Guia prático para um admirável mundo novo, ou apenas para o quarto trimestre

Nas próximas semanas, você começará a ser bombardeado com notícias, relatórios, sobre investimentos 2018. Mas, não há como tirar um sabático de três meses sob o pretexto de que “o ano está ganho”.

Guia prático para um admirável mundo novo, ou apenas para o quarto trimestre

Às vezes, tenho medo mesmo é de que nada aconteça, de que tenhamos de conviver só com isso mesmo, como se a existência não nos reservasse nada além de um bom bife. Tenho de lidar com uma espécie de imperativo categórico de evoluir, ir além, dar um passo a mais, como se não conseguisse me satisfazer apenas com o que já é.

Quando flertei com o espiritismo, era mais fácil explicar. A evolução, em suas mais variadas formas, me garantiria re-encarnar numa condição melhor – rico e poderoso, bonito e gostoso ou, na hipótese mais realista mas já suficientemente promissora, com cabelos!

A própria ética judaico-cristão oferece uma boa recompensa aos que estão tentando ser melhores a cada dia; o compromisso em fazer cada dia mais, ligado à espiritualidade de Santo Inácio de Loyola da Companhia de Jesus, nos aproxima da eternidade no conforto do Paraíso. Desprovido da crença numa recompensa além morte, convivo com incentivos menos convidativos. O benefício da virtude está nela mesma – nada mais.

 

O compromisso de fazer o melhor é um fim em si, e não o objetivo para uma posterior recompensa. E aqui voltamos à ideia kantiana dos imperativos categóricos. Ela é apropriada para o momento, em que talvez nos fosse confortável colocar as costas na parede e encerrar o ano com os ganhos que acumulamos até aqui.

A Carteira Empiricus sobe aproximadamente 18% em 2017, equivalente a 200% do CDI. Os portfólios somente de ações oferecem lucros ainda maiores – a carteira de Melhores Ações da Bolsa, feita pelo Bruce, por exemplo, está voando.

Há uma espécie de tentação em resguardarmos, garantir o bom desempenho e comemorar mais um ano de “excelentes resultados a nossos clientes.” Sensação de dever cumprido. Mas como tê-la se ainda restam três meses para o final do ano? Seria mesmo adequado “garantir o ano”, zerar as posições de risco e surfar a tranquilidade do CDI?

Penso verdadeiramente que o maior risco de todos é não correr risco algum. Você está parado confortavelmente, numa posição de liderança ou, mesmo não sendo o primeiro lugar, que lhe confira uma boa renda mensal, até que é subitamente atropelado por um evento inesperado.

Uma empresa que se acomoda numa posição confortável por muito tempo tentando estabilizar-se num determinado fluxo de caixa vê emergir um concorrente mais rápido e capaz da noite para o dia, solapando o anterior incumbente. As revoluções tecnológicas não chegam linearmente, um passo de cada vez – elas são singulares e exponenciais. De repente, boom! Se você para de crescer, você morre, citando Phil Knight pela duocentésima vez.

Ao entrar numa curva, você precisa aumentar sua aceleração centrípeta para não sair pela tangente. Note ainda que, quanto mais fechada é a curva (menor o raio), maior a necessidade de aceleração centrípeta para se manter na trajetória pretendida.

Muitos estão pensando em 2018. Esquecem-se que os movimentos são rápidos, em saltos, leptocúrticos e súbitos. Você sai do mercado brevemente, zera suas posições lucrativas pois “já fez o ano” e o negócio rasga mais 20% na sua cabeça.

Nas próximas semanas, você possivelmente começará a ser bombardeado com notícias, relatórios, reuniões com o private banker sob o tema “Onde investir em 2018?”. Lembre-se que 2017 não acabou. Há muita coisa a se fazer em três meses.

Não há como tirar um sabático de três meses sob o pretexto de que “o ano está ganho”. É verdade que o ano, de fato, foi excelente para aqueles que se dispuseram em incorrer num pouco mais de risco. O Ibovespa acaba de vir de seu melhor trimestre em oito anos, os juros caíram fortemente.

