As bruxas de Salém

Eu não acredito em bruxas, mas que elas existem, existem. E também, podem assombrar o mercado brasileiro.

Compartilhe:
Enviar link para o meu e-mail
As bruxas de Salém

Quando a escrava negra Tituba contou algumas histórias sobre vudus para suas amigas na pequena povoação de Salém, Massachussetts, em outubro de 1692, ela não poderia imaginar as consequências da sua narrativa.

Supostamente capturadas pela peculiaridade das práticas da religião tradicional da África Ocidental, as mulheres de Salém passaram a ter pesadelos constantes, algumas até mesmo alucinações. Um médico foi logo chamado para avaliar a gravidade do fenômeno. O diagnóstico foi contundente: as moças haviam sido vítimas de bruxaria.

Em pouco tempo, tivemos início ao julgamento de Tituba e das ouvintes de suas histórias. Diante do juiz Samuel Sewall, 20 pessoas, a maior parte delas mulheres, foram declaradas culpadas pela proibida prática de bruxaria e executadas, algumas delas brutalmente.

Posteriormente, o juiz Sewall acabou confessando estar errado em seu julgamento. De acordo com a hipótese mais provável, as mulheres teriam sido intoxicadas pelo consumo de esporão-de-centeio, com propriedades alucinógenas semelhantes àquelas do LSD.

A descoberta veio tarde demais. Depois virou filme e tudo, aliás com interpretações absurdas da Winona Rider e do Daniel Day-Lewis.

Confesso simpatia pessoal pelas bruxas. Uma vez, inclusive, tive o privilégio de conhecer pessoalmente uma bruxa bem bruxona, daquelas com verruga no rosto, nariz enorme e cabelos na altura do bumbum. Achei um barato. Não pela crença em bruxaria, claro. Sou um cético. Pra mim – e é somente a minha opinião -, não tem macumba, vudu, bruxaria, espírito. A gente é só esta casca aqui mesmo, efêmera e de uma insignificância cósmica atroz. Mas a bruxinha era divertidíssima.

As bruxas são nascidas gauche na vida, uma afronta ao status quo, uma crítica ao establishment e um desafio ao pensamento pasteurizado e esterilizado típico das opiniões de consenso. São loucas, desajustadas, rebeldes e criadoras de caso. Pinos redondos nos buracos quadrados. Uma espécie de Dean Moriarty, personagem de On the Road, do esoterismo.

Eu gosto mesmo é deste tipo de gente. Se você quer sobreviver e se destacar no mercado financeiro, em alguma medida, precisará pensar diferente, desafiar o consenso. É curioso como vivemos um paradoxo constante.

Se você quer ter retornos acima da média, vai precisar investir diferente da média, certo? Mas o curioso é que a comunidade financeira rejeita e tenta expelir todos aqueles que não se encaixam às suas práticas consagradas, às regras próprias, seja de linguagem, indumentária ou das leis das Finanças Modernas, num discurso pronto que, se você não obedecer, não fará parte do clube. O destino será o mesmo de Salém: a sumária execução.

Pode reparar. É sempre assim com todos que se propõem a fazer algo diferente – eles apanham, apanham, apanham. Depois de muito tempo, a coisa se inverte, numa dinâmica bem curiosa. Passa de um determinado nível e aqueles anteriormente loucos viram o próprio status quo. Se a alucinação anterior se prova o novo paradigma, o contrarian é absorvido para dentro do mainstream com o tempo. Ele, anteriormente uma excrescência no sistema, passa agora a ser o incumbente.

Quando a XP nasceu, era criticada por todo mundo. O prego que se destaca é o primeiro a levar martelada. Agora, claro, não há mais discussão. Mesmo aqueles que anteriormente apontavam o dedo agora aplaudem o brilhantismo, a perseverança e a capacidade de realizar – aliás, esses são os primeiros a falar: “eu sempre achei…”

Já ouvi até que o próprio Luis Stuhlberger – eu não o conheço pessoalmente e sinceramente não sei se é verdade – foi duramente criticado várias vezes no passado por gastar dinheiro comprando seguro barato. “Você fica queimando essa grana ai à toa.” Ainda bem que a verdade é filha do tempo…hoje, sinto (de verdade mesmo) vergonha alheia pelos gestores brasileiros que se comparam ou até mesmo se consideram superiores ao sujeito.

