Os cinco antifrágeis

Acreditamos que as pessoas físicas podem ter retornos iguais ou até mesmo melhores do que os ditos profissionais. Foi para isso que fundamos a Empiricus. E é por isso que estaremos aqui pelos próximos 80 anos.

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Os cinco antifrágeis

“Eu sou vários! Há multidões em mim. Na mesa de minha alma sentam-se muitos, e eu sou todos eles. Há um velho, uma criança, um sábio, um tolo. Você nunca saberá com quem está sentado ou quanto tempo permanecerá com cada um de mim. Mas prometo que, se nos sentarmos à mesa, nesse ritual sagrado eu lhe entregarei ao menos um dos tantos que sou, e correrei os riscos de estarmos juntos no mesmo plano. Desde logo, evite ilusões: também tenho um lado mau, ruim, que tento manter preso e que quando se solta me envergonha. Não sou santo, nem exemplo, infelizmente. Entre tantos, um dia me descubro, um dia serei eu mesmo, definitivamente. Como já foi dito: ouse conquistar a ti mesmo.” Nietzsche

Gosto de observar a passagem do tempo. Isso nos mantém com os pés no chão. Como no mito de Anteu em que Hércules o derrota retirando seu contato com o solo, o mercado financeiro e a atividade empresarial não admitem um segundo sequer de perda da conexão com a terra.

Sabemos da dificuldade de chegar até aqui, de como é tênue a linha de separação entre a ruína e a glória, e principalmente de como ainda estamos no começo da caminhada. Oito anos depois e eu ainda lembro da frase repetida incansavelmente pelo Ramiro: “confiança é muito difícil de se construir; pra perder, é um pulo.”

Precisamos ser fiéis ao que acreditamos. Penso em Bertrand Russell e seu clássico livro “No que acredito”: certamente o mesmo orgulho deveria nos ensinar a pensar verdadeiramente sobre o posto do homem no mundo.

Qual é o meu posto neste mundo? No que eu acredito?

Se somos realmente céticos, influenciados pelas ideias de Sextus Empiricus, talvez seja mais fácil começar pelo que não acredito.

Não acredito em super-heróis. Sou um analista que acredita muito pouco nos analistas (analistas aqui como representantes da classe de financistas; poderia ter escrito gestor, estrategista, economista, qualquer coisa parecida). Isso significa que eu duvido de mim mesmo, diariamente. Talvez você pense que, como um profissional ligado ao mercado financeiro, eu possa saber pra onde vão o dólar, a bolsa e os juros. A verdade, porém, é que eu não sei. Ninguém sabe. A única vantagem aqui é que sabemos que não sabemos – humildemente, entendo que é uma vantagem das boas.

Resumindo, eu posso fazer por você muito menos do que você imagina. Isso talvez depõe contra mim. Paciência. Acho mesmo que a maior coisa que posso fazer por você é evitar que faça muita besteira. Isso já é muito, mas talvez você ache pouco. A realidade é dura mesmo, embora ainda seja o único lugar onde podemos comer um bom bife.

Há um corolário prático importante do reconhecimento das próprias limitações. Se nunca saberemos com certeza a direção dos ativos financeiros, não podemos concentrar muito, alavancar ou precisar do dinheiro no meio do caminho se estamos lidando com produtos voláteis e de baixa liquidez. Se duvidamos de nós mesmos – por favor, duvide de você mesmo; desconfie daqueles que sabem tudo -, precisamos ter em nossas carteiras instrumentos que nos protejam de nós mesmos. Estar otimista com Bolsa e pessimista com o dólar significa que você vai ter Bolsa e dólar no seu portfólio – sim, está escrito certo.

Daqui decorre que não acredito em todo o instrumental das Finanças Modernas. Acho engraçado esse nome: “Finanças Modernas”. A idade moderna acaba com a revolução francesa, que foi justamente o Iluminismo (a luz da razão) achando que poderia nos prover de modelos mentais razoáveis para descrever o mundo. Os céticos não acreditam nisso não. DCF, CAPM, Markowitz, Sharpe, VaR, ARCH-, GARCH, T-GARCH, por ai vai. Nada disso vai ajudar.

Se destruímos todo esse instrumental analítico clássico, o que fazer? Se a aleatoriedade e a incerteza dominam o processo, só nos resta adotar uma postura niilista? No que acreditamos, então?

