Novas diretrizes para tempos de nem tanta paz ou (Guia prático e atual para atuação em Bolsa)

Por incrível que pareça, o principal driver para os mercados de ações tem sido o Twitter do presidente dos EUA. Não é piada. Trump redige no Twitter e as Bolsas reagem, para cima ou para baixo.

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Novas diretrizes para tempos de nem tanta paz ou (Guia prático e atual para atuação em Bolsa)

“Let people try” (Deixe as pessoas tentarem).

Essa é a única coisa de que um país precisa para seu desenvolvimento econômico, segundo Deirdre McCloskey. Sei que o Rodolfo já falou dela ontem, mas quero adicionar uma ou outra palavrinha.

Há várias coisas para dizer hoje. Por que os trens do pensamento insistem em vir de maneira tão desestruturada? Para mim, eles precisavam chegar bem-organizados, um depois do outro, já traduzidos em equações de primeiro grau. No máximo, uma fórmula de Bhaskara deveria bastar. Mas, não. Somos vividos por poderes que fingimos entender. As ideias têm suas próprias motivações, qualidades, ritmos e frequências.

Volto à McCloskey. Para ela, a verdadeira razão para as nações fracassarem não são as instituições fracas, nem tampouco os baixos níveis de escolaridade. Empodere as pessoas, deixe-as livremente para tentar e perseguir boas ideias para alocar seu capital e trabalho.

E para ser livre, uma sociedade precisa necessariamente só de duas coisas: liberdade de expressão e judiciário independente. Note que são precisas as duas ao mesmo tempo. Sem um judiciário independente, a imprensa jamais será livre. E se a imprensa não for livre, o judiciário jamais será independente.

Ela nem sabe, não nos conhecia, mas a verdade é que temos uma espécie de relação Global: Empiricus e McCloskey, tudo a ver. Somos também grandes defensores da publicação de ideias totalmente livres e independentes, voltadas, no nosso caso, ao empoderamento das pessoas físicas para que elas mesmas assumam para si as rédeas de sua vida financeira, sem depender de um planejador central (normalmente, o gerente do banco ou o agente autônomo da corretora), supostamente – apenas supostamente – dotado de um superpoder capaz de organizar a vida inteira de uma rede em torno de si. Um ente central, sozinho, jamais poderá cuidar de uma sociedade, cujos graus de complexidade excedem em muito a complexidade individual. Se uma tartaruga fosse mais complexa do que você, você não conseguiria tomar conta dela, certo? Mera questão de lógica.

Acho que McCloskey não sabe, mas ela também tem tudo a ver com Nassim Taleb. O processo de tentativa, descentralizado e feito pelas pessoas em nível individual tentando maximizar o autointeresse, é convexo e antifrágil. Toda a sociedade se beneficia do lançamento da Amazon ou do Google. Somente o empreendedor se dá mal quando um projeto é um fracasso. A coisa também pode ser vista pela ótica pessoal. Dimensionando adequadamente suas tentativas, você pode perder apenas o tempo e o capital alocados naquilo, mas os benefícios e os lucros podem ser muito maiores – por quantas vezes Jeff Bezos multiplicou seu capital? E Larry Page e Sergei Brin?

O Twitter de Donald Trump

McCloskey com certeza não sabe, mas ela poderia ser uma grande trader no mercado financeiro. Falávamos sobre Trump e seu destempero no Twitter. Ela, então, propôs-me um guia prático para entender os 140 caracteres, depois de corrigir minha pronúncia de “rhetóric” para “rhétoric” (aplicando os acentos para transmitir a fonética da coisa): “Trump vai ao Twitter depois de assistir à Fox News pela manhã. Ali ele sente o que a América profunda gostaria de ouvir e, então, dispara suas bobagens na rede social. Aquilo não reflete o que ele pensa, mas o que precisa dizer para ganhar um ponto a mais de popularidade com seu eleitorado”.

Ali ela me apresentava um guia prático de atuação em Bolsa para os dias atuais. Joguemos fora “O Investidor Inteligente” (mas guardemos “O Investidor Independente”), “Common Stocks and Uncommon Profits”, “The Warren Buffett Way”, “A Alquimia das Finanças”. Não precisamos de mais nada disso.

