem querer, sou quase forçado à constatação quando começam as conversas internas sobre o evento e as promoções de aniversário.

Duas coisas me alegram. Dada a taxa de mortalidade infantil das empresas brasileiras, já podemos nos colocar como sobreviventes. E o ambiente empresarial está sempre sob o efeito do chamado Lindy Effect – a expectativa de vida de uma companhia aumenta com o tempo. É mais provável uma empresa de 100 anos chegar ao próximo aniversário do que uma firma recém-criada completar seu primeiro ano de vida.

Tenho uma relação apaixonada com a Empiricus. Paixão no sentido grego de “pathos”, patologia – sendo assim, é indisfarçável a felicidade em ver a filha crescendo e aumentando sua expectativa de vida.

A verdade, porém, é que tudo continua igual. Mudamos fisicamente para o Pátio Malzoni, as almas ficaram na garagem da Sarita Cyrillo. Entro às 7h no escritório, leio os mesmos cinco jornais, escrevo com a mesma paixão, almoço nos mesmos lugares, convivo com o mesmo questionamento diário: “acabaram as minhas ideias. Amanhã não conseguirei escrever. Tenho certeza de que não terei mais o que falar. Sou um incompetente que acaba de usar sua última gota de criatividade para rabiscar algumas linhas.”

Para ser bem sincero, houve uma pequena mudança na rotina. Com o crescimento da empresa, muito acima do que nós mesmos podíamos imaginar no maior dos nossos delírios, a interlocução hoje é muito privilegiada. Falamos com quase todo mundo. Os acionistas relevantes, alguns gestores renomados, entidades setoriais, C-levels de todas as empresas. Assim, a qualidade da pesquisa fica muito melhor.

Não acredito em analista que não levanta da cadeira, nem na capacidade de se ter ideias efetivamente poderosas conversando consigo mesmo. Você precisar trocar experiências, ver sua tese sendo confrontada com a antítese de um interlocutor competente – desse embate de ideias e visões antagônicas que surgirá uma síntese mais poderosa. Não tenho dúvida de que hoje a Empiricus, entre outras coisas, é um hub das melhores ideias boas ideias que circulam pelo mercado. Nem é tanto mérito. É apenas a força das circunstâncias.

Na essência, porém, nada mudou. Rigorosamente as mesmas coisas que nortearam a fundação da companhia há oito anos continuam nos pautando agora. Nem se trata de uma escolha. Apenas somos assim. Acreditamos nisso, vivemos de acordo com nosso daimon. Como no mito de Er, nossas almas retornam do Hades com convicções além do contexto estritamente material. As almas têm seus próprios ancestrais e, contra isso, não dá pra brigar. O pathos foi concebido antes mesmo da nossa existência, sabe?

Fico reflexivo nessas horas. Penso nas coisas que nos trouxeram até aqui. Tento atribuir peso a cada uma delas. Carrego o hábito de entrar mentalmente nos detalhes, e depois investigo tim tim por tim tim.

Tenho absoluta convicção de que a maior responsável por estarmos aqui hoje é a sorte. Houve vários momentos em que a aleatoriedade decidiu a nosso favor. Sem isso, seria impossível estarmos nessa posição. Não acho que seja exclusividade da Empiricus. Vejo um papel fundamental das intempéries da deusa fortuna para explicar sucessos empresariais, financeiros ou dos investimentos. Claro que gostaríamos de acreditar que é pura competência. Infelizmente, porém, estaríamos sendo iludidos pelo acaso.

Não confundir com a percepção de que é só sorte. Há muita competência na caminhada também. Talvez isso lhe soe arrogante, mas definitivamente não é o caso. É simplesmente uma decisão ética. Se não nos achássemos aptos a fazer nosso trabalho e o estivéssemos fazendo, seríamos charlatões. Eu realmente acho que a equipe da Empiricus pode ajudar as pessoas a cuidarem melhor do seu dinheiro e a ter maior rentabilidade em seus investimentos. Acredito de coração que ninguém pode fazer isso melhor do que nós. O nome deste poder, para os devidos fins, é competência.

Primeiramente, por uma simples questão de tamanho. Hoje, temos a maior equipe de análise do Brasil e, sim, por vezes esse é um negócio que demanda braço (além de cérebro, claro). Por mais brilhante que você possa ser, dificilmente vai conseguir cobrir mais de dez empresas. A questão da escala, conforme falei ali em cima, também nos provê de uma interlocução sem precedentes. Assim, dar recomendações superiores acaba sendo uma obrigação, cumprida naturalmente com o apoio das vantagens competitivas construídas ao longo do tempo.

Depois vem a questão da qualidade das pessoas. De novo aqui entra um pouco de sorte. Sinceramente, não sei como conseguimos reunir essa turma toda aqui. Caio, Rodolfo, Beto, Bia – se eu fosse honesto, citaria a Olivia também, mas ela foi pra Inversa e, então, agora somos concorrentes. Se você soubesse o brilhantismo dessa a gente, ah…. dá um gosto… Motivo de orgulho mesmo.

