Eu rezo para que Deus exista

Agosto se vai com perdas importantes para os ativos brasileiros. No pior mês para as moedas emergentes em seis anos diante das crises turca e argentina, o real perdeu 8,5%. O Ibovespa caiu 3,21%.

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Eu rezo para que Deus exista

“Hope that God exists. I hope, I pray.”
James – Sit Down

“Em agosto, não se muda, meu filho. Dá azar.”

Eu não acreditava naquilo, claro. Queria logo trocar de apartamento para um menor. Papai havia acabado de falecer e precisávamos rapidamente estancar a sangria. A herança era justamente uma boa dívida no cartão de crédito, outra no cheque especial, além de um apartamento razoavelmente grande, ainda da época das vacas mais gordas.

Entre a mãe com depressão e um mês a mais naquele condomínio caro, eu claramente escolheria preservar a primeira. Esperamos setembro, não porque fui convencido a inclinar-me pelo campo das superstições, mas simplesmente porque era menos doloroso, ainda que pudesse custar uns reais a mais.

Agosto se vai com perdas importantes para os ativos brasileiros. No pior mês para as moedas emergentes em seis anos diante das crises turca e argentina, o real perdeu 8,5%. O Ibovespa caiu 3,21%.

Setembro nos reservaria melhor sorte?

Sinceramente, não sei. Acho que ninguém sabe. Há algo interessante para o mês, porém. Ele pode afastar boa parte das incertezas que tanto pesaram sobre agosto.

O Banco Central da Turquia acaba de se comprometer com vigilância sobre a inflação, o que pode significar ou não aumento de sua taxa básica de juro na semana que vem. E a Argentina pode revelar um novo pacote de medidas entre hoje e amanhã.

De um lado ou de outro, a dúvida será eliminada do processo. Teremos um pouco mais de certeza sobre essa crise recente nos mercados emergentes. E quando passamos para o campo da certeza, o apreçamento de um ativo muda desproporcionalmente. É o chamado “efeito certeza” das Finanças Comportamentais. Se você passa de 90% para 95% de chance de ocorrência, isso tem, na prática, um efeito menor do que sair de 95% para 100%.

A mente humana não gosta da incerteza, da dúvida. Por isso, atua sempre em prol da supressão da volatilidade, da continuidade de uma certa ordem no processo.

Toda construção até aqui pode ser aplicada também ao contexto das eleições brasileiras.

Em entrevista nesse final de semana, Fernando Henrique Cardoso propôs interpretação sociológica interessante sobre o fenômeno Bolsonaro: o mundo está em mudança constante e rápida; nesse contexto, alguém que simbolize a ordem tem alguma chance.

Pode até ser. Eu vejo um fenômeno um pouco psicanalítico, naquilo que Freud descreveu bem em “Psicologia de Massas e Análise do Eu”. No fundo, estamos todos atrás de um grande pai, capaz de pôr ordem nas coisas e nos oferecer um guia ético e moral. Veja que, no texto, há uma menção militar explícita: “O soldado toma o comandante como ideal enquanto se identifica com os seus iguais”. Deus mesmo seria esse grande Pai à espera para nos abraçar depois desta vida.

Talvez isso explique a boa transferência de votos de Lula a Bolsonaro, mais uma vez demonstrada em pesquisa do BTG hoje de manhã. Ainda que diametralmente opostos no aspecto ideológico, eles se misturam na preferência do eleitor. No eleitorado do petista, aqueles com maior escolaridade migram mais para Haddad; enquanto os menos educados vão mais para o candidato do PSL. O paternalismo de uma figura forte capaz para representar-nos como um grande pai é ambidestro, ataca na direita e na esquerda.

Outra análise curiosa se refere às analogias entre Donald Trump e Jair Bolsonaro. Ainda que possa haver semelhanças entre ambos, em especial no caráter antifrágil de receber ataques do status quo e do posicionamento contra o politicamente correto, existem também diferenças importantes por vezes negligenciadas.

Trump gozava de estrutura partidária forte, tinha dinheiro e, claro, estava nos EUA, não no Brasil. Falo isso em dois sentidos específicos. Primeiro, porque o voto por lá não é obrigatório. Essa característica pode fazer diferença. O voto apaixonado e o voto meio sem querer têm o mesmo peso. Ambos contam uma vez só. Lá, a paixão por Trump e a indiferença por Hillary podem ter implicado maior comparecimento dos eleitores do primeiro. Aqui, a ode a Bolsonaro e o mero aceite de um candidato de centro podem levar o eleitor à urna da mesma forma.

O mais curioso é que, embora insistam no paralelo, talvez ele acabe sendo indiferente aos mercados. Se Bolsonaro é mesmo Trump, então ele será eleito e será bom para os ativos brasileiros de risco (a despeito da visão concebida ex-ante, fato é que Wall Street experimentou um baita rali após a eleição do republicano) — com efeito, me parece bastante provável que os mercados locais passem por uma espécie de lua de mel com as promessas de atuação de um imparável Paulo Guedes. O que vem depois da lua de mel daí só Deus sabe.

Se Bolsonaro não é Trump, então ele pode desidratar e não será eleito, de tal sorte que comentários sobre um possível governo Bolsonaro seriam apenas elucubrações para satisfazer a curiosidade intelectual no campo platônico.

