Carta ao meu sócio

Na Empiricus buscamos replicar as melhores práticas que vimos por aí. É assim que fazemos o melhor conteúdo de investimentos, de forma ética, independente e responsável. É nisso que estou empenhado há oito anos.

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Carta ao meu sócio

“Agora tenho 33 anos de idade e sinto que muito tempo passou e vai passando mais rápido a cada dia. Dia após dia preciso fazer todo tipo de escolhas sobre aquilo que é bom, importante e divertido, e depois preciso conviver com o confisco de todas as outras opções que essas escolhas eliminam. E começo a perceber que à medida que o tempo ganhar ímpeto minhas escolhas vão se dar num campo mais estreito e as eliminações serão multiplicadas em ritmo exponencial até eu chegar a algum ramo qualquer dentre as suntuosas ramificações complexas da vida onde estarei completamente trancado e cravado num único caminho e o tempo passará voando por mim em fases de estase, atrofia e decadência. (…) É apavorante. Mas como serei trancado pelas minhas próprias escolhas, parece inevitável – se desejo ser adulto de algum jeito, preciso fazer escolhas e lamentar eliminações e tentar viver com isso.”

Isso é David Foster Wallace, que foi contratado por uma revista para embarcar numa viagem de cruzeiro e escrever o que quisesse. Tenho uma conexão muito forte com aqueles que fazem, falam e escrevem o que querem, que se libertaram da escravidão e não mais precisam obedecer a uma reputação. Basta-lhes obedecer apenas a si mesmos. Seu único senhorio é sua própria alma. Reputação é para agradar os outros.

Vamos falar do que interessa: perseguição obstinada pelo melhor conteúdo de investimentos, feito de forma ética, independente e responsável. É nisso que estou empenhado há oito anos.

O mundo dos investimentos não é diferente da realidade cotidiana. Assim como também não é o esporte. Fico emocionado e feliz com a obsessão do João Pedro por futebol porque sei que ali dentro da quadra formam-se caráter, disciplina, respeito ao outro, obediência ao treinador e à hierarquia. Desenvolvi uma heurística pessoal que faz uma triagem inicial das pessoas pela forma com que elas praticam esportes coletivos. Do meu lado, sou muito grato ao professor Wanderlei, que ensinou a mim e ao meu sócio André Kiss desde a infância não só a jogar bola, mas a combater o bom combate. Tenho duas tatuagens no corpo: “Mãe” e “JP”. Gratidão é a terceira, mas está grafada na alma.

Nas finanças, quando você escolhe investir na renda fixa, está abrindo mão de investir em ações. E vice-versa. Obviamente, vale também para todos os outros ativos disponíveis por aí. Simplifico em duas classes só para facilitar a argumentação, sem qualquer perda de generalidade.

Talvez você tenha entendido onde quero chegar, possivelmente já identificou o problema. Seus investimentos não estão mais rendendo a mesma coisa. Virou papo de bar. “Acabou a rentabilidade da poupança.” Ou: “o dinheiro no banco não dá nada mais.”

Se você abrir o jornal hoje, vai ver como a aposta de um corte adicional na Selic na próxima reunião do Copom. De fato, parece que caminhamos para um juro básico de 6,5%. Ainda mais surpreendente é que se inicia entre as mais brilhantes cabeças do Brasil com conhecimento em renda fixa um debate sobre a possibilidade, inclusive, de haver novas reduções além do tal 6,5.

Isso porque a inflação oficial, em que pesem os indicadores de hoje (já falo sobre eles), vem sistematicamente surpreendendo para baixo. Em sua excelente coluna de domingo na “Folha”, por exemplo, Samuel Pessôa pontuou o quanto o Banco Central superestima a inflação do primeiro trimestre.

Eu, pessoalmente, não sei onde a Selic vai parar. Para ser sincero, acho que ninguém sabe. Aqui as pessoas se dividem entre as que não sabem e as que acham que sabem. Mas parece razoável supor que a Selic vai ficar baixa por muito tempo e os rendimentos tradicionais no banco serão ainda menores. Ou seja, o desconforto que você tem sentido com a baixa rentabilidade dos seus investimentos caso esteja na poupança, no fundo DI ou em qualquer alternativa pós-fixada só vai aumentar.

Subvertemos a aparente ordem natural da coisa e chegamos a um suposto paradoxo: a única forma de se manter igual é a partir da mudança. Se a situação muda, eu mudo – e você?

Por isso, encerro a semana com uma recomendação muito simples para lidar com esse desconforto, um bom chá para curar essa azia:

Pegue a fatia de seus investimentos destinados à renda fixa. Separe 10% disso. Desses 10%, pegue 85% (ou seja, 8,5% do todo) e compre BOVA11; use o restante para comprar SMAL11.

Se a opção da renda fixa ficou menos atrativa, você precisa considerar a alternativa. Vale para aqueles que já tem Bolsa e ainda mais para os outros. A ideia acima lhe garante essa exposição sistêmica ao mercado de ações, sem que você precise escolher esse ou aquele ativo específico.

