O ano em que meus pais saíram de férias

Há uma coisa pior no final do ano: ninguém quer tomar muito risco, tendo uma sensação de que 2017 já acabou. Quem foi bem no ano não quer nem saber de montar novas posições agora. Do outro lado, quem foi mal não quer nem ouvir falar do banker.

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O ano em que meus pais saíram de férias

Dezembro é difícil. Você tenta entrar em forma para passar aquele réveillon em Trancoso, mas a única forma que consegue assumir é a de barril. Com festa da firrrrma, ceia de Natal e uns 45 amigos secretos (será que dá pra fugir?), é mais fácil chegar rolando à Bahia.

Depois a gente lida com isso. Há uma coisa pior no final do ano: ninguém quer tomar muito risco, tendo uma sensação de que 2017 já acabou. Quem foi bem no ano não quer nem saber de montar novas posições agora. “Topo qualquer coisa, só não me ponha em risco minha taxa de performance.” Do outro lado, quem foi mal não quer nem ouvir falar do banker. Nego está tão bravo que nem atende o telefone. Lá pelo dia 20 de dezembro voltamos a falar, quando começamos a pensar 2018 mais pragmaticamente.

Este ano está mais problemático diante do acúmulo de ofertas de ações. Com o gringo leve neste momento, fica difícil absorver esse volume todo. Local até gosta de alguns casos, mas, sabendo estar sozinho nesta, acaba forçando os preços para baixo.

Só BR Distribuidora e Neoenergia podem movimentar algo perto de 12 bilhões de reais; se somarmos Burger King, vai pra perto de 15 bi. Isso porque, adequadamente aconselhada, Algar Telecom ficou para o começo de 2018, dado que não tinha gringo na jogada e local levaria o preço pro chão.

Com efeito, a tentação para sair de férias se mostra grande. É cedo, no entanto. Recorro ao argumento de autoridade.

Quando falo de George Soros, os bolsominions se revoltam – curioso como aqueles que mais criticam a patrulha do politicamente correto são ainda mais agressivos e organizados em sua própria milícia. Se você ousa falar qualquer coisa que possa, eventualmente, contrariar o pensamento do “Mito”, um exército bastante violento se revolta instantaneamente, pagando de ético, defensor da moral e dos bons costumes.

Está ai mais uma ambivalência brasileira: a direita defende um liberalismo radical na economia, mas que jamais pode chegar aos costumes; e a esquerda é o contrário, apelando em favor de costumes liberais e do controle da economia por um Estado forte. Onde estão os verdadeiros liberais, para quem as liberdades individuais não encontram fronteiras?

Como hoje não estou para briga, desisto do Soros. Ok, vocês venceram! Vamos falar de Stanley Druckenmiller, de uma ideia apresentada no livro “The New Market Wizards”. Ele diz mais ou menos assim (desculpem pela tradução porca):

“George Soros tem uma filosofia que eu também adotei para mim. A maneira para construir retornos consistentes de longo prazo é por meio da preservação de capital e de alguns home runs. Você pode ser muito mais agressivo quando está tendo bons lucros. Muitos gestores, quando sobem 30 ou 40%, encerram seu ano ali – isto é, passam a agir muito cautelosamente no resto do exercício, como forma de preservar o bom retorno acumulado até ali. A forma, porém, de apurar retornos verdadeiramente superiores no longo prazo é produzir retornos de 30 ou 40% e, então, se você ainda tiver convicções, perseguir 100% no ano! Se você puder reunir uns poucos anos de retornos próximos a 100% e evitar períodos de retornos muito negativos, então assim atingirá retornos espetaculares no longo prazo.”

E o que mais Druckenmiller aprendeu com George Soros?

“Eu aprendi muitas coisas com ele, mas talvez a mais significativa seja que não importa muito se você está certo ou errado. O relevante mesmo é quanto você ganha de dinheiro quando está certo, comparativamente a quanto você perde quando está errado. As poucas vezes em que Soros realmente me criticou foi quando eu estava certo sobre o movimento do mercado e não maximizei os lucros potenciais dessa oportunidade.”

Em que pesem erros pontuais ao longo do ano, estamos bastante satisfeitos com os retornos acumulados até aqui, certamente ajudados pela sorte e pelas forças aleatórias. Se beiramos, no agregado, 20% em 2017, isso é ótimo. Mas vamos atrás de mais. Do quanto mais? Não sei, mas é bastante, acima do que nossas mentes lineares e com tendência ao gradualismo tendem a imaginar.

De repente, você pega uma reforma da Previdência e uma união em favor de um candidato de centro para 2018, esse negócio rasga mais uns 10% na nossa cabeça. Seu corpo em forma de porpeta pode até ir para Trancoso, mas a cabeça continua na mesa de operações. Investidor não tira férias.

Leia mais: Enquanto olham para a Previdência

Mercados iniciam a terça-feira próximos à estabilidade. Exterior exibe cautela, no aguardo da audiência de Jerome Powell no Senado dos EUA e das indefinições em torno do plano tributário de Donald Trump. Commodities registram queda após vigor recente.

Por aqui, há, na margem, um pouco mais de otimismo, diante da visão de que Geraldo Alckmin como presidente do PSDB pode aumentar as chances de aprovação da reforma da Previdência. Definição de bandeira tarifária vermelha no nível 1 abranda prognóstico de inflação e adiciona um pouco mais de disposição a risco – nada também muito vigoroso.

Na agenda, destaque para preços de moradias e confiança do consumidor nos EUA. Por aqui, dados fiscais são a principal referência do dia.

Ibovespa Futuro abre em alta de 0,27%, dólar apresenta leve queda de 0,12% contra o real e juros futuros demonstram instabilidade, com ligeira predominância da tendência de baixa neste momento.

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