Primeiramente, acreditamos no falseacionismo popperiano. Isso nos liga imediatamente ao problema da indução de David Hume e à ideia do cisne negro tão repetida por Nassim Taleb. Não é porque as coisas sempre foram de um determinado jeito no passado que podemos pular diretamente para as conclusões de que serão também assim no futuro. Cem dias seguidos de Sol não implicam cento e um dias de Sol necessariamente.

Ter observado um milhão de cisnes brancos não garante a inexistência de cisnes negros. Basta um animal preto para invalidar (falsear) a teoria de que todos os cisnes são brancos. A relação não é de mão dupla. Você pode enxergar quantos cisnes brancos quiser, ainda não terá provado que todos os cisnes são brancos. Ausência de evidência não é evidência de ausência.

Não é porque você ainda não enxerga um candidato de centro competitivo para as eleições de 2018 que não haverá um. Não é porque não contemplamos a reforma da Previdência que ela não poderá ser ungida. Também não é porque você não vê riscos ao “crescimento global sincronizado” que eles não existam – volatilidade não é risco. Ao contrário, a menor volatilidade esconde riscos e isso pode ser particularmente problemático.

É justamente quando tudo parece bem que as pessoas se sentem mais confortáveis para arriscar um pouco mais, tomar um pouco mais de dívida, fazer um pouco mais de bobagem. Talvez por isso eu preferisse John Taylor a Jerome Powell no comando do Fed – precisamos acabar com essa supressão forçada da volatilidade, ainda que isso sacuda os mercados no curto prazo; seria melhor no longo.

Acreditamos também que o entendimento é um substituto ruim para a convexidade. Calma, é mais simples do que parece. O mundo é ininteligível. Nós não sabemos as coisas mais elementares sobre a existência. De onde vim, pra onde vou, quem sou eu, bla bla bla. Como podemos tentar entender sobre investimentos, sobre como irão se comportar os ativos financeiros? Não se trata de entender o mundo, mas de viver num mundo que não entendemos.

Eu não entendo nada de bitcoins – acho que nunca vou entender. Mas isso não me impediu de comprar um teco deste negócio (ok, ok, confesso: eu pedi ajuda pra Luciana na operacionalização). Não sei nada de criptomoedas, mas conheço seu perfil de retornos. Esse é o negócio. Pode subir pra 100 mil, pode cair pra zero. Topo jogar este jogo. Basta alocar aqui uma pequena quantia, aquela que você topa perder. Esse é o único caminho possível num mundo em que temos de decidir pela incerteza: opte pela convexidade (para simplificar: maior ganho potencial do que perda potencial).

Imagina que você tivesse 1.000 alternativas de perfis de retorno como o bitcoin. Várias apostas em que você até tem mais chance de perder, mas, se ganhar, vai levar uma mega bolada. A decisão racional é colocar um pouquinho de dinheiro nas mais variadas classes com essa matriz de payoff, mesmo sem entender do que se tratam. Você vai perder em um monte, mas naquelas em que sair vencedor, a conta estará paga, mais do que compensando os prejuízos locais.

Talvez já seja óbvio a esta altura: acreditamos na tentativa e erro. É claro que você pode ter 100% de hit rate – o time chuta uma bola no gol e faz um gol. Agora, me parece um tanto intuitivo que se você chutar várias vezes as chances de marcar um tento aumentam. Se você não está errando, não está tentando o suficiente. Somente a partir do erro é que evoluímos. Lembre-se que a mutação genética é um erro no processo; sem ela, ainda estaríamos em cima do galho de uma árvore, batendo no peito com os dois punhos cerrados e comendo banana.

Leia mais: Quem vai pagar o pathos?

O processo de investimento não implica não errar. Aqueles que nunca erraram certamente perderam uma série de possibilidades que os fariam mais ricos – eles apenas não perceberam isso, porque a história só conta o que aconteceu, não o que poderia ter acontecido. O segredo está em acertar mais do que errar e/ou em ter acertos maiores do que os erros. De novo, convexidade e assimetria – precisamos ser obsessivos com essas duas palavrinhas. O resto é charlatanismo típico dos super-heróis.

Por fim – a lista de crenças já está longa demais para um cético -, temos certeza de que não ter mapa é melhor do que ter um mapa errado. Hoje, em sua maioria, os profissionais de investimento carregam um mapa errado em suas bolsas, todos eles certos de que podem fazer o futuro caber em uma planilha de excel.

Nesse ambiente, acreditamos que as pessoas físicas podem ter retornos iguais ou até mesmo melhores do que os ditos profissionais. Foi para isso que fundamos a Empiricus. E é por isso que estaremos aqui pelos próximos 80 anos.

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