Graça sob fogo

Passamos por ciclos de euforia e depressão na Bolsa de Valores, bolhas e seus estouros. Cedo ou tarde, teremos o esgotamento do ciclo positivo. Mesmo dentro dele, passaremos por correções brutais. E você precisa estar preparado.

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Graça sob fogo

“Provavelmente, as duas melhores lições para se absorver do livro venham de suas falências repetidas e de como ele lidou com elas. No livro, eu acho que ele perdeu toda sua fortuna quatro ou cinco vezes. Eu passei pela mesma coisa, mas fui sortudo o suficiente para ver isso acontecendo quando tinha apenas vinte e poucos anos, em pequenas quantidades de capital.(…)

De todo modo, não é uma coincidência que nossos maiores campeões, os maiores artistas, os maiores líderes, nossos maiores em qualquer coisa parecem ter experimentado esse tipo de fracasso em suas vidas. Eu acho que sua grandeza foi formada justamente a partir da prova severa da adversidade. Dois anos antes de Lincoln se tornar presidente dos EUA, que considero o maior de todos, ele sofreu uma derrota vergonhosa para Stephen Douglas. Em alguma medida, isso vale para minha área de atuação. Sou bastante desconfiado com aqueles traders que nunca perderam tudo.(…)

Há duas experiências bastante desagradáveis pelas quais um trader vai passar pelo menos uma vez em sua vida, normalmente mais de uma vez. Primeiro, chegará um dia em que ele estará tão devastado por uma sequência ruim de operações que vai questionar sua própria capacidade de engatar algum trade positivo novamente. E outra: haverá um momento em que vai se perguntar por que ele está ganhando dinheiro e se aquilo é realmente sustentável.

O primeiro ponto testa a persistência do sujeito. Ele tem a estamina, a coragem, o brio e a esperteza para se levantar e se engajar na batalha novamente?

O segundo momento de iluminação é o mais assustador, porque ele representa o reconhecimento de que não estamos no controle. Quando eu tinha quase 38 anos, fiquei amedrontado ao perceber que eu não sabia exatamente como eu havia ganhado dinheiro nos 17 anos anteriores. Isso jogou minha confiança fora num sacolejo instantâneo. Ao mesmo tempo, me empurrou para baixo numa jornada de autoconhecimento que até hoje está em curso.”

Desculpe a longa citação. Isso é Paul Tudor Jones II, criador da Tudor Investment, de uma fortuna estimada em cerca de US$5 bilhões, falando do livro clássico “Reminiscências de Um Especulador Financeiro”, que trata da trajetória de Jesse Livermore.

Tudor é também um grande filantropo e fundador da Robin Hood Foundation, o que, não sei por qual motivo, me confere uma grande simpatia pelo sujeito.

Há algo especial num investidor grandioso, o que não necessariamente representa grande: sua capacidade de persistir, voltar, continuar andando mesmo sob a tempestade, cair e se levantar, mais de uma vez. Grace under fire (graça sob fogo).

O processo de construção patrimonial é uma grande maratona e, certamente, você vai atravessar momentos quase insuportáveis no percurso. No passado distante, eu tive um sócio intelectualmente brilhante. Possivelmente uma das pessoas mais inteligentes que já conheci. O sujeito tinha umas dez ideias por dia e muita iniciativa. Infelizmente, sua trajetória profissional – e ele mesmo reconhece – esteve muito aquém do que poderia ter sido. Isso porque ele abandonava as coisas diante do primeiro ou segundo obstáculo. Como resume a personagem de Robert De Niro a seu filho no emocionante “Desafio no Bronx”: “A coisa mais triste na vida é um talento desperdiçado”.

Só há um tipo de racionalidade possível, também nos mercados financeiros e ela se liga à sobrevivência. Para persistir e seguir na maratona, você precisa estar vivo. A única forma possível de se alcançar e sair vencedor, sem recorrer à arrogância epistemológica de achar que você consegue antever o futuro ou saber de um determinado ativo mais do que a média do mercado (amanhã vou falar disso), é fazer apostas assimétricas a cada rodada do jogo (mais ganho potencial do que perda potencial), calibrando adequadamente o tamanho de cada jogada de modo a não morrer em nenhuma delas – para isso recorremos ao chamado Kelly Criterion.

Já falei sobre isso algumas vezes e não quero aqui recitar o samba de uma nota só. Insisto só em lembrar, ainda sobre isso, que apostas perdedoras fazem parte da corrida. Apelo a Eclesiastes, um livro de sabedoria: “Não há nada de novo sob o Sol”.

Como a B3 ainda pertence ao Sistema Solar, também não há novidade alguma nela. Passamos por ciclos de euforia e depressão, bolhas e seus estouros. Cedo ou tarde, teremos o esgotamento do ciclo positivo. Mesmo dentro dele, passaremos por correções brutais. E você precisa estar preparado.

Já sabemos disso. Chamo atenção para outro elemento, totalmente negligenciado nos livros de finanças e mesmo nos cursos acadêmicos, sejam eles lato ou stricto sensu: capacidade de execução. Se você não acertar como instrumentalizar e operacionalizar adequadamente suas ideias, pode ser preciso em cada um dos seus racionais, não vai adiantar. Vai morrer pelo caminho.