Por incrível que pareça, o principal driver para os mercados de ações tem sido o Twitter do presidente dos EUA. Não é piada. Foi assim para derrubar papéis de siderúrgicas ao anunciar a sobretaxação do aço, ao elevar a aversão ao risco por sugerir uma guerra comercial com a China, ao causar preocupação com a Síria, ao flertar com mais impostos sobre a Amazon. Trump redige no Twitter e as Bolsas reagem, para cima ou para baixo.

Então, como corolário, aqui está seu diário de bordo: assista logo cedo à Fox News. Ela, em si, pode não ser tão importante. Mas servirá de pauta para o Twitter de Donald Trump horas depois. E hoje o maior driver para os mercados se chama POTUS. Pela primeira vez na história deste país – e aqui vai minha homenagem a “Memórias do Cárcere” –, temos a capacidade de prever os mercados! A Fox News antecipa o que Trump vai falar, e o que Trump fala guia as Bolsas. Bingo!

McCloskey é absolutamente genial. Entrei em contato com sua obra pela primeira vez em 2004, apresentado intelectualmente pela brilhante professora Ana Maria Bianchi, que só depois fui saber ser irmã do também brilhante Guilherme Affonso Ferreira – uau, que família!

Minha primeira leitura de McCloskey, ainda quando era Donald (ela fala do tema com grande naturalidade), foi o livro “If you are so smart”. Nele, McCloskey desmistifica a teoria e a prática da Economia, fazendo cair a máscara típica da academia. Aquilo que os economistas chamam de ciência e de certeza nada mais é do que a arte de se contar história. O storytelling, as metáforas, as analogias pertencem à ciência da mesma forma como pertencem à vida cotidiana. A ciência, por definição, ainda está ligada à natureza e aos mesmos princípios de toda a humanidade.

O mais curioso é o livro ter saído pela University of Chicago Press Book, ainda quando a universidade de Chicago era A Universidade de Chicago e as maiores influências eram Bob Lucas, Eugene Fama e companhia limitada, e Richard Thaler era hostilizado pelos “mortadelas” e “coxinhas” da região.

Também aqui vejo paralelos com Nassim Taleb. Ok, ok, ao martelo tudo parece prego, admito. Mas veja se não tenho alguma razão…

Em “Iludido pelo Acaso”, Nassim brinca com o ditado americano clássico, propondo uma inversão da ordem e perguntando: “If you are so rich, why aren’t you so smart?”. (Tipicamente, a brincadeira é: se você é tão esperto, por que não é tão rico? Taleb muda a coisa e questiona: se você é tão rico, por que não é tão esperto?)

É uma provocação aos doutos, aos ternos vazios que ganharam dinheiro iludidos pelo acaso, confundindo aleatoriedade e sorte com competência. A beleza está na capacidade de as pessoas comuns tentarem, perseguirem para si métodos práticos de ganhar dinheiro, e não numa coisa imposta de cima, por alguém que supostamente sabe mais do que os outros simplesmente porque trabalha na Faria Lima.

Isso me traz à segunda coisa do dia. Gostaria de agradecer de coração a todos aqueles que compraram meu novo livro, chamado Seis caminhos para seu dinheiro render mais. Nele, exploro a ideia das vantagens da pessoa física sobre o investidor profissional, exponho alternativas para se ganhar dinheiro a partir disso e apresento minhas ideias mais íntimas de investimento, aquelas que funcionaram para mim e, tenho certeza, podem funcionar também pra você.

Fica meu muito obrigado também àqueles que tentaram comprar um exemplar e não conseguiram. Ele vem acompanhado de um pedido de desculpas. O site da Saraiva apresentou problemas e o link que apresentei aqui não efetivava a compra em alguns navegadores. Deixo, portanto, as alternativas da Livraria da Folha e para o ebook no Kindle.

