Como operar a Previdência?

Se aprovarmos a reforma, os ativos brasileiros devem subir. Caso contrário, tendem a reagir negativamente. E o pior: ninguém sabe exatamente o que vai acontecer.

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Como operar a Previdência?

Quando fiz 30 anos, abandonei a volância para jogar na lateral-direita, sob o apelido “Coca 3 litros”, aquele que quando passa do meio perde o gás. Com esse ótimo condicionamento físico, era substituído no segundo tempo pelo Camisinha, que ninguém gosta, nem o técnico, mas tem que por. Quando estávamos perdendo, às vezes entrava o Fumaça, que jogava de ponta, embora também fizesse a função de beque.

Até quebrava um galho na lateral. Direita, fique claro. Ruim mesmo era quando o Bigode inventava de me escalar com a 6, na canhota. Ficava completamente torto pela esquerda, passava vergonha. Até hoje procuro o gênio defensor de que as duas laterais são a mesma coisa. Realmente, é o mesmo número, só com o sinal de menos na frente.

Lembro quando o Dunga escalou o Daniel Alves pela esquerda na Copa das Confederações. Acho que foi contra a África do Sul, do Joel Santana. Será que não tinha um brasileiro canhoto pra escalar na lateral esquerda e tínhamos mesmo de improvisar?

O pior de tudo é que o cara entrou e bateu uma falta inapelável, um míssil no próprio canto do goleiro, classificando o Brasil, numa daquelas demonstrações de que a aleatoriedade acaba resolvendo as coisas. Iludidos pelo acaso, quase todos chamaram o Dunga de gênio, visionário. Pra mim, o Dunga era só… bom, o Dunga.

As decisões em ambientes de incerteza devem ser julgadas quando são tomadas, não a posteriori. Precisamos ser avaliados pela qualidade da decisão ex-ante, condicionados ao conjunto de informações disponíveis ao apertarmos o botão, em vez de esperar o tempo passar para julgar depois. Em retrospectiva, tudo será óbvio.

Se você colocou 100% do seu dinheiro em bitcoins no começo do ano e for ser julgado pelo resultado desse trade, provavelmente vai ser considerado o maior investidor do planeta Terra. Se você se alavancou nisso, será o maior investidor do Sistema Solar. Na verdade, porém, você só foi um irresponsável. A história narra apenas o que foi, e não o que poderia ter sido. A diferença entre as duas coisas é mais tênue do que gostaríamos de acreditar, e a separação entre os cenários por vezes se dá exclusivamente por forças aleatórias.

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Não dá pra julgar pelo resultado, embora o mercado financeiro só faça isso. Elege seus gênios e vilões a partir da fotografia da cota ao final do ano, numa das maiores demonstrações de fragilismo e incompreensão do quanto a aleatoriedade pode ter influenciado naquele desempenho.

Construo o argumento na iminência do recesso parlamentar e da possibilidade de votação da reforma da Previdência ainda em 2018. No curto prazo, dada a importância do tema e a demonstrada sensibilidade dos mercados ao assunto, estamos claramente diante de um cenário binário.

Se aprovarmos a reforma, os ativos brasileiros devem subir. Caso contrário, tendem a reagir negativamente. E o pior: ninguém sabe exatamente o que vai acontecer.

Não saber não significa não agir. X (a realidade) não é f(X) (como a realidade lhe afeta). Desprovidos do conhecimento do que vai acontecer, ainda assim podemos nos proteger ou nos posicionar para lucros. Você não sabe quais doenças podem abater-lhe em 2018, por isso contrata um seguro saúde bastante amplo.

Dado que não sabemos se a Previdência vai passar ou não, olhemos para a matriz de retornos potenciais, perseguindo assimetrias talvez interessantes para nos expormos. A qualidade da sua decisão sobre o que é certo fazer em 12 de dezembro de 2017 precisa ser medida hoje, não depois, quando todos já conhecerão o resultado da coisa.

Se o goleiro bate um tiro de meta na direção do gol adversário, aquilo é um erro, independentemente se a bola vai entrar ou não – no momento da decisão, foi uma atitude inadequada, cuja probabilidade de acerto era baixíssima.

