Por que Buffett perderia a aposta no Brasil

Um fundo de investimento escolhido por Warren Buffett, que replica o S&P, principal índice da Bolsa americana, superou em retorno na última década cinco fundos de fundos selecionados pela consultoria Protégé Partners.

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Por que Buffett perderia a aposta no Brasil

Desde o pinheiro nevado e o Papai Noel da Coca-Cola, não se tropicalizava tanto o que foi produzido ao Norte quanto tem sido feito com a aposta do velhinho de Omaha.

O megainvestidor Warren Buffett ganhou a aposta. Fato. O soldado escolhido por ele – um fundo que replica o S&P, principal índice da Bolsa americana – superou em retorno na última década cinco fundos de fundos selecionados pela consultoria Protégé Partners.

A vitória acaba de ser anunciada na carta anual da Berkshire Hathaway como uma lição de investimento. A Protégé perdeu feio. O portfólio que chegou mais perto do ganho do índice entre 2008 e 2017 teve retorno de 87,7%, ainda muito abaixo dos 125,8% do fundo de S&P.

Hoje o Felipe abriu este espaço para que eu possa contestar a defesa da gestão passiva que ele compartilha com o Buffett, o que mostra, um, que de fato vivemos em uma democracia e, dois, que eu não devo estar muito bem da cabeça, ao contrapor publicamente o oráculo da Bolsa.

Não vou aprofundar aqui o mérito de se o resultado da aposta pode ser extrapolado para todo o mercado americano – mas é bom dizer que nem isso é consensual.

A bancada da gestão ativa defende, por exemplo, que Buffett poderia ter um oponente melhor. Os portfólios da Protégé Partners estavam recheados de hedge funds – multimercados, na tradução mais fiel. Ao reunir produtos que não operam somente ações, o alocador da Protégé não teria feito apenas uma aposta na gestão ativa, mas também na superioridade de um mix de ativos sobre a Bolsa no período.

Além disso, a Protégé claramente não fez uma seleção criteriosa de fundos. Pelo contrário: os cinco portfólios investiam juntos em mais de 200 hedge funds. Sendo assim, o oponente de Buffett tinha grande chance de que o retorno de sua seleção convergisse para uma média de mercado.

Como diria um colunista da Morningstar, a maior provedora de dados de fundos do mundo, esse tipo de análise diz mais sobre a baixa qualidade das médias do que a respeito de qualquer outra coisa.

Nem o mais bem-sucedido alocador de fundos do mundo, David Swensen, da Universidade Yale, defende que os fundos na média batem o índice. Ele próprio escreveu dois livros: um voltado para o investidor profissional, em que advoga os critérios para selecionar gestores ativos; e outro para a pessoa física sem assistência, em que defende o investimento indexado.

Deixemos, entretanto, o mercado americano um pouco de lado e olhemos para a nossa cozinha. Aqui nem a média dos fundos de ações livres – aqueles em que os gestores não se apegam ao índice para selecionar ativos – perdeu para o Ibovespa. Nos últimos dez anos, o retorno deles foi de, em média, 103,56%, contra 19,59% do Ibovespa. Uma lavada, não?

O Felipe argumentaria – com razão – que há viés de sobrevivência. Alguns fundos morreram no meio caminho: muito provavelmente, os ruins, deixando a média mais bonita. Como nossa indústria é relativamente nova, a amostra dos que existem há uma década é pequena: de somente 52 fundos.

Para minimizar esse viés, uma opção é fazer a análise ano a ano, incluindo os fundos que foram fechados ao longo da década. Dessa forma, ampliamos nossa amostra para 484 produtos. Veja só:

Perceba como em sete dos dez anos a média dos fundos bateu o Ibovespa.

Aqui você pode argumentar, com razão, que o Ibovespa foi, por grande parte da década, um índice fácil de bater. A metodologia do principal índice brasileiro era falha e foi alterada em 2014, ficando mais próxima à do IBX – que, apesar de menos famoso, é considerado mais representativo.

Comparemos então os fundos de ações livres brasileiros com o IBX:

Temos ainda seis de dez anos de superioridade da gestão ativa em terras tupiniquins, sendo que a vantagem nos anos de ganho é maior do que o demérito nos de perda. Tanto que, no acumulado, temos 103,56% dos fundos contra 48,62% do IBX.

Os retornos dos fundos na tabela já são obviamente descontados de taxas de administração e performance. Demos uma colher de chá ao índice e não embutimos os custos de investir nele, mas bom dizer que no Brasil eles são mais elevados do que lá fora.

Por que a gestão ativa superou o índice mesmo na média? Não sei, só sei que foi assim, como diria o glorioso Chicó.

Tenho algumas hipóteses, na verdade, como a ineficiência do mercado, mas são só hipóteses. Você obviamente quer saber sobre o futuro: investir em ações ativamente ou passivamente?

Aqui saímos do campo dos fatos e vamos para o das apostas. Se a média dos gestores tem batido o índice até aqui, parece-me provável que uma seleção – que levasse em conta critérios como cuidados com risco, tempo em que a equipe trabalha junta e consistência histórica – seria capaz de fazê-lo nos próximos dez anos.

Não fosse assim, estaria eu aqui sugerindo fundo de índice de Ibovespa, assim como investindo neles (por que mesmo o Buffett não para de gastar energias selecionando empresas e investe todo seu dinheiro em um ETF de S&P?).

Aliás, acabei de firmar uma aposta com o Felipe Miranda para os próximos dez anos. Do lado dele, o ETF de Ibovespa. Do meu, a média de nove fundos bastante comprados na Bolsa brasileira. Já escolhi meus cavalos:

Atmos Ações
Alaska Black Institucional
Bogari Value
Brasil Capital Ações
Dynamo Cougar
HIX Capital
Nucleo Ações
Perfin Institucional
SPX Falcon.

Está dada a largada!

Por ora, o Ibovespa futuro opera estável, depois de um primeiro bimestre embalado principalmente pelas ações ligadas a commodities e bancos – sendo que o setor financeiro teve leve recuo no rali ontem. Mercado espera novas informações da Vale sobre rumores de oferta de ações.

O dia começou com dado de inflação baixa – IPC-S de fevereiro em 0,17% – e alta de 1% do PIB, retirando o Brasil oficialmente da recessão. Ainda para hoje são esperados dados de vendas de veículos em fevereiro.

A expectativa sobre os Estados Unidos concentra-se na divulgação de dado de inflação e na fala do presidente do Fed (banco central americano) aos senadores.

Dólar opera estável contra o real e juros futuros curtos em baixa, enquanto os mais longos abrem.

P.S.: Se você tem dinheiro na poupança, fundo DI ou CDB ou conhece alguém que ainda tenha, peço por favor que não vá dormir hoje sem ver este meu alerta.