Uma das coisas que mais me encanta na pessoa física frente ao investidor profissional é que ela não tem uma reputação a zelar. Ela está livre para fazer o que ela quiser, sem prestar contas a ninguém. Isso muda tudo. Pode seguir suas próprias convicções, esperar o tempo que achar necessário para realizar a venda de uma posição, não precisa se preocupar com resgates de seus cotistas.

Já vi vários amigos gestores brilhantes de fundos de investimento perdendo a convicção em determinadas ações após um semestre ruim e diante de pressão dos clientes para geração de resultados a curto prazo. Também vi gente muito competente quebrando porque não teve o controle adequado do passivo, enfrentando uma onda de saques súbita e cavalar num momento particular de crise.

A reputação é para os escravos. Ela escraviza pessoas e seus comportamentos. Gestores e profissionais de investimento precisam dela. O investidor pessoa física só precisa ganhar dinheiro. E toda a vez em que você obedece a uma cartilha oculta enfrentará uma dificuldade adicional, num jogo que já é difícil para caramba mesmo quando não há desvantagem alguma. A escravização imposta aos profissionais de investimento é claramente um ataque a uma atuação verdadeira livre. Ele estará limitado em suas tentativas e, portanto, sua antifragilidade e sua convexidade ao longo do caminho necessariamente serão menores.

Isso me traz à terceira coisa de hoje. Reconheço a possibilidade de estar enviesado ao elogiar a pessoa física sobre os demais. Ela paga meu jantar e, por isso, tenho por ela respeito, admiração e gratidão.

Portanto, deixo-o em companhia de Peter Lynch, um dos maiores investidores de todos os tempos, falando sobre o tema:

“Quando você investe, não há ninguém em volta para criticar seus resultados trimestrais ou semestrais, ou mesmo para fritá-lo por ter comprado ações da Agency Rent-A-Car em vez de ações da IBM. Bem, talvez haja um marido ou uma esposa, mas podemos lidar com isso.” Ao menos, costumam ser mais compreensivos do que clientes perdendo dinheiro.

“Você não tem de gastar um quarto das horas que passa acordado explicando a um colega por que compra aquilo que está comprando. Não há nenhuma regra que proíba de comprar ações que comecem com ‘r’, que custem menos de seis dólares ou de uma empresa cujos funcionários estejam associados ao sindicato dos caminhoneiros. Não há ninguém para reclamar ‘Eu nunca ouvi falar do Walmart’ ou ‘Dunkin’ Donuts soa tolo’.”

“Você não é obrigado a ter 1.400 ações diferentes, nem mesmo alguém irá dizer-lhe para espalhar seu dinheiro em 100 empresas diferentes. Você é livre para ter uma, quatro ou dez ações. Se nenhuma empresa lhe parecer atraente em relação aos seus fundamentos, você pode deixar de comprar ações completamente e esperar por uma oportunidade melhor. Os gestores de fundos jamais poderiam fazer isso.”

“O mercado de ações demanda convicções. E isso é tão certo quanto o fato de que ele torna os não convictos em vítimas.”

Com a necessidade de prestar contas e manter uma reputação a todo momento, é muito mais difícil manter uma convicção. Malcolm Gladwell estava certo: contra Davi, Golias nunca teve a menor chance.

Alexandre Mastrocinque há anos estuda com profundidade os ensinamentos de Peter Lynch, aplicando-os de forma muito bem-sucedida ao cenário brasileiro. Caso você queira saber mais sobre isso, cadastre-se aqui. É totalmente gratuito e bastante útil. Você já pensou em multiplicar seu capital por 100x?

Mercados no exterior amanhecem demonstrando otimismo, com alta dos metais e dos futuros de Wall Street. Expectativa é por capacidade de se evitar guerra comercial entre EUA e China, após avanços nas negociações e tom menos beligerante de Trump, desta vez no… Twitter.

Por aqui, há alguma cautela e mercados estão próximos à estabilidade. Dado do setor de serviços se somou ao pessimismo da véspera com vendas ao varejo para forçar revisão para baixo nas estimativas de crescimento do PIB e, por conseguinte, para os lucros corporativos.

Agenda norte-americana oferece sentimento do consumidor medido pela Universidade de Michigan.