Como a maior parte dos grandes investidores não espera que a Previdência seja aprovada, está no preço dos ativos hoje uma baixa probabilidade de ocorrência do cenário positivo. Em outras palavras, temos mais a subir caso a Previdência passe do que a cair no caso de fracasso. Isso é um primeiro ponto importante a favor de um posicionamento comprado.

Isso quer dizer que não há downside no caso de fracasso das negociações? Não. Entendo que os ativos brasileiros sofreriam, sim, nesse cenário. No entanto, deve ser algo comedido e de curta duração.

Primeiro porque, como já falado, a maior expetativa é justamente de não aprovação do tema agora. Depois, porque o assunto não estaria liquidado. Se atrasarmos a votação da reforma, o governo logo vai se apressar para “cozinhar o galo”, prometendo votar no início de 2018 e gerando uma série de fatos (e factóides) para garantir a agenda de reformas fiscais ainda respirando, mesmo que por aparelhos. Trata-se apenas do viés de sobrevivência – não há alternativa para o governo Temer; é a expectativa por reformas que o mantém lá.

Mais do que isso, mesmo na hipótese de aprovação da atual proposta de reforma da Previdência, teremos de revisitar o tema no próximo governo, para endereçar com maior profundidade a questão. Daí decorre que a eleição presidencial de 2018 é um driver muito mais relevante do que a aprovação da reforma da Previdência agora. Mesmo um fracasso das negociações agora poderá ser sobrepujado pela recuperação do tema sobre o assunto ao longo do próximo ano, contanto, claro, que caminhemos para a eleição de um candidato reformista.

Resumidamente, portanto, meu entendimento da matriz de payoff é o seguinte:

i – caso a reforma da Previdência seja aprovada, teremos uma alta significativa dos ativos de risco brasileiros no curto prazo, pois esse cenário não está hoje muito incorporado aos preços; e
ii – caso a reforma da Previdência não seja aprovada, podemos ter, sim, uma queda nos ativos de risco brasileiros, mas ela tende a ser comedida e temporária, diante de prováveis declarações do Planalto em prol da retomada da agenda reformista em 2018 e da expectativa de recuperação do tema a partir da eleição do novo presidente. Ainda que atrasemos a reforma, ela poderia vir, mais ampla e profunda, em 2019.
O corolário pragmático a partir da assimetria supramencionada é de que devemos nos manter comprados, sem irresponsabilidade e com os cintos devidamente afivelados. Haverá volatilidade, idas e vindas e momentos em que teremos a certeza de que “não vai dar”. No final, as coisas terminarão bem.

Se você não se sente confortável em enfrentar o cenário binário de frente, uma alternativa é combinar uma elevada posição comprada, com uma boa alocação em puts (opções de venda). Assim, você consegue surfar o alto upside e, ao mesmo tempo, se proteger no caso de as coisas degringolarem.

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Mercados iniciam a terça-feira sem tendência definida. Ponderam possibilidade de adiamento da reforma da Previdência para 2018, ata do Copom e alguma morosidade no exterior.

Segundo a Folha de S.Paulo, Michel Temer já admitiria deixar votação da Previdência para o próximo ano, sem identificar os votos necessários para aprovação agora.

Ata do Copom apontou falta de reformas como risco para a continuidade do processo de flexibilização monetária. Eventual deterioração do cenário externo também pode impedir Selic de cair ainda mais.

Lá fora, destaque para início da reunião do Fed, com conclusão amanhã e queda dos metais, que derruba ações de commodities hoje. Inflação ao produtor nos EUA atrai atenção. Por aqui, IPC-Fipe, safra agrícola e emprego na indústria completam a agenda.

Ibovespa Futuro abre em baixa de 0,4%, juros futuros estão perto da estabilidade e dólar cai ligeiramente contra o real, após BC garantir liquidez da moeda estrangeira.

Com aceitação recorde, encerraremos nos próximos dias as adesões ao Alliance Empiricus, um dos planos de melhor custo-benefício da casa. Recomendo ao menos passar os olhos nas condições especiais desta terça.