Em qual ficção você quer investir hoje?

Aprendi com Jacques Rancière – e com Guimarães Rosa – que a ficção não é o oposto da realidade, mas sim a construção de um senso de realidade. A ficção, nesse sentido, é o complemento da ação.

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Em qual ficção você quer investir hoje?

Preocupados que estamos com o impacto das “fake news” sobre os ativos financeiros, acho que tenho uma solução: invadimos as contas do Facebook e trocamos todas as “fake news” por notícias ficcionais.

Aprendi com Jacques Rancière – e com Guimarães Rosa – que a ficção não é o oposto da realidade, mas sim a construção de um senso de realidade.

A ficção, nesse sentido, é o complemento da ação.

Nenhuma ação é a própria realidade, mas sim a construção de outro senso de realidade.

Quando estamos começando em Bolsa e calhamos de comprar uma ação, parece que estamos comprando uma empresa.

Ou, mais especificamente, o pedacinho de uma empresa.

Todos nós já cometemos esse erro.

Clicamos no botão do home broker e bradamos no almoço de domingo que agora somos sócios da Ambev.

Um brinde à Lei das SAs!

Sei bem que o preço de uma ação, seus múltiplos de valuation, seu fluxo de caixa descontado – tudo isso contribui para um senso de realidade.

Mas é só um senso, o senso quantitativo, pobre e fácil de entender.

Para enxergarmos a realidade propriamente dita, precisamos combinar os múltiplos com frações ficcionais, com pedacinhos de ficção corporativa.

Aí, sim, entra o ludismo de investir.

Não há um só bom investimento que não carregue uma boa história.

Ambev é a disciplina do orçamento base zero.

Embraer é orgulho nacional por ser orgulho gringo.

Natura é o lucro verde, cheiroso e do bem.

Vivo é um dying business de tele fixa que nunca morre.

O fundador da Localiza queria ser pianista, mas a bronca do pai o fez ser rico.

E tantas narrativas mais.

Só ganhamos dinheiro em Bolsa quando essas narrativas atingem seu clímax ficcional.

 

 

Isto é, quando uma ação que compramos ultrapassa a fronteira improvável onde algo acontece, quando não deveria acontecer.

Às vezes, acontece de uma empresa pagar gordos dividendos quando ninguém imaginava.

Essa empresa será então chamada de “Bezerra Leiteira” – e será protagonista da história daqueles que querem enriquecer com novas fontes de renda.

Hoje era uma vez um dia de Bolsas em alta lá fora, interpretando o morde e assopra da guerra comercial de Trump.

Por aqui, o assopra e assopra da ata do Copom dá todos os motivos que não faltam para a Selic chegar em 6,25%.

Ou a inflação evoluiu de forma mais benigna que o esperado ou a Selic caiu de forma menos rápida que o esperado.

Qualquer que seja a mesma alternativa, fique à vontade para escolher o seu único final feliz.