A interpretação dos sonhos

Acho tudo isso um grande sonho. E sonhos, para a tristeza dos psicanalistas, não encontram a interpretação que gostaríamos de lhes dar.

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A interpretação dos sonhos

80 mil. 100 mil. 140 mil. 200 mil. Quem dá mais? Dou-lhe três. Vendido para o senhor Amorim, ali atrás, na quarta fileira. Parabéns.

Com o Ibovespa acima dos 75 mil pontos e em novo recorde, está aberta a temporada de adivinhações. Todos chutam até onde pode ir o índice. Isso rende cliques à imprensa, rende aparições para os analistas (alguém vai ter de acertar, o próximo gênio eleito pela simples força do acaso) e rende conforto psicológico ao investidor. Há uma sensação de tranquilidade a partir da percepção de que podemos saber algo. Estamos no controle, certo?

Erramos, erramos e erramos as previsões, sejam elas quais forem em ambientes reais ou nas ciências sociais. E o que vamos fazer? Em vez de abandonar o método ou, ao menos, tentar refiná-lo um pouco, voltamos ao mesmo modelo que até hoje só nos cuspiu projeções erradas. Estive equivocado em todas as vezes que tentei antecipar onde estaria dois anos à frente. Por que hei de acreditar que, ao elucubrar sobre 2019, estarei certo agora? Uma das definições de loucura é repetir um mesmo procedimento e esperar resultado diferente.

Gosto de Cazuza e do seu namorado. Jogado a seus pés com mil rosas roubadas, posso render-me a certos exageros, mas louco é quem me diz. No meio do bull market, quem não é feliz?

Alguns alardeiam o novo recorde. Outros ponderam não haver recorde algum, pois em termos reais a pontuação máxima seria substancialmente maior. Esses últimos atualizam o recorde anterior por algum indexador (dólar, CDI, IPCA, bitcoins, tanto faz). Não vejo utilidade no raciocínio. O pico anterior não é referência alguma. Falo aqui no sentido de que ele não nos oferece qualquer poder preditivo. Sugerir que o índice deve ser o recorde anterior ajustado por algum indexador qualquer implica a crença de que, quando atingimos a máxima anterior, aquilo tinha representação de materialidade, aquele era o apreçamento correto. Isso obviamente é uma falácia lógica. Será que aquele dia do recorde anterior não era um grande exagero? Ou, ao contrário, ainda algo muito comedido? Ou, ainda, por que as precificações de todos os outros dias não servem de referência, mas, sim, apenas essa do recorde passado?

Acho tudo isso um grande sonho. E sonhos, para a tristeza dos psicanalistas, não encontram a interpretação que gostaríamos de lhes dar.

O pesquisador e neurocientista J. Allan Hobson publicou uma série de artigos refutando a ideia freudiana de que os sonhos emergem de desejos inconscientes. Sua investigação implicou a prova científica de que os sonhos vinham de uma parte do cérebro que nada tem a ver com desejo. Ele constatou que o tempo e a duração dos sonhos eram absolutamente regulares e previsíveis, de tal sorte que a atividade onírica tinha mais a dizer sobre o sistema nervoso da pessoa do que propriamente sobre sua personalidade. Resumidamente, portanto, sua sugestão era de que as pessoas que pagavam psicanalistas para encontrar significado em seus estados inconscientes estavam basicamente jogando dinheiro fora.

Hmmm, isso não me parece boa notícia. Eu gasto dinheiro com isso. E, olha, o Cláudio me cobra os olhos da cara. Faço análise porque me sinto melhor a partir disso. Talvez porque nossa conversa ali não tente me enquadrar numa teoria qualquer. Não há um mapa para colocar-me dentro de uma narrativa pré-concebida.

Estou dizendo que serve para mim. Não importa o que a ciência diz. Faz-me bem. Acho que tenho perfil para coisa. Talvez não sirva para você. E tudo bem.

Se você deve comprar Bolsa a 75 mil pontos? Acho que depende do seu perfil. Veja se isso se encaixa para você, independente dos sonhos alheios. Se você não tem nada de ações, comece com pouco. Inicie com algo que não vá lhe machucar. Se você não gostar, desista. Apenas não feche a porta antes da hora.

