A Pós-História está prestes a começar

O Fim da História se assenta basicamente sobre dois grandes pilares hegemônicos, e a transformação da retórica protecionista de Donald Trump com os EUA nos coloca no primeiro pilar.

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A Pós-História está prestes a começar

Como talvez você já saiba, o Brasil morreu em 2014. Uma morte prematura, quando completava 20 anos de idade e de Plano Real. Agora, está renascendo no que tenho chamado de Segundo Mandato Temer.

Não é sua primeira reencarnação, diria compadre meu Quelemém, personagem espírita de “Grande Sertão: Veredas”. Morremos no começo dos anos 60 com as mazelas do endividamento e da inflação inicial nos tempos JK. Renascemos com o PAEG de Campos e Bulhões. Aí falecemos de novo com o Segundo PND, que resultou na década perdida e no calote dos anos 80, em meio a todos os planos heterodoxos que culminaram com o confisco da poupança no Plano Collor. Voltamos à vida com o Plano Real e sucumbimos de novo com a nova matriz econômica.

Essas coisas são normais. A economia, a política e os mercados são ciclotímicos.

Mais curioso é que o Brasil morreu depois do mundo ter acabado. A História sempre caminhou num processo dialético, em que uma antítese se opunha à tese predominante. Desse embate, emergia uma nova síntese, que confrontaria uma segunda antítese. E assim a coisa ia se repetindo. Até que a queda do muro de Berlim em 1989 interrompeu essa brincadeira.

Naquilo que Francis Fukuyama chamou de “O Fim da História”, a democracia liberal e a globalização profunda se consolidavam com total hegemonia, sem qualquer antítese à tese. Teríamos chegado a uma síntese supostamente incontestável.

O “supostamente” é importante…

Há uma possível antítese começando a se formar. Se houve “o fim da História” por conta da quebra do processo dialético anteriormente, agora esse mesmo processo pode estar se reiniciando. O que vem depois do Fim da História? Proponho o termo “Pós-História”.

Antes de avançar, permita-me brevemente esclarecer o conceito, como se utilizasse de um marca-texto. Sempre amei marca-textos. Originalmente, o termo “pós-história” aparece na obra de Vilém Flusser, ainda em 1967. Para ele, o curso das coisas se dividiria em três grandes períodos. A Pré-História iria até a realização das pinturas rupestres de Lascaux e seria caracterizada por um raciocínio circular. A partir daí, teríamos a fase da História propriamente dita, marcada pela era da escrita e do pensamento linear, que seria interrompida pela revolução da informação e da comunicação para compor a Pós-História.

Valorizo a abordagem, mas aqui emprego o termo em outro sentido. Refiro-me à Pós-História com conotação semelhante àquela empregada pelo meu brilhante amigo Marcos Troyjo, diretor do BricLab na Universidade Columbia e futuro ministro (torço para isso pelo menos), na “Folha de S.Paulo” recentemente, ao cunhar a expressão “O Fim do fim da História”.

Do que estou falando exatamente?

Tenha em mente que O Fim da História se assenta basicamente sobre dois grandes pilares hegemônicos e até então inquestionáveis: i) a globalização irrestrita; e ii) a emergência de polos autocráticos de poder relevante e potencial influência global.

Sobre o primeiro ponto, começamos a assistir agora à transformação da retórica protecionista de Donald Trump em algo efetivamente material. Nesta quarta-feira, os mercados globais enfrentam grande aversão a risco, sob ameaça de uma guerra comercial iminente.

Gary Cohn deixou a Casa Branca emitindo um claro sinal de fortalecimento dos protecionistas e dos falcões no quesito imigração. Cohn é um moderado, ex-CEO do Goldman Sachs, e menos suscetível a questões de aumento de tarifas de importação e restrições ao livre trânsito de pessoas, mercadorias e capitais.

A hipótese aventada na véspera de que o aumento das tarifas sobre aço e alumínio era mera retórica para favorecer os EUA em futuros acordos comerciais foi afastada. Volta-se a discutir uma possível guerra comercial à frente, que obviamente poderia machucar o tal “crescimento sincronizado” dos países desenvolvidos e aumentar a instabilidade política global.

Em paralelo, a imprensa noticia que Donald Trump estuda controles sobre investimentos chineses nos EUA e sobre importações do país.

Então chegamos ao segundo pilar da Pós-História: a emergência de polos autocráticos com potencial impacto global. Já vínhamos antes com questionamentos locais aos valores democráticos, de que talvez Vladimir Putin possivelmente fosse o maior expoente. Ainda neste escopo, valeria citar Bashar al-Assad na Síria, Recep Erdogan na Turquia e Nursultan Nazarbayev no Cazaquistão.

Mas agora a coisa ganha proporções maiores, depois que o Partido Comunista Chinês retirou a restrição ao teto de permanência de um indivíduo na condição de presidente do país. Com isso, Xi Jinping pode ter mais de dois mandatos como comandante máximo da China, perpetuando-se no cargo e ferindo um dos princípios básicos da alternância de poder.

Cada vez mais, questiona-se o valor da democracia ocidental, num mundo em que oligopólios tradicionais de informação, como Google e Facebook, ainda não têm, no Oriente, a mesma penetração de outros lugares do mundo. Se, eventualmente, esses grandes monopólios ou oligopólios se juntarem a governos locais autocráticos, a partir de um fornecimento brutal de dados, podem fortalecê-los para um eventual conflito, comercial, político e/ou até mesmo bélico com o mundo ocidental clássico.

Em meio à bomba protecionista nos EUA, mercados iniciam a quarta-feira sob pressão, aumentando globalmente os prêmios de risco. A grande preocupação é justamente com uma possível guerra comercial à frente.

Agenda norte-americana revela Livro Bege do Fed, estoques de petróleo, dados do mercado de trabalho privado e crédito ao consumidor.

Por aqui, IGP-DI trouxe inflação ligeiramente acima do esperado, mas não retirou suposições de que os juros de curto prazo podem ser menores do que o anteriormente ventilado.

Ibovespa Futuro abre em baixa de 0,35%, dólar sobe contra o real e juros futuros longos avançam.

É melhor apertar os cintos, pois a Pós-História está só começando. Estamos em mares nunca dantes navegados.