Você não vai se machucar

Não importa se você não tem coragem hoje para ter 30% em Bolsa. Apenas considere a hipótese, vai devagar, devagarinho se adaptando.

Compartilhe:
Enviar link para o meu e-mail
Você não vai se machucar

As pessoas não só têm medo. Elas têm medo de ter medo. Já deram até nome para a coisa: previsão afetiva. É quando a gente faz uma previsão de como nos sentiremos, quais serão nossas sensações, num determinado momento futuro. Somente a hipótese de estarmos diante lá na frente de uma situação capaz de nos impor medo faz-nos sentir medo hoje.

Somos péssimos ao fazer previsões afetivas. Foi o que constatou o psicólogo Stanley Rachman. Ele comparou como as pessoas acham que vão se sentir diante de uma situação futura com o real sentimento delas quando efetivamente confrontadas com a questão. Resultado: uma coisa é bem diferente da outra. Sobre previsões afetivas de medo, em particular, a experiência real com o objeto temido é bem menos assustadora do que a pessoa imaginava.

Antes de Londres ser bombardeada pelos ataques nazistas, havia um temor generalizado de que a cidade pararia enquanto estivesse sendo alvejada. Os serviços seriam interrompidos, as pessoas deixaram de trabalhar, ninguém sairia de casa. Muitos correriam para o interior e a cidade seria dramaticamente impactada. Os prognósticos estavam por todo lado, nos jornais e nas conversas de bar.

O que aconteceu de fato?

O efeito da Blitz na atividade da cidade e das pessoas em geral foi muito menor do que todos esperavam. Os londrinos não se abalaram. O psiquiatra canadense J. T. MacCurdy, no livro The Structure of Morale, propõe uma explicação para o fenômeno. Segundo ele, um mesmo acontecimento pode ter desdobramentos totalmente diferentes sobre diferentes grupos. O que pode ser muito ruim para uma determinada turma não necessariamente será ruim para outra – pode inclusive ser bastante positivo.

No caso do bombardeio especificamente, ele separa as pessoas em três grupos. Temos os diretamente atingidos, aqueles que morreram efetivamente. Claro, para esses, o efeito foi devastador, mas eles, pessoalmente, não mais têm capacidade de influenciar a moral da sociedade londrina. O vigor de uma comunidade ainda continua dependendo somente dos vivos, com todo respeito a quem já se foi, óbvio.

Então, temos os quase atingidos, aqueles que tiveram algum contato com perdas irrecuperáveis, sentiram a dor, viram a destruição de perto, mas sobreviveram. Isso pode resultar em estados de choque, consequências negativas insuperáveis para a pessoa e uma moral deprimida. Fica uma trauma daquilo.

Mas, por fim, existem os remotamente atingidos. Aqueles que ouviram as sirenes, captaram as bombas explodindo ao longe, viram aviões militares sobrevoando suas cabeças. Ao final, saíram incólumes, sem qualquer alteração em suas vidas ou em seu entorno mais imediato. Atravessaram o evento negativo e saíram intactas. Isso não somente as faz sair da mesma forma como estavam antes da guerra. É mais. Elas saem com o moral mais elevado, com uma sensação de invulnerabilidade, de que são capazes de atravessar adversidades e sair mais potentes. O que não mata fortalece. Você vai criando casca e se sentindo mais disposto para enfrentar o problema.

No caso da Blitz em Londres, houve 40 mil mortos e 46 mil feridos, o que é obviamente uma grande tragédia. Mas, diante de uma área metropolitana de oito milhões de pessoas, o número de remotamente atingidos, encorajados por terem superado aquela experiência de serem bombardeados, foi bem maior. Isso permitiu à cidade enfrentar a Blitz sem se abalar. O moral médio estava elevado, não combalido como sugeriam as previsões.

Como brilhantemente define Malcolm Gladwell em Davi e Golias, “coragem não é algo que você já tem e o torna destemido quando tempos difíceis começam. Coragem é o que conquista quando passou por tempos difíceis e descobriu que não são tão difíceis assim.”

Vejo várias possibilidades decorrentes da ideia de sermos remotamente atingidos e de como, na verdade, podemos enfrentar as dificuldades de maneira muito melhor do que podemos elucubrar a priori, antes de sermos efetivamente confrontados com elas.

Você precisa viver a experiência, permitir-se, de fato, sentir aquilo, em vez de pensar em como se sentiria – as coisas são muito diferentes. Nada de backtesting, exercícios de simulação, Folhainvest. Nada de achar que “bolsa, fundos imobiliários, opções, ações no exterior, criptomoedas não são pra mim”, antes de verificar, na prática, se são ou não pra você.

Claro que ninguém está falando pra chegar lá e se jogar na água com tudo. Ela pode estar muito gelada ou contaminada pra você. Mas vai, coloca o pé, sente o negócio. Quando assustar, já está com o corpo inteiro na piscina e à vontade com aquilo.

Tem uma segunda coisa muito importante, que mata – ou deveria matar pelo menos – de morte matada a prática atual de toda a indústria financeira. Repare como toda instituição financeira, antes de pegar seu dinheiro, quer enquadrá-lo numa determinada caixa, num certo rótulo: muito conservador, conservador, moderado, arrojado, muito arrojado, ou qualquer coisa parecida. A ideia é de que os perfis pessoas são construídos a partir da experiência destrói a possibilidade de os estereótipos feitos ex-ante serem adequados.

