Sobre o rali de fim de ano

No rali de fim de ano, Ibovespa marca quase 76 mil pontos, sem reforma da Previdência, com ameaça de perda de rating e mais um monte de notícia ruim. Leia aqui.

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Sobre o rali de fim de ano

Eu não acredito em rali de fim de ano, mas acontece.

A gente tem uma tendência a achar que, se não entende um determinado fenômeno, ele não existe ou, na melhor das hipóteses, é menos interessante. Se foge à minha compreensão, só pode ser algo menor. Narciso acha feio o que não é espelho.

Assim, de repente, o Ibovespa marca quase 76 mil pontos, sem reforma da Previdência, com ameaça de perda de rating e com mais um monte de notícia ruim.

Talvez faltem-nos explicações estritamente lógicas para certos comportamentos.

O Cláudio vai brigar comigo, mas confesso que li “O Livro Vermelho” do Jung. Ele chama de “coisas feitas pela turma dos inimigos.” Não entendi nada do livro. Depois vi um vídeo do James Hilman comentando. Começou a fazer algum sentido.

A linguagem da nossa mente é, na realidade, imagética, poética, figurativa, além de profundamente pessoal. A mente humana fantasia, elucubra. Essa é sua atividade primária. A psique cria a realidade todos os dias. Nós que insistimos em dar-lhe uma abordagem aristotélica, cartesiana, lógica e matemática. Somos muito mais do que isso, ainda bem.

Quando enquadramos nossa forma de pensar nesse arcabouço, estamos mesmo é empobrecendo a análise, estreitando as possibilidades – aqui no sentido de “narrowing”, como se colocássemos as palmas das mãos ao lado externo dos olhos, reduzindo nosso campo de visão, feito cavalos cuja vista está aparada por antolhos. Deixamos de contemplar o invisível, aquilo que escapa ao pensamento quadradinho ou apenas está disfarçado por trás da recorrência de um padrão histórico, que possivelmente será quebrado ali na frente.

George Soros, pra mim, o maior investidor de todos os tempos, troca suas posições conforme sente dor nas costas. Pode parecer coisa meio metafísica ou desprovida de fundamento. Na verdade, é o contrário. Há multiplicidade e riqueza na abordagem. Como se sua mente percebesse a partir de algum tipo de conhecimento tácito o desconforto com seu portfólio e somatizasse no corpo a partir da dor nas costas. O que parece transcendental é apenas uma manifestação da sua teoria da reflexividade, numa dinâmica muito bem descrita por Flavia Cymbalista em “How George Soros Knows What He Knows”.

Não é porque você não consegue compor seu raciocínio numa linguagem formal, numa estrutura lógica ou numa equação, que ele não existe, não representa uma forma de chegar a uma determinada conclusão. Existe, sim, um processo, ele só não pode ser estruturado em palavras ou em números.

Eu sempre achei que toda vez que falava de algum assunto acabava reduzindo aquilo, como se a complexidade do fenômeno fosse cortada para caber numa folha de papel ou numa frase coerente. A comunicação é também em si uma cama de Procusto. Minhas maiores emoções ou demonstrações de amor foram feitas a partir de vibrações, coisas balbuciadas tipo “hmmmmm.”

Pra mim, ainda mais impressionante é que o verdadeiro diferencial para a prática de uma atividade qualquer – pode ser o investimento, claro – está justamente no conhecimento tácito, na capacidade de realizar sem conseguir explicar exatamente como. Se você é capaz de passar tudo que faz para uma folha de papel, uma planilha de excel ou uma equação, aquilo imediatamente é institucionalizado, vira conhecimento público e replicável. Acabou sua vantagem. Já se é tácito, impossível de se formalizar, aquilo morre com você.

Você pode assistir a 25 vídeos do Michael Jordan. Não vai conseguir fazer um único fadeaway igual a ele. Pode comprar todos os DVDs do Zico explicando como bater falta. Não vai ter a mesma precisão.

Por que ninguém replica o fundo Verde? Pela simples razão de que gênios são irreplicáveis.

E por que ninguém cobre fundos, incluindo o Verde, como a Empiricus? (Desculpe a aparente falta de humildade, mas posso falar isso porque não tenho mérito algum nessa conquista – aliás, ao contrário, minhas contribuições aqui são negativas.) Somente porque o trabalho é feito pela Luciana Seabra, que, por mais que tentemos clonar, ainda permanece irreplicável também.

No começo do Livro Vermelho, Jung acreditava ter perdido sua alma, assumindo, então, a tarefa de reencontrá-la. O encontro consigo mesmo não vai se dar a partir de explicações e significados. Precisamos encontrar uma imagem. Ela nos representa, e será nossa maior companheira quando tivermos de decidir sob incerteza.

Parte do rali de fim de ano é tácita. Outra é um pouco mais formalizável. Entre as maiores valorizações, costumam estar as queridinhas do smart money local, principalmente aquelas de liquidez não tão expressiva quanto das blue chips. A cota mais gorda ao final do ano fica bem pra todo mundo. Coisas como Rumo, Alpargatas, Eneva, Guararapes, CVC.

Para termos um sinal mais inequívoco de compra, só falta a S&P confirmar o downgrade brasileiro. Daí já pode estourar a champa.

Em dia de liquidez reduzida, mercados brasileiros iniciam as negociações demonstrando ligeiro otimismo. Na falta de drivers mais contundentes, as variações são bastante modestas, predominando a influência do bom humor externo.

Agenda local traz dados do Caged sobre emprego, fluxo cambial mensal e sondagem do comércio da FGV. Nos EUA, temos vendas de casas pendentes e confiança do consumidor.

Ibovespa Futuro abre em leve alta de 0,25%, dólar cai 0,33 contra o real e juros futuros recuam.

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