Meet Joe Black

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Meet Joe Black

Sou velho e já passei por muitas dificuldades, mas a maioria delas nunca existiu. É Mark Twain, mas me representa. Não costumo me preocupar muito, só perco a calma quando respiro. Há somente umas duas ou três mil coisinhas que me tiram o sono. Fora isso, das 3h às 6h da manhã, durmo muito bem. Poderia apelar ao clichê de que sou insone para que meus assinantes possam dormir tranquilos – seria mentira; acho que nós dois estaríamos melhores sem insônia.

Lembro de Daniel Kahneman. De acordo com Michael Lewis no Undoing Project, ele carrega um pessimismo atroz. Contrariamente a seu parceiro Amos Tversky, para quem o pessimista era somente um ser que sofria duas vezes, Kahneman achava que, se antecipasse mentalmente o pior cenário possível à frente, amenizaria o desgaste emocional caso a coisa ruim viesse a efetivamente se materializar.

Acredito que os grandes riscos para os mercados não são aqueles conhecidos e debatidos ad nauseam nos jornais. Diante desses, o escrutínio público acaba nos preparando para sua eventual materialização ou, ainda melhor, permite que os enderecemos previamente.

Agora estou preocupado com a inflação americana. Estou assim justamente porque ela ainda é baixa, mas pode, a qualquer momento em meados de 2018, aparecer em um processo não linear, pegando-nos fragilizados do ponto de vista fiscal e em meio a um processo eleitoral recheado de incertezas. Nas palavras de um grande gestor que admiro muito, teríamos um encontro marcado com a realidade.

Embora ainda não tenha aparecido nos indicadores oficiais, a inflação nos EUA, quando analisada mais detalhadamente, já dá sinais de que possa vir a incomodar, principalmente quando olhamos preços mais sensíveis à política monetária, como consumo e aluguel. Há, contudo, questões pontuais, como a queda do preço de telefonia celular, compensando isso.

Ai que vem minha preocupação, pois o risco está escondido. Esses são os piores. Não acho que estejamos preparados para um repique não linear (lembre-se que nosso cérebro é uma máquina feita para produzir certezas, odeia a falta de controle/o acaso e vai sempre achar que os processos serão previsíveis e lineares) da inflação, que forçaria o Banco Central dos EUA a subir os juros mais rapidamente e enxugar a liquidez global.

Os três leitores assíduos desta newsletter talvez se lembrem que, há algumas semanas, coloquei aqui duas posições antagônicas. De um lado, estavam os otimistas, crentes de que o crescimento global sincronizado, com juros baixos, alta liquidez e inflação baixa seria uma espécie de nova normal – teríamos forças estruturais para manter a inflação comprimida mesmo num cenário de crescimento vigoroso da economia norte-americana; desta vez seria diferente.

Em contrapartida, todas as vezes em que acreditamos no ineditismo “daquela vez” quebramos a cara. Cedo ou tarde, a inflação norte-americana viria, sendo as condições correntes apenas uma reunião de fatores conjunturais não sustentáveis a longo prazo.

Veja que nessa semana tivemos um argumento importante em prol do segundo time, com a inflação ao produtor norte-americano mostrando muito mais força do que se supunha. Claro, é somente um indicador e de alta frequência (mensal), mas vem testar a convicção dos crentes na ideia de que a inflação ficaria baixa para sempre.

Tecnicamente, não acredito que tenhamos matado a Curva de Phillips. Ela apenas mudou sua inclinação. Com crescimento vigoroso nos EUA por vários trimestres e eliminação de fatores conjunturais, acabaremos concluindo que a inflação atual tão baixa é que era uma aberração.

Em resumo, o ano de 2018 pode ser marcado por um importante reapreçamento para cima dos yields em nível global. Talvez não seja um grande choque – não identifico motivo para pânico, mas certamente vai forçar um de-rating generalizado diante de valuations tão esticados por todo lado.

Confesso ainda outro motivo para preocupação momentânea. Aqui não é tanto no âmbito factual, é mais na base da fofoca. Sim, eu sei que não é bonito. Mas é o que é. Gostaria de ter algo mais concreto pra falar e não tenho. Agora, no momento em que deixar o campo da fofoca e adentrar a esfera material, certamente os preços dos ativos serão outros. Logo, melhor falar o quanto antes. Be faster, smarter or cheat (seja mais rápido, mais inteligente ou trapaceie), diria a personagem de Jeremy Irons em Margin Call (fique claro: trapacear não vale).

Falo da perda de convicção e ânimo de algumas assets cariocas com a candidatura de Luciano Huck. Pode ser algo pontual, mero percalço a ser superado e obstáculo transposto em poucas semanas, talvez até mesmo dias. Mas a situação do momento é, na margem, de maior desconfiança – note que essa turma é que vinha empurrando e, de alguma forma, sustentando a interlocução com o potencial presidenciável. O papo é de que os Marinho teriam pressionado Luciano Huck a decidir-se ainda em dezembro se vai se candidatar ou não; e uma vez escolhendo por sim, não teria mais espaço para voltar para Globo.

Ainda é um pouco cedo para estarmos verdadeiramente preocupados com as eleições, eu sei. Reconheço isso. Mas, por enquanto, ainda não temos um candidato de centro e reformista com apoio popular. Por ora (e, de novo, sei que ainda é cedo), estamos fadados a uma polarização Lula/Bolsonaro. Ainda que o último venha se colocando como liberal, privatizante e em prol das reformas, o histórico aponta para um nacional-desenvolvimentista.

Não custa lembrar que Lula também escreveu sua Carta aos Brasileiros e teve a dupla Meirelles/Palocci à frente da economia. Na hora boa, tudo vai bem. A alma se revela justamente na hora da pressão. A retórica pré-eleitoral e a necessidade de agradar ao mercado admitem qualquer conversa, carta ou promessa. Nossos liberais votam contra a reforma da Previdência, já quiseram fuzilar o ex-presidente FHC, acham que podem baixar os juros na marra e criticam abertamente o capital chinês. Cada um tem o liberal que merece…

Leia mais: A hipótese Huck

Mercados brasileiros iniciam a sexta-feira buscando definir uma direção. Commodities em alta no exterior e alguma confiança de que podemos ter avanços em torno das discussões sobre a reforma da Previdência permitem Ibovespa Futuro (+0,2%) em ligeira alta e dólar em baixa contra o real (-0,18%). Juros futuros cedem na esteira da apreciação cambial e de alguma pressão por ajuste após a disparada em outubro e novembro. Cautela pré-feriado impede variações mais contundentes.

Agenda local traz prévia do IPC-Fipe em linha com projeções (+0,34%) e dados de serviços do IBGE. Nos EUA, temos relatório Baker Hughes do setor petróleo, construção de morais e atividade do Fed de Kansas.

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