O fato de nossas carteiras estarem subindo tanto é muito mais resultado de um bull market estrutural do que propriamente de mérito nosso. Simplesmente pegamos o vento a favor e, assim, é muito mais fácil. Em conversas por ai, você vai encontrar uma porção de gênios. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. Toda a gente que eu conheço e que fala comigo nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…

Ao fundo, ouço uma voz humana me contando uma infâmia e uma covardia: é apenas um bull market.

O que faremos em outubro?

Resistiremos à tentação de realizar muito rapidamente os lucros e de garantir uma cota gorda ao final do ano com rodadas de antecedência. Aumentaremos um pouco o risco do portfólio.

Por que faremos isso?

Porque entendemos ser o certo. Por essa única razão.

Fique claro: a adição de risco se dá na margem, preservando ainda uma carteira diversificada e balanceada, com seguros. Filosofia de investimento não se negocia, nem se ajusta a partir de fatores conjunturais. O cardinal não migra, ele não tergiversa ou afasta-se de seus elementos mais íntimos, me ensinou o Marcelo Audi.

Mas a Carteira Empiricus, que já tinha mais em ação do que a maior parte das sugestões de alocação disponíveis por ai, passa a contar com exposição ainda maior em renda variável agora.

Como talvez você tenha notado, estamos entrando numa curva mais fechada agora. O raio da curva de juros brasileira está bem menor. Só nos resta a opção de aumentar a aceleração centrípeta.

Há um novo paradigma em construção. Antes, com Selic a 14,25% ao ano, só fazia sentido ter Bolsa com uma expectativa de retorno perto de 20% ao ano – custo de oportunidade do capital mais um prêmio de risco de mercado de 4/5%. Ou seja, se as ações lhe oferecessem um retorno potencial de 12%, por exemplo, elas não deveriam lhe ser atrativas.

Agora, com o juro básico caminhando para menos de 7%, o gestor de ações que entregar ao seu cotista um retorno anual de 15%, anteriormente considerado inadequado pois não remunerava Selic+prêmio de risco de mercado, agora terá sido brilhante.

Entramos numa nova realidade material, em que necessariamente precisaremos ter ações e em alta proporção, se quisermos ter rendimentos anuais de dois dígitos. Não é mais uma questão de gosto ou opinião. É uma constatação inexorável.

Outubro começa apontando ganhos para os mercados de ações. Por aqui, prognóstico de juros baixos por um bom tempo, após relatório Focus revisar para baixo estimativas de inflação, alimenta expectativa de migração de recursos para renda variável, enquanto lá fora bons indicadores industriais na China ensejam panorama positivo para o crescimento global e, portanto, para os lucros corporativos.

PMI oficial chinês subiu de 51,7 para 52,4 pontos, enquanto a medida do setor privado marcou 51 pontos, em leve queda, mas ainda acima do marco de 50 pontos, que indica expansão. No Japão, PMI também demonstrou força, ao passar de 52,2 para 52,9 pontos.

Além de ser permeada por indicadores industriais no mundo todo, segunda-feira é marcada por apreciação do dólar contra as principais moedas. Expectativa de nomeação de Kevin Warsch, considerado de perfil mais hawk (mais favorável a aumentos de juro), para o Federal Reserve fortalece a moeda norte-americana, enquanto votação na Catalunha em prol da sua independência enfraquece o euro.

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Agenda nos EUA traz PMI Markit e ISM. Internamente, além de Focus, saem IPC-S e balança comercial semanal.

Ibovespa Futuro abre em alta de 0,2%, dólar sobe 0,1% contra o real acompanhando comportamento da divisa no exterior e juros futuros ficam perto da estabilidade.

Quem também volta a demonstrar força é o bitcoin, que flerta com a marca de US$ 4,5 mil nesta segunda-feira. Depois do soluço do começo de setembro, criptomoedas voltam a subir de forma rápida. Aqui é para os fortes: muita volatilidade e risco, mas com um potencial de valorização enorme também.

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