Saiba que você pode perder. Permita-se perder.

Humildemente, eu acho que há um erro no value investing clássico. No momento em que eu discordo do Warren Buffett, é quase óbvio que estou errado. Ele é muito mais inteligente e muito mais rico do que eu – não necessariamente nessa mesma ordem. Uma pena, pois ainda não consigo fugir de mim mesmo; eu adoraria…

Mas há duas frases clássicas de Buffett com as quais discordo fortemente. Sua Regra 1 é bastante famosa: “nunca perca dinheiro.” Assim como a Regra 2: “nunca esqueça a Regra 1.”

Acho que o processo de investimento é marcado por tentativa e erro. Se você não estiver disposto a perder nada, você não estará tentando o suficiente e várias oportunidades vão passar na sua frente. Você precisa perder. No pain, no gain. Seu músculo só se desenvolve depois de uma microlesão.

Afirmar que você nunca vai perder está permeado pela ideia de que pode saber alguma coisa sobre aquilo, que somos capazes de eliminar com precisão os riscos do processo. A verdade, porém, é que não podemos.

O antagonista teórico da proposta de Warren Buffett, nesse aspecto particular, talvez seja o Paradoxo de Klipp: “você precisa amar perder dinheiro, odiar ganhar dinheiro.” O investidor precisa tolerar pequenas perdas e realizá-las rápido. Só assim poderá encontrar um grande lucro e demorar para realizá-lo, permitindo que ele seja muito maior do que nossas cabeças lineares podem supor.

Se vai a 80, 100, 150 mil, ninguém sabe. Mas se o passado serve de guia, os movimentos sempre são muito maiores do que concebemos a priori.

Essa abordagem muda por completo a configuração das coisas na nossa cabeça. Em vez de tentarmos saber sobre algo, vamos nos beneficiar do não saber. “With the lights out, it is less dangerous” (com as luzes apagadas, é menos perigoso), nos ensina Kurt Coubain.

Quando sugerimos no começo de 2014 comprar dólar por 1,90 real, não sabíamos exatamente o que aconteceria. Apenas achávamos que as coisas caminhavam mal.

Quando sugerimos no final de 2015 comprar Bolsa, com o Ibovespa a 45 mil pontos, não fazíamos a menor ideia dos desdobramentos. Os preços apenas indicavam maior espaço para subir do que para cair, ponderados pela probabilidade de cada cenário.

Olhando o panorama agora, ainda é rigorosamente o mesmo quadro. Até quanto exatamente? Não faço a menor ideia, mas acho que é muito. A combinação risco-retorno da Bolsa brasileira, tentando-se evitar exposição ao risco externo (não compro commodities, mesmo sabendo que há upside aqui), é hoje ainda uma das mais atrativas do mundo. Como tempero, a posição técnica se mostra muito mais convidativa do que no juro.

“Não participei da festa e agora é tarde. Não dá mais para entrar a 75 mil pontos.” Ouvi o mesmo comentário a 60 mil, 65 mil, 70 mil, 75 mil. Desconfio que ouvirei novamente a 80 mil.

Semana começa dando continuidade ao otimismo recente, embora de maneira comedida. Bolsas no geral sobem, em semana marcada pela reunião do Federal Reserve – expectativa predominante é por uma postura ainda branda, num momento em que a economia global cresce com inflação baixa. Trata-se de uma combinação bem rara, que alimenta demanda por ativos de risco.

Variações são modestas, sem drivers muito claros. Minério de ferro voltou a cair em Dailan, impedindo desempenho mais vigoroso de mineradoras lá fora.

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Por aqui, relatório Focus trouxe revisão para baixo nas estimativas para taxa Selic ao final de 2018 (mediana das projeções caiu de 7,25 para 7,00 por cento). Prévias de IGP-M (0,41 por cento) e IPC-S (-0,01 por cento) vieram em linha com projeções. Segunda-feira ainda traz balança comercial semanal e vencimento de opções sobre ações, além de posse de Raquel Dodge na PGR.

Ibovespa Futuro abre em leve alta de 0,1 por cento, enquanto dólar e juros futuros estão próximos à estabilidade.

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