Se você cai num formulário que o caracteriza como muito conservador, vão lhe alijar para sempre da possibilidade de investir em ações, por exemplo – e em vários outros instrumentos que poderiam contribuir para sua construção de patrimônio a longo prazo. A prática ignora o fato de que as pessoas não nascem prontas para tolerar determinadas perdas momentâneas, volatilidade e sustos no meio do caminho. Elas são forjadas a isso por meio da experiência, sentindo na pele de que podem – e devem – enfrentar alguns percalços na vida, que isso faz parte do processo e os fará sair melhores lá na frente.

Terceiro desdobramento: só dá para confiar em gestor/investidor/analista que já viveu situações adversas, problemáticas e assustadoras. Apenas eles foram forjados na real experiência e o verdadeiro sentimento catalisado pelo momento ruim. Só assim podemos agir adequadamente no dia a dia das finanças, e não com suposições de como seria teoricamente se, eventualmente, quem sabe dia, viesse um momento adverso. Entre um fundo de baixa vol e outro de alta vol, prefira o segundo. Esse gestor já passou por muita coisa e vai saber agir quando algum monstro aparecer. O primeiro é uma virgem imaculada, criada na base de leite com pera no carpete do apartamento. Sem chance…

Quarto e talvez o mais importante: contemple a hipótese, apenas como hipótese, de que você adicionar um pouco mais de risco no seu portfólio – claro: sem loucura, sem alavancagem, sem concentração, com jeitinho. Você não será diretamente atingido. Ou os ferimentos serão muito menores do que você está supondo estando de fora, fazendo uma previsão afetiva de como seriam dramático incorrer numa determinada volatilidade e em perdas momentâneas.

Quando eu defendi elevar a alocação em Bolsa há dois anos, aquilo parecia excessivamente arriscado, muito acima do que qualquer outro alocador estava sugerindo. Por sorte, a coisa acabou dando certo, mas nem é esse o ponto. Pouco importa, na verdade, pois o passado não se muda. O importante na época é que o fiz enxergando um grande potencial para as ações no Brasil – havia, sim, muitos riscos no horizonte e baixa visibilidade, mas o upside mais do que compensava isso.

Hoje, é um pouco diferente. A 76 mil pontos (não mais a 45 mil), é evidente que o potencial de valorização se apresenta menor. Ainda assim, estou sugerindo uma alocação em torno de 30% do capital em ações. Talvez você ache um absurdo e queira julgar como exagero, mas isso é o normal. Funciona assim no mundo inteiro. O Brasil que sempre foi o paraíso do CDI. Agora acabou. Vamos ter juro de 7%  por bastante tempo, talvez até menos. E você vai precisar ter bolsa.

Veja que mesmo o mitológico fundo Verde foi concebido originalmente para ter cerca de 1/3 de suas posições em ações – está com menos do que isso agora, eu sei. Mas o estrutural, a ideia da coisa na essência era isso.

Não precisa inventar a roda. Aloque 30% em ações – pode ser BOVA11 mesmo; a maior parte das pessoas não bate o benchmark e você não precisa querer, de cara, já fazer parte do quarto quartil. Deixe outros 30% em renda fixa, tentando, na medida do possível, replicar o IMA. Separe outros 30% para imóveis e fundos imobiliários (também pode ser via IFIX). E reserve o resto para moeda forte e uns bons seguros. Boa parte da caminhada em direção a uma sólida construção de patrimônio a longo prazo estará garantida. Stock picking, market timing e coisas parecidas podem ajudar, mas o grosso do resultado mesmo vem da alocação entre as variadas classes de ativos.

Não importa se você não tem coragem hoje para ter 30% em Bolsa. Apenas considere a hipótese, vai devagar, devagarinho se adaptando.

“O senhor… mire, veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam, verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra montão.”

Está gostando desse artigo?Insira seu e-mail e comece já a receber nossos conteúdos gratuitos

Quarta-feira começa com mercados positivos no Brasil. Destaque para votação da segunda denúncia contra o presidente Michel Temer – ampla expectativa por vitória do Planalto, mas certa ansiedade pelo placar, que pode indicar chances sobre a pauta das reformas no futuro. Sobre isso, matéria do Estadão sugere Rodrigo Maia disposto a colocar a Previdência de novo no radar – como ele havia saído dos holofotes nos últimos tempos, pode animar investidores hoje.

Copom atualiza Selic, também sem grande dúvida. Todos esperam redução de 75 pontos-base no juro básico, enquanto aguardam sinalizações sobre eventuais novos passos – paramos em 7% ou vamos mais pra baixo? Sábios não fazem previsões, diria Confúcio. Obviamente, não sou sábio, mas tento fingir. Então, não me arrisco ao chute. Em termos práticos, parece que a curva de juros, às atuais cotações, superestima o aperto monetário vindouro. Em português, os juros, de fato, à frente serão menores do que o contemplado hoje pelas cotações.

IPC-Fipe e fluxo cambial mensal completam agenda local. Nos Estados Unidos, temos estoques de petróleo, encomendas de bens duráveis e vendas de novas moradias.

Ibovespa Futuro sobe 0,3%, dólar está perto da estabilidade contra o real após importante escalada e juros futuros recuam.

Conteúdo recomendado