Está lá no já clássico “Organizações Exponenciais”: “É importante enfatizar que o sucesso do empreendimento raramente vem da ideia. Vem da atitude de jamais desistir e da execução implacável dos fundadores”. O diabo está nos detalhes.

Em 2017, por exemplo, você acertou perfeitamente a tese macro/sistêmica se apostou em estatais, sob a crença de melhora na percepção de risco, avanço da governança, etc. Mas o cavalo em que você apostou fez toda a diferença. Se foi pelo caminho estatais estaduais, se deu mal. Se foi para as federais, saiu vencedor.

Outro exemplo claro de problema de instrumentalização está nos custos de transação. Você pode ser o mosco de 2018 e acertar o bumbum da mosca sobre o momento em que o Copom vai começar a subir a Selic, de tal sorte que precisa estar em pós-fixados. Se estiver num fundo que cobra 5% ao ano de taxa de administração (sim, eles existem e essa é mais uma das nossas jaboticabas), já comeu todo seu diferencial.

Eu mesmo enfrento uma grande dificuldade em instrumentalizar a filosofia de investimentos que tanto defendo. Acreditando que os mercados são informacionalmente bastante eficientes e que a incerteza nunca desaparecerá do processo, acho que a melhor forma de se investir em ações é por meio de uma ampla diversificação em small caps.

Essa é a única forma de você ganhar dinheiro no longo prazo sem depender de nenhuma premissa teórica sobre assimetria de informação, ineficiência dos mercados, repetição de padrões históricos/grafistas ao longo do tempo, habilidade pessoal em saber mais do que a média do mercado, e por aí vai.

O que vai acontecer depois de 30 anos se você seguir essa estratégia?

Alguma coisa mais ou menos assim: metade das empresas vai quebrar, ou seja, você vai perder 100% do capital investido nelas. E a outra metade vai se dar bem. Mas quem se dá bem não apenas dobra de tamanho em três décadas, se multiplica por 3x, 4x, 5x, 10x, 100x, sei lá. Quanto mais diversificado você estiver, maior será a chance de capturar um retorno desse de 100x.

Qual o problema? Tem uma meia dúzia de seis small caps com liquidez razoável na B3. A ideia é maravilhosa, mas sua instrumentalização é problemática.

Em direção semelhante, a tentativa de implementar com recorrência e profundidade o tail hedging (compra de ativos de risco combinada a opções de venda longas e fora do dinheiro) no Brasil esbarra também na dificuldade de baixa liquidez e preços abusivos para sua montagem. Infelizmente, a sofisticação aqui é muito baixa e o investidor pessoa física encontra pouquíssimos instrumentos de proteção da sua carteira.

Sabendo das dificuldades de colocar em prática algumas das ideias teóricas (e na teoria até o socialismo funciona), encerro com três proposições pragmáticas:

1 – Se você não pode ter ao menos 10 ações, compre ETFs. BOVA11 e um pouco de qualquer outro que você encontrar de small caps.

2 – Uma das melhores coisas que você pode fazer por si mesmo é abrir conta numa corretora lá fora. Primeiramente, porque precisa diversificar seus investimentos para fora do Brasil. Aqui, o “home bias” (viés de se investir em ativos locais) é simplesmente brutal. Ainda estamos na fase do “CDI bias”… Se isso não for possível porque não dispõe de muito capital em liquidez, invista em fundos aqui dentro com possibilidades de aplicação grande no exterior. A Luciana Seabra tem ideias excelentes pra você.

3 – Alijado da possibilidade de fazer o tail hedging clássico, em que se compram opções de venda mais longas e fora do dinheiro como seguros contra catástrofe, seja por falta de liquidez ou pouca familiaridade com opções, use o dólar e os fundos cambiais como proteção. É um porto seguro clássico, serve como instrumento de diversificação e não está caro no momento.

Sei que não são representações perfeitas das nossas ideias. O problema do ideal é justamente que ele pertence ao mundo das ideias. Aqueles que acreditam na possibilidade de otimizar uma solução jamais a levaram ao teste da realidade prática. Nada na natureza é otimizado. Muitas vezes há redundância. Dois olhos, duas orelhas, dois pulmões, duas glândulas mamárias. Fazemos o que pode ser feito, o que a maré das circunstâncias nos permite, não exatamente aquilo que platonicamente gostaríamos de fazer. Isso não é a Disney, é a B3. Com seus defeitos e imperfeições, é dela que eu gosto, paixão à primeira vista.

Mercados brasileiros iniciam a quinta-feira em leve baixa, digerindo resultados de Petrobras, que acabam de sair, e certa indefinição no exterior. Variações são moderadas, com preocupação menor sobre mudanças na equipe de Donald Trump. Ao mesmo tempo, resultado fraca das vendas ao varejo norte-americano na véspera afastam temor mais pronunciado com comportamento dos juros nos EUA.

Agenda local trouxe IGP-10 basicamente em linha com projeções. Na esfera corporativa, além de Petrobras (estamos debruçados sobre os números e ainda hoje soltaremos um relatório extra para os assinantes do Palavra do Estrategista e da Carteira Empiricus), resultados de Natura e BR Malls chamam atenção, enquanto seguem as especulações envolvendo consolidação das empresas de papel e celulose.

Ibovespa Futuro abre em baixa de 0,28%, dólar sobe contra o real e juros futuros avançam marginalmente.