Eu nunca te pedi nada

Enquanto estão todos por aí alertando para as dificuldades das eleições e para a complexidade dos mercados emergentes em meio à subida de juros nos EUA, eu acho que você deveria ter um pouco de coragem e comprar algumas ações.

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Eu nunca te pedi nada

“Bem, você sabe, em alguns momentos, tudo que você precisa é de 20 segundos de uma coragem insana. Literalmente apenas 20 segundos de uma bravura indômita. E, então, eu posso lhe prometer: algo realmente grande virá a partir daí.”

Isso é Benjamin Mee, em “We Bought a Zoo”.

Minha versão favorita para a mesma ideia ainda é de Riobaldo, em “Grande Sertão: Veredas”: “O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”.

Enquanto estão todos por aí alertando para as dificuldades das eleições e para a complexidade dos mercados emergentes em meio à subida de juros nos EUA, eu acho que você deveria ter um pouco de coragem e comprar algumas ações.

Talvez você esteja chateado com a Bolsa, meio bravo com o desempenho do mercado acionário no último trimestre. Ok, eu respeito isso. Mas viver é rasgar-se e remendar-se. Acho que raiva e rancor não deveriam entrar na conta. O viés de representatividade (a tendência a recuperar da memória os fatos mais recentes e salientes, transportando-os para o futuro sem validação científica) também não. Retorno passado, seja ele bom ou ruim, não explica retorno futuro. Quer dizer: para as ações, até deveria explicar, mas no outro sentido. Se elas caíram muito, ficaram baratas e devem subir mais. Uma queda agora guardaria correlação com uma alta no futuro, preservadas as demais condições de temperatura e pressão.

Lá em casa, mamãe não deixava a gente nutrir ressentimento. Não podia levar a briga do jantar para o café da manhã seguinte. Riobaldo tinha regra parecida: “A gente carece de fingir às vezes que raiva tem, mas raiva mesma nunca se deve de tolerar ter. Porque, quando se curte raiva de alguém, é a mesma coisa que se autorizar que essa própria pessoa passe durante o tempo governando a ideia e o sentir da gente; o que isso era falta de soberania, farta bobice, e fato é”.

Mamãe ensinou a gente a nutrir amor. E eu encerro a introdução literária de novo apelando a Riobaldo: “Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura”.

Eu acho mesmo que você deveria amar ganhar dinheiro. E se permitir uma única vez que lhe convença de algo, seja de que compre um bocadinho de ações. O momento é agora, a recompensa é pelo resto da vida.

Se minha retórica não lhe é suficiente, apoie-se em fatos objetivos, no que é a realidade material, contra a qual, supostamente (essa palavra é sempre muito capciosa), não deveríamos lutar contra: Luis Stuhlberger está comprando ações e reduzindo dólar.

Mas hoje gostaria de ser um pouco mais específico. Talvez fique um pouco técnico demais para aqueles menos familiarizados com a renda variável ou idiossincrático em excesso aos mais interessados em ideias gerais. Ah, desculpe, mas paciência — haverá alguns dias assim mesmo; amanhã voltamos com a programação normal.

Noutro dia, coisa de uma semana atrás, falei aqui da obsessão da maior parte das pessoas pelo panorama político e macroeconômico. Alertei que ninguém estava dando bola para elementos de cunho micro capazes de gerar grande oportunidade de lucro, mesmo diante dessa zorra total brasileira. E o que aconteceu? Ninguém deu bola.

Volto ao tema hoje, justamente porque acho que há fatores micro gerando oportunidades muito interessantes de se comprar ações. Particularmente, ações de empresas de shoppings.

Talvez você tenha visto as notícias de provável fusão entre Aliansce e Sonae, ventiladas ontem. Desde que o Salles assumiu por lá, tínhamos uma sensação de que algo grande estaria por vir — por essas e outras, Aliansce era uma recomendação antiga do Serious Trader.

Se rolar mesmo (e deve rolar), a nova empresa teria a segunda maior ABL do setor e a terceira maior receita. Deve fazer algo algo perto de 800 milhões de reais de Ebitda em 2019, considerando aqui sinergias de 30 paus.

As duas empresas são as mais baratas do setor e me parece um tanto clara a necessidade de re-rating agora, com um potencial de valorização, mole, mole, de 35 por cento. Múltiplo EV/Ebitda consolidado estaria em 9,4x para o ano que vem, sendo que o histórico costumava rodar entre 11x e 12x. Assumindo um re-rating, sei lá, para 13x, é um potencial de valorização bem interessante.

Vale dizer também que ALSC já vinha fazendo uma bela reciclagem de portfólio, o que, em si, já deveria justificar um menor desconto para os pares do setor. Com a fusão, evolução operacional a partir de maior capacidade de negociação com lojistas e outros prestadores de serviços, aumento de liquidez das ações e melhora da estrutura/custo de capital, os múltiplos atuais parecem uma atrocidade.

Eu poderia estar roubando, eu poderia estar matando. Só estou pedindo para você ir aos shoppings fazer umas compras.

Mercados brasileiros dão sequência aos ganhos dos últimos dias e abrem a quinta-feira em alta. Wall Street volta do feriado de independência em clima de otimismo e espraia bom humor para cá.

Dólar cai em dia de maior disposição a risco e diante da expectativa por fluxo positivo, após Embraer entrar em acordo com a Boeing.

Agenda é bem importante nos EUA, com criação de vagas no setor privado, ata do Fomc, estoques de petróleo e pedidos de auxílio-desemprego.

Ibovespa Futuro abre em alta de 0,3% e juros futuros recuam, retirando parte do prêmio recente visto na curva. Parece que, ao menos momentaneamente, toda aquela pressão vendedora sobre emergentes foi superada. Sabe lá Deus até quando…