Ganância é bom, se for a longo prazo

Eu sei que você gostaria de ganhar milhões hoje. No máximo, amanhã. Mas não dá.

Ganância é bom, se for a longo prazo

Claudinha pesa 87 kg. Mede 1,63 m. Está empolgadíssima. Amanhã, ela será madrinha de casamento de sua prima. Entrará na Nossa Senhora do Brasil acompanhada por Rubens. Eles ainda não se conhecem, mas Clau já pode imaginá-los com dois filhos.

Ele é velho amigo da noiva e do noivo, de quando ainda moravam em Araçatuba. Carlos, o noivo, aponta Rubens – segundo ele mesmo se define, um apaixonado por “gordelícias” -, como o par ideal.

Claudinha precisava de um vestido novo, claro. Na semana passada, foi à Pat BO. Apaixonou-se por um modelito lá. Estava decidida quanto ao produto, questionava qual a cor ideal. Um vermelho escuro, semelhante aos vinhos Bordeaux; ou um amarelo mais claro.

A segunda opção fazia parecer-lhe pesar 104 kg. A primeira, 78 kg. De fato, ainda não era uma assimetria tão convidativa – a silhueta em forma de pera dificultava o disfarce. De todo modo, qualquer cidadão dotado do sentido da visão – exceção feita, claro, aos amantes das gordelícias (com todo respeito, mas esse termo nunca fez sentido pra mim – em tempo: falsa magra é bem legal) – perceberia as vantagens do Bordeaux.

“Que cê acha?”, perguntou Claudinha à vendedora.

Pausa.

Notas do editor: como o vestido amarelo é um grande mico, o gerente da loja estabeleceu um bônus adicional à vendedora que conseguisse vender aquilo. Se ela vendesse o vermelho escuro, ganharia 50 reais. Se empurrasse o amarelão, 100 reais. Qual você acha que foi a imparcialíssima opinião da vendedora?

Volto ao diálogo.

“O amarelo ficou liiiiindo. Te jogou pra cima, sabe? Uma alegria. Tá iluminada, dançante, uma coisa calorosa.”

“Vou levar, então!”

Agora, troque Claudinha por investidor. E a loja de roupa por corretora ou banco.

Se você concentra numa mesma entidade as funções de venda e aconselhamento, aquilo vai dar problema. Cedo ou tarde, a tentação, um momento de desespero, uma fraqueza momentânea empurrará o auto-interesse imediato acima das demais motivações. Não é uma tendência individual, uma constatação contra a leviandade de determinada classe de profissionais. É a natureza humana.

Dan Ariely fez uma palestra inteira sobre isso no Congresso da B3. Não confie nas pessoas. Confie no alinhamento de interesses, no estabelecimento de regras transparentes e justas. É isso que vai garantir um tratamento adequado ao cliente. Se você expõe um cidadão ao conflito de interesse, uma hora ele vai ceder.

Se o sujeito distribuir um fundo de investimento mediano ao cliente e aquilo lhe pagar 100 reais, ele vai empurrá-lo com mais dedicação do que faria se houvesse um fundo melhor ao cliente, mas pagando apenas 50 reais ao “vendedor”.

Se negociar mais vezes implica mais corretagem, o incentivo está todo para a corretora fomentar trades de curto prazo.

Como alinhamos os interesses?

Sidney Weinberg, antigo líder da Goldman Sachs, tinha uma expressão formidável para sintetizar a coisa: devemos ser gananciosos a longo prazo. Essa é a única forma de respeitarmos a natureza humana e darmos os incentivos corretos para todos os participantes da indústria financeira – a rigor, para qualquer outra, mas vamos nos ater ao escopo.

Do ponto de vista do investidor, só pode haver foco no longo prazo. Eu sei que você gostaria de ganhar milhões hoje. No máximo, amanhã. Mas não dá. É uma mera dedução lógica.

Se há desconto hiperbólico – e há -, o longo prazo necessariamente estará underpriced (subvalorizado), enquanto o curto prazo representa seu antagonista. Já falei aqui algumas vezes e não há razão para repetição. Mas em linhas gerais se trata da tendência de sermos muito impacientes agora e queremos logo uma recompensa, na esperança de que seremos disciplinados e pacientes no futuro. “Na semana que vem, eu começo o regime.” Hoje, eu quero um doce, não consigo me privar de nada. Mas amanhã eu vou conseguir. Ninguém topa o sacrifício, ninguém quer ceder as tentações imediatas em prol de um benefício vigoroso lá na frente. Sem demanda, os benefícios vigorosos lá na frente estarão baratos.