Também há uma diferença interessante a ser marcada entre ambos no campo da teoria dos jogos. Trump, queiram ou não, tem sido muito bem-sucedido até aqui em suas negociações bilaterais — pode não ser bom para o mundo, mas tem sido bom para os EUA. Agora, em economia e política internacionais, faz toda a diferença ser um país grande ou um país pequeno. O grande pode pressionar o pequeno, mas isso não é uma via de mão dupla.

A dúvida sobre a real resiliência de Bolsonaro começará a ser dissipada em setembro, junto a outras como: qual o poder de transferência de votos de Lula para Haddad? Qual a capacidade de Geraldo Alckmin crescer com o início da campanha eleitoral? Para onde migra o voto útil? Se Bolsonaro tem a maior rejeição e, entre os candidatos competitivos, oferece a menor vantagem sobre o candidato petista num eventual segundo turno, será mesmo que todo seu eleitorado é tão fiel quanto quer fazer parecer a minoria histriônica? Se a principal preocupação da centro-direita é evitar a eleição do PT, mais até do que eleger um candidato específico, fará sentido colocar Bolsonaro contra Haddad?

Nada disso podemos responder agora. Teremos de esperar, havendo de lidar com o desconhecido e transitando por uma tempestade que se avizinha.

Algumas sugestões de cunho prático para entrar em setembro:

i. No meio de uma tempestade, você não se preocupa em não se molhar. Você precisa chegar ao outro lado. Há momentos favoráveis à multiplicação patrimonial, há momentos mais propensos à proteção do patrimônio. Estamos no segundo caso. Prepare-se para a volatilidade. Esteja líquido (mantenha uma boa reserva de emergência) e diversificado (inclusive entre moedas). Aqui está uma ação gringa para comprar agora.

ii. A indicação acima pode suscitar o famigerado FOMO (Fear Of Missing Out), o viés cognitivo ligado ao medo de ficar de fora, perder uma grande oportunidade. Lembre-se que há todo dia perdemos várias oportunidades. O erro tipo 2 — tomar falso o que é verdadeiro — é aquele que podemos cometer. Não podemos fazer o contrário, incorrer no erro tipo 1 — tomar como verdadeiro o que é falso. O erro tipo 1 pode quebrá-lo, expulsá-lo do jogo para sempre. Pense ainda que, se você quiser participar da festa feito um louco, amanhã acordará com uma ressaca guerra, que vai impedi-lo de participar das próximas três comemorações. Toda vez que for acometido pelo FOMO, pense que na frente haverá também outras oportunidades imperdíveis. O mundo não acaba agora.

iii. Desista de querer adivinhar se o Banco Central da Turquia vai mesmo subir o juro, qual será o pacote da Argentina e quem ganhará as eleições brasileiras. Será perda de tempo e mesmo se você acertar, terá sido apenas sorte. Não confunda com competência. Pregue um post-it em seu computador: “Iludidos pelo acaso”. Um dos maiores erros é julgar-se excessivamente competente só porque um cenário convergiu para sua expectativa anterior.

iv. Foque na matriz de retornos potenciais e monte seu portfólio a partir disso. É o máximo que dá para fazer. Luis Stuhlberger, Nassim Taleb e Ray Dalio pensam a mesma coisa, só apresentam o argumento de forma diferente. Na carta de 20 anos da Verde, está lá ipsis litteris: “Essa retrospectiva mostra vinte anos de busca constante por retornos assimétricos”. Uma das definições de antifrágil de Nassim Taleb é aquilo que perde pouco num choque negativo e ganha muito num caso positivo. E Ray Dalio afirma: “Pense em toda decisão como uma aposta que pode trazer uma provável recompensa por estar certo e/ou uma provável penalidade por estar errado. Normalmente, uma decisão vencedora é aquela cujo valor esperado é positivo, no sentido de que a recompensa vezes sua probabilidade de ocorrer é maior do que a penalidade vezes sua probabilidade de ocorrer, com a melhor decisão sendo aquela de maior valor esperado”.

v. Como estratégia macro, a combinação Bolsa e dólar me parece oferecer um bom valor esperado.

vi. Como estratégia micro, prestaria especial atenção nas ações de Eneva. Com todos focados nas eleições e na crise dos emergentes, alguns racionais de cunho idiossincrático estão passando abaixo do radar. Belíssimo resultado do leilão na sexta-feira. Vai disparar provável processo de revisão para cima dos preços-alvo, empurrando ação para cima. Empresa tem melhorado muito e a ação ainda não acompanhou. Como diria Buffett, se um negócio vai bem, ao final, a ação acaba seguindo.

Em dia ruim para mercados emergentes lá fora, ainda sob incertezas com Turquia e Argentina, ativos brasileiros iniciam no vermelho. Cenário eleitoral incerto e ameaça de nova greve dos caminhoneiros também pesam. Liquidez é diminuída com feriado nos EUA, o que acaba aumentando volatilidade.

Agenda doméstica traz relatório Focus, IPC-S e dados da balança comercial. Nos EUA, mercados fechados por conta de feriado, enquanto atenção recai sobre eventual acordo com Canadá sobre questões comerciais — medo é de exclusão do país depois do sucesso das negociações com o México. No Japão, produção industrial veio em linha com esperado ao marcar 52,5 pontos em agosto, enquanto na China PMI/Markit desacelerou para 50,6 pontos.

Ibovespa Futuro cai 1,24%, dólar e juros futuros sobem forte.