Na análise especificamente, para citar apenas quatro casos, a Luciana Seabra faz a melhor cobertura de fundos de investimento do mercado, reconhecida por isso de A a Z. Mas, considerando a qualidade da cobertura por ai, não é só uma questão de ser melhor. É algo realmente excepcional. O Oba é, sem medo de errar, um dos melhores analistas de ações do Brasil, tanto do ponto de vista técnico quanto sob a ótica da interlocução pessoal, seguido por alguns dos maiores fundos de investimento do País – é essa qualidade que estamos levando também para as pessoas físicas por meio do Vacas Leiteiras e do Serious Trader. A Marília faz com que os investidores comuns possam ter rendimentos em renda fixa melhores do que a maior parte dos fundos macro brasileiros, tão especialistas em câmbio e juro. E o Daniel é simplesmente a maior referência em fundos imobiliários do mercado. Hoje, se alguém vai lançar um fundo imobiliário, uma das primeiras perguntas que fazem para esta pessoa é: “já falou com o cara da Empiricus?”

Isso sem falar na turma dos bastidores, que faz um trabalho brilhante e não aparece.

Certamente também, a superioridade ética e pragmática do research independente sobre aquele desenvolvido nos bancos cumpre papel fundamental. Sem conflito e sem obedecer a uma agenda comercial, o analista pode focar-se exclusivamente em estudar os cases e dar as melhores sugestões. Acertar os investimentos mais rentáveis já é difícil. Fazer isso ao mesmo tempo em que se procura fomentar outros negócios para o banco é quase impossível. De novo, é quase tautológico esperar resultados melhores de um research independente comparativamente àquele desenvolvido dentro de instituições financeiras.

Por fim, gosto de acreditar ainda que a qualidade da nossa filosofia de investimento nos faz uma equipe diferenciada, capaz de oferecer recomendações acima da média. É dessa postura epistemológica que eu gostaria de falar. Usarei a semana de aniversário para deixar claras as bases do que acreditamos na análise de investimento. Na verdade, é uma visão de mundo, uma postura diante de decisões sob um ambiente de incerteza, que acaba refletida na forma com que tentamos ajudar as pessoas a ganhar dinheiro.

Hoje, em particular, quero falar de dois reinos diferentes: o mediocristão e o extremoistão. Parece uma coisa meio Game of Thrones, mas juro que não é – embora eu não fosse reclamar se a Daenerys Targaryen aparecesse por aqui.

Pense numa amostra aleatória de mil pessoas. Calcule a média do peso dessa amostra. Sei lá, deve dar algo como 70 kg. Adicione a pessoa mais gorda do mundo à amostra (Marcelo, fica tranquilo, não vou citar nomes). Recalcule a média do peso. Houve impacto expressivo quando comparado à média do peso inicial? Não. Alguns poucos quilos no máximo.

Agora, na mesma amostra, calcule a renda dessas pessoas e tire a média. Some o Jorge Paulo Lemman à seleção. Recalcule a média. Provavelmente, JPL vai explicar 99% da renda média. Uma única observação muda tudo. Existe uma coisa com o JPL; e outra coisa sem o JPL.

O primeiro reino é o mediocristão. O segundo é o extremoistão.

Por que falamos disso? Porque o mercado financeiro é um negócio pertencente ao extremoistão. Mas a maior parte das pessoas insiste em acreditar que no contrário. Ou, ainda que reconheçam seu não pertencimento ao mediocristão, usam o mesmo instrumental analítico do mediocristão para formar postulações sobre o extremoistão.

Há várias implicações disso. Destaco duas. A primeira delas chamada de catastrophe principle (princípio da catástrofe): no domínio do extremoistão, é mais provável a ruína vir de um único evento do que de uma série de eventos negativos. Os riscos que efetivamente devem preocupá-lo são os riscos de cauda, não aqueles em torno da média. Por sua vez, os riscos de cauda são normalmente escondidos, desconhecidos, os chamados unknown unkowns de Donald Rumsfeld – por mais diligente que você seja, não vai conseguir mapear todos os riscos. E o pior: aqueles que não conseguir serão justamente os mais perigosos. Ninguém escorrega na casca de banana que está vendo na frente.

Por isso, sempre compre seguros contra catástrofes, mesmo sem saber exatamente a qual catástrofe potencial estamos expostos.

Como contrapartida, também podemos ter eventos de cauda positivos, capazes de explicar toda uma amostra. Pragmaticamente, poucos dias muito bons explicam quase integralmente o retorno de um ano anterior. Se você perder esses “dias especiais”, terá seu rendimento quase todo comprometido. E nunca saberemos quando vem um dia especial. Logo, você precisa se manter comprado, posicionado. Não adianta ficar girando, entrando e saindo, achando que vai saber a hora. Não, você não vai. Negocie menos.

Tenho quase certeza de que, se medíssemos os retornos das carteiras das pessoas em pontes de feriado, eles seriam estatisticamente anormais, ou seja, maiores do que a média dos outros dias. Com muita gente viajando, negocia-se menos, paga-se menos corretagem, faz-se menos besteira. Precisamos reconhecer os benefícios da inação.

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