Um pouco de muito risco é melhor que muito de pouco risco

Investir pouco em muito risco é preferível do que alocar muito em pouco risco - se esse pouco risco acaba se materializando, você simplesmente terá sido expulso do jogo por conta de sua alta exposição àquilo.

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Um pouco de muito risco é melhor que muito de pouco risco

Terminando o mês de novembro, intensificam-se os relatórios e as palestras de perspectivas para 2018 – eu mesmo estarei amanhã em evento da Amcham no Mato Grosso do Sul debatendo o tema com o professor de Columbia Marcos Troyjo. Ainda tento entender o convite, dado que não tenho perspectiva alguma… Já avisei antes para reduzir a decepção. Tem louco pra tudo.

Os guias de investimento para o próximo ano trazem propostas de “como transitar num Brasil de juro básico de 7%”. Há versões um pouco mais sofisticadas para dizer coisas semelhantes. Variações do mesmo tema sem sair do tom.

Em geral, a proposta é de que o investidor terá de conviver com alternativas menos conhecidas de aplicação, adicionando a seu portfólio muitos CRIs, CRAs, debêntures incentivadas, LCIs e LCAs (quando encontrar) e por ai vai.

A recomendação é quase unânime entre alocadores e planejadores financeiros. Com efeito, a ideia parece fazer sentido: com juros baixos na renda fixa soberana, precisamos incorrer num pouco mais de risco e comprar crédito privado, que poderá nos oferecer um pouco mais de retorno, sem precisarmos incorrer na terrível volatilidade de Bolsa.

“Me inclua fora dessa.”

Os dois leitores frequentes desse espaço talvez já saibam da resistência em traçar perspectivas, para 2018 ou qualquer outro ano. A realidade é não ergódica. As séries financeiras não preservam suas propriedades estatísticas ao longo do tempo. Por mais que nos esforcemos para desenhar 2018, o que vai efetivamente guiar os mercados no próximo ano será um evento alheio à nossa capacidade de imaginação ex-ante.

Os tais guias de investimento distribuídos em dezembro funcionam muito bem como terapia ocupacional, tentativas de acalentar nosso desejo de controle. Do ponto de vista prático, porém, servem apenas para fazer a meteorologia não passar vergonha sozinha – compare as projeções feitas ao final de 2016 com o preço dos ativos hoje e veja se há alguma similaridade. Como diria Mário Henrique Simonsen, estamos diante do princípio da contraindução: uma experiência que deu errado no passado, em vez de ser abandonada, será repetida em novas tentativas, até que a coisa funcione…

Mas nem é esse o ponto central hoje. Meu argumento é de que você não deve adicionar muito crédito em sua alocação para 2018. Acredito, sim, que há boas oportunidades nesse segmento e a Marília pode lhe ajudar a encontrar as melhores disponíveis – ela tem feito um trabalho estupendo nesse sentido, diga-se de passagem. No entanto, não acho que isso deve ocupar um espaço muito grande de seu portfólio.

Resumidamente, o risco assumido ao migrar da renda fixa soberana para a privada não parece compensar o diferencial de retorno adicional, que se mostra muito comprimido aos níveis atuais.

Aposte centavos para ganhar dólares. Nunca aposte dólares para ganhar centavos.

Um fundo de renda fixa com um longo histórico de 120% do CDI vai demorar anos para se recuperar se tomar um único default. E, sim, depois de vários anos incorrendo em vários riscos de crédito, vai ser natural você tomar um default.

Pra mim, faz muito mais sentido você alocar 1% de seu portfólio em bitcoins, opções fora do dinheiro, start ups de tecnologia e qualquer outra coisa com perfil convexo (pense na curva exponencial, aquela que vai ficando cada vez mais inclinada conforme você se move para a direita no eixo das abcissas), do que expor 10% da sua carteira numa debênture incentivada.

No primeiro caso, você perde no máximo 1% do seu portfólio se tudo der errado. Em contrapartida, pode ganhar muito mais de 1% se tudo der certo. Já no segundo, toma um prejuízo de 10% se der zebra; e ganha no máximo 120% do CDI (assumindo o carrego da posição até o vencimento).

Separe um tanto pequeno do seu portfólio para incorrer em altíssimo risco, com a contrapartida de um ainda maior retorno potencial. Esse tanto deve ser equivalente àquilo que você topa perder sem se machucar.

Alocar pouco em muito risco é preferível do que alocar muito em pouco risco – se esse pouco risco acaba se materializando, você simplesmente terá sido expulso do jogo por conta de sua alta exposição àquilo. Nosso combinado aqui é necessariamente que jogaremos o jogo até o final.

Essa é uma das ideias centrais do que Nassim Taleb chama de Barbell Strategy. Nada de riscos médios, no centro da barra. Muita alocação em risco nulo (ou baixíssimo risco) e uma pequena exposição a muito risco (diversificada e com perfil de retornos convexos).

Jogando dessa forma, há uma perspectiva certeira que posso lhe passar: você vai sobreviver. E essa é a mais importante deliberação de fim de ano.

Mercados brasileiros iniciam a semana com variações pouco significativas. Ibovespa Futuro abre em ligeira queda de 0,1% , ponderando falta de avanço material em torno da reforma da Previdência, alerta da consultoria Eurasia sobre baixa adesão ao tema e artigo de Luciano Huck descartando concorrer à presidência.

Juros futuros recuam, acompanhando queda dos yields no exterior e perda de valor do dólar contra moedas emergentes nesta manhã.

Na agenda, destaque para relatório Focus, relatório da dívida pública e definição da bandeira tarifária. Nos EUA, saem vendas de casas novas e atividade do Fed de Dallas.

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