Há, claro, a outra opção, em que você talvez queira escolher ações diretamente. Aqui, tomo emprestadas palavras da Dynamo, a mais consagrada gestora de ações do Brasil – merecidamente, fique claro. Mais especificamente, recorro à carta de 20 anos da gestora, chamada “Carta ao meu sócio”, em que o sócio Lula (não o condenado, óbvio; outro, muito melhor, Luiz Orenstein) escreve para seu parceiro Bruno, que coordena a Dynamo Londres:

“A cada discussão sobre os assuntos do trabalho, levamos ao limite a possibilidade de continuar discutindo. Por dois motivos. O primeiro vem do prazer de ouvir a argumentação do outro, um mecanismo egoísta de testar nossas próprias certezas. Não é à toa que uma vez por outra explicamos para os interessados que o método de construir teses de investimento na Dynamo é ‘popperiano’. Qualquer ideia individual apresentada fica exposta para ser falsificada, ser demonstrada falsa. Se sobreviver, vira bem coletivo. Não é fácil sustentar um processo assim. É preciso desapego a qualquer vaidade e ao individualismo exagerado. Posso estar errado, mas mais uma vez acho que demos o exemplo e estabelecemos o paradigma certo.”

Na Empiricus, tentamos copiar o paradigma da Dynamo. Aqui, claro, não estou comparando ao brilhantismo da Dynamo. Sei exatamente meu lugarzinho. Mas buscamos replicar as melhores práticas que vimos por aí. A cada segunda-feira, toda a equipe de 30 pessoas se reúne e cada analista expõe a tese que gostaria de incluir em sua carteira recomendada. Essa tese é colocada à mesa para ser falsificada. Caso não seja e receba a aprovação de toda a bancada, então ela passa a compor as sugestões do respectivo relatório.

Hoje, na verdade, as melhores casas de investimento, sejam elas do sell ou do buy side, trabalham assim, garantindo que se respeitem as liberdades individuais e, ao mesmo tempo, a opinião do consenso da equipe e a filosofia da respectiva instituição. Depois de ser tão bem escrutinizada, a chance dessa ideia de investimento ser vencedora e gerar lucros é muito maior.

Se você quiser acompanhar nossas escolhas de ações a partir desse processo, recomendo a assinatura da série As Melhores Ações da Bolsa, sob a responsabilidade direta de dois brilhantes analistas: João Piccioni e Max Bohm, além da participação da equipe também muito competente de assistentes de análise.

Se quiser acompanhar minhas ideias de investimento focados numa perspectiva macro e sistêmica, sugiro o Palavra do Estrategista. Para esses assinantes, com muita felicidade e orgulho (mesmo!) trago hoje a notícia de que meu amigo Marcos Troyjo, de quem sou fã, fará uma série especial de relatórios.

Marcos tem um currículo meio fraco, mas acho que até dá para o gasto. É graduado em ciência política e economia pela Universidade de São Paulo (USP), doutor em sociologia das relações internacionais pela USP e diplomata. É integrante do Conselho Consultivo do Fórum Econômico Mundial, diretor do BRICLab da Universidade Columbia, pesquisador do Centre d’Études sur l’Actuel et le Quotidien (CEAQ) da Universidade Paris-Descartes (Sorbonne), fundador do Centro de Diplomacia Empresarial e conselheiro do Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE). É colunista do jornal “Folha de S.Paulo”.

Neste momento em que discutimos o crescimento global sincronizado, um eventual novo ciclo de commodities e a influência do cenário mundial sobre os mercados brasileiros, é uma honra muito grande para mim dividir a série Palavra do Estrategista com o Marcos Troyjo. Honestamente, nem acho justo esse paralelismo.

A outra novidade é a entrada de Alexandre Schwartsman para escrever relatórios para as séries Tesouro Empiricus e Renda Fixa, mas essa suspeito que você já saiba. Há outras interessantes saindo do forno. Estou trabalhando nisso.

Mercados brasileiros iniciam a sexta-feira digerindo novos dados de inflação. IPCA ficou dentro do esperado ao subir 0,32%, pavimentando a via para nova redução da Selic em março. Já prévia do IGP-M veio acima das projeções, sem, porém, causar maior transtorno.

Agenda do dia é bastante importante, com famoso Relatório de Emprego nos EUA, que pode sinalizar os rumos para o juro básico norte-americano. Mercados ponderam ainda tarifas de Trump e redução da tensão geopolítica, com possibilidade de reunião entre EUA e Coreia do Norte, após sinalização em prol de abandono do programa nuclear da última.

Noticiário corporativo está quente, com imprensa falando de fusão iminente entre Suzano e Fibria (FIBR3 foi uma recomendação recente do Palavra do Estrategista, como um dos nomes favoritos no setor de commodities) e do progresso nas negociações entre Embraer e Boeing.

Ibovespa Futuro abre em ligeira alta de 0,2%, dólar está perto da estabilidade contra o real.