Obviamente, a própria Empiricus já passou e ainda passa pelo mesmo problema. Também vejo a turma do Alaska, mesmo sendo o melhor fundo de ações das últimas janelas temporais, enfrentando o mesmo nariz torto da galerinha de ternos italianos bem cortados da Faria Lima – claro, são esses rapazes recém-chegados do MBA, que acabam de ganhar seu primeiro bônus anual e comprar uma Macan, que têm competência para dar dicas de ações para o Luiz Alves. É a completa subversão da lógica.

Eu gosto mesmo é das bruxas, aquelas capazes de fazer algo diferente, pensar com a própria cabeça. Normalmente, porém, a conotação dada a elas é negativa. Sendo hoje Halloween, vamos entrar no espírito e ver o que pode amaldiçoar os mercados.

A eleição brasileira de 2018 começa a fazer preço. Esse movimento só deve se intensificar nos próximos meses. Acho que a hora que você ainda pode se proteger disso é justamente agora. Depois, quando todo mundo estiver realmente alucinado com isso, todos os seguros estarão caros.

A pesquisa divulgada no último final de semana assustou. Não trouxe grandes novidades, mas mostrou a ausência de um candidato de centro com força e um Lula ainda muito resiliente.

Eu acho que o Lula vai se eleger em 2018? Não, não acho. Mas não importa muito o que eu acho. Insisto na matriz de payoffs. É só isso que importa. Desconfio que as eleições de 2018, ou de qualquer outro ano, vão transcorrer de maneira independente às minhas próprias convicções.

Leia mais: Lula 2018 – O que o mercado pensa sobre isso?

Por vezes, gosto de separar mentalmente meu portfólio em dois grandes blocos. De um lado, aquele que abocanha a maior parte, que representa as minhas convicções, posições capazes de se beneficiar do meu cenário-base. De outro, para o qual destino uma parcela pequena (não mais do que 5 a 7% do todo), exposição a ativos contrários às minhas convicções. É a minha proteção contra mim mesmo. Considere a hipótese de estar errado, pela simples evidência de que, de fato, você pode estar errado. São seguros que você vai comprando, conforme eles se apresentem a você baratos.

Não quero dizer que o Lula será eleito em 2018. Mas preciso reconhecer a chance de ele ser eleito. Se há alguma probabilidade de isso acontecer, nosso portfólio, mesmo que em uma pequena medida, precisa contemplar essa possibilidade, principalmente hoje em que o assunto parece meio morto, com o mercado dando como certa a eleição de um novo candidato reformista no ano que vem.

Veja: eu também acho que isso vai acontecer. Mas eu apenas acho. E duvido de mim mesmo diariamente.

Passei a duvidar ainda mais quando recebi email que circula no mercado, supostamente atribuído a Cesar Maia, chamando a atenção para o quanto se subestima a possibilidade de Lula estar na cédula. Diz algo mais ou menos assim:

“1. A probabilidade da segunda instância do TFR do Paraná manter a condenação de Lula -a mais ou a menos- é dada como certa. Isso leva a uma conclusão simplista: pela lei da ficha limpa, Lula não poderia ser candidato. Mas ainda não seria assim.

2. Em primeiro lugar, depende da data do julgamento ocorrer antes da data limite para as inscrições dos candidatos. Esta data depende desse primeiro julgamento na segunda instância.

3. Se não houver unanimidade entre os três Desembargadores, o julgamento irá a um colegiado maior com mais dois Desembargadores. E outra vez dependerá da data deste segundo julgamento ocorrer antes da data limite da inscrição.

4. Havendo unanimidade, Lula poderá recorrer, seja em busca de uma liminar no STJ ou através de um recurso no TSE, com alegações relativas a legislação eleitoral. Para a defesa de Lula tão ou mais importante que o mérito, é o prazo. O objetivo seria retardar os julgamentos até depois do segundo turno da eleição.