Além disso, as séries financeiras seguem um passeio aleatório no curto prazo. É uma espécie de caminhar do bêbado. Você, nem eu, nem Warren Buffett, nem Sergio Moro, nem Anitta podemos saber para onde vão os ativos no próximo tick. A longo prazo, porém, há uma crença de que essas coisas caminham para seus reais fundamentos econômicos, esses sim materiais e observáveis.

Por fim, se você negocia focado no curto prazo, obviamente fará mais movimentações. E como você paga por cada movimentação, acaba incorrendo em mais custos de transação. A cada custo, uma desvantagem adicional.

Para o investidor, portanto, somente o foco no longo prazo pode ser possível.

O curioso é que para o vendedor também. Quando Weinberg propôs a ganância a longo prazo, ele não pensava somente no cliente. Ele pensava no futuro da própria Goldman Sachs, intertemporalmente.

Se você oferece um produto ruim e caro ao cliente, ele simplesmente não volta. Pode demorar, mas ele vai perceber o que está sendo feito. Neste momento, ele vai perder totalmente a confiança no vendedor. Foi-lhe oferecido algo ruim somente para que pagasse mais taxas. Isso, claro, quando ele não morre antes de descobrir. E se ele morreu, obviamente não vai comprar de novo. O exército de White Walkers se veste muito mal, aliás. O parasita precisa do hospedeiro vivo.

Depois de parecer um Sol, no tamanho e na iluminação, na cerimônia de amanhã e enfrentar os comentários sempre muito delicados das cunhadas, você acha mesmo que Claudinha vai voltar a comprar naquela loja?

É com este espírito que Rodolfo, uma das pessoas mais brilhantes que eu já conheci na vida e responsável pela Empiricus ter tido seu pequeno sucesso, montou seu PRP. Eu lhe convido para conhecer este material riquíssimo. Esta pode ser a última oportunidade.

Para não perder meu propósito de vista, aqui vão alguns racionais de longo prazo:

1 – Bolsa norte-americana é uma boa. Isso sobe, na média, 7-8% em dólar por ano. “Mesmo no high é pra comprar?” Ora, um negócio que sobe na média 7-8% ao ano, normalmente vai estar no high mesmo.

2 – Franco suíço. Não tem venda fundamental nem estrutural deste negócio. E a Suíça, meu caro, bem, é a Suíça.

3 – Petróleo é short. Tecnologia vai esmagar isso.

4 – ETFs de small caps em mercados emergentes – mera aplicação da antifragilidade. Quando o longo prazo chegar, algumas empresas terão se multiplicado por vários fatores. Outras morrerão. As que se multiplicaram subiram 2.000 por cento (qualquer percentual que você quiser). As mortas implicaram perdas de 100 por cento. A média será positiva.

5 – Ninguém quer saber de juro a longo prazo no Brasil, pelas razões óbvias. NTN-B 2050/55 parece bom.

6 – Talvez não haja nada melhor do que uma SuperPrevidência.

Mercados iniciam a sexta-feira demonstrando alguma cautela, sem grande alarde também. Novo recuo do minério de ferro e preocupação com novo teste de missil da Coreia do Norte impõem certa aversão a risco.

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Agenda é fraca localmente, sem indicadores de peso. Destaque para suspensão do leilão de privatização da Cesp – acho que volta relativamente rápido, com ajustes que permitam a efetivação, mas ações devem sofrer hoje (mais detalhes na nota abaixo) – e também para decisão de rolagem parcial de contratos de swap pelo BC, com intenção de deixar vencer 4 bilhões de dólares nos contratos.

Nos EUA, há referências bem importantes. Saem vendas ao varejo, produção industrial, Baker Hughes, sentimento do consumidor e atividade na região de NY.

Ibovespa Futuro abre em baixa de 0,3 por cento, dólar sobe ligeiramente contra o real e juros futuros estão perto da estabilidade.

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