5. Mas não havendo unanimidade no primeiro colegiado de três desembargadores, passará a correr um novo prazo para o recurso, no segundo colegiado, que poderia ultrapassar a data limite para inscrição da candidatura.

6. Portanto, supondo que numa ou noutra hipótese a inscrição eleitoral ocorrer dentro da data limite, a defesa de Lula recorrerá em busca de uma liminar no STF e no TSE. Para a defesa de Lula, os atos dos recursos até os julgamentos terão efeitos suspensivos.

7. Supondo que a defesa de Lula consiga uma liminar. Se for assim, Lula concorreria e se aguardaria uma decisão final.

8. Supondo que os pedidos das duas liminares -ou de uma delas- não sejam julgadas até a data do segundo turno, a defesa de Lula considerará a não decisão como efeito suspensivo.

9. Se Lula vencer no segundo turno, ainda haveria um terceiro turno. O MPF recorrerá contra a diplomação, pedindo que seja suspensa. Se houver a decisão suspendendo a diplomação, a eleição ainda não estará resolvida.

10. Dependerá de um julgamento no TSE, autorizando a diplomação do segundo colocado. Ou mesmo da finalização do julgamento no STJ, ou mesmo de um recurso final ao STF.

11. Dependendo dos prazos observados e da sequência deles, se poderá chegar na data da posse do próximo presidente sem se saber quem será o presidente eleito. Ou havendo qualquer decisão em relação a diplomação, virá o inevitável recurso do outro candidato, gerando uma insegurança jurídica e política, até na formação do novo governo e da validade das medidas adotadas junto à posse do novo presidente.

12. O que a defesa de Lula puder fazer para retardar qualquer decisão definitiva, fará. E isso para a defesa de Lula será mais importante que o mérito. E a insegurança além de jurídica e política, será econômica.”

Na dúvida, meu caro, é melhor se proteger. Eu não acho que o Lula será eleito novamente. Mas acho que o mercado hoje subestima a chance de isso acontecer. Com isso, comprar seguros contra essa possibilidade hoje me parece bem razoável.

Se você tiver algum dinheiro que topa perder (é muito importante essa condicionante; por favor, vá e volte nela – você só gasta no seguro o dinheiro que topa perder, ninguém vai na seguradora e reclama que não acionou o seguro do carro), compre algumas opções de dólar com strike a 4,00 reais para julho de 2018. Peça na sua corretora.

Eu não acredito em bruxas, mas que elas existem, existem.

Está gostando desse artigo?Insira seu e-mail e comece já a receber nossos conteúdos gratuitos

Depois do tombo da véspera, mercados voltam a se animar na manhã desta terça-feira. Uma caça por barganhas, o bom resultado de Itaú, certa tranquilidade no exterior e uma interpretação benigna da ata do Copom trazem ganhos aos ativos brasileiros.

Destaque da agenda econômica local é minuta da autoridade monetária, que deixou em aberto possibilidade de fazer cortes na Selic para baixo de 7% ao ano. O recado foi um tanto claro: vamos a 7% e, então, esperaremos pra ver. Nada definido por enquanto. Mais detalhes na nota da Marília, nossa dama de ferro da Renda Fixa.

PNAD contínua mostrou desemprego de 12,4% no trimestre encerrado em setembro, caindo sobre o período anterior.

Esfera política segue quente após presidente Michel Temer enviar duas medidas provisórias de ajuste fiscal (adiamento de reajuste salarial e aumento da contribuição previdenciária), contrariando pedido anterior explícito feito por Rodrigo Maia, que cobra reforma ministerial.

No exterior, temos ISM de Chicago, preços de moradias nos EUA e confiança do consumidor norte-americano. Na Zona do Euro, saem PIB, desemprego e inflação ao consumidor. Feriado na Alemanha fecha Bolsa de Frankfurt.

Ibovespa Futuro abre em alta de 0,3%, dólar cai ligeiramente contra o real e juros futuros recuam.

Conteúdo recomendado