Retornos exponenciais e o Vale do Suplício

Não dá para saber como será 2018. Mas, há dois elementos-chave que impactarão decisivamente o próximo ano.

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Retornos exponenciais e o Vale do Suplício

Eu me considero um cristão ateu. Você pode horrorizar, eu vou achar normal. Criado na disciplina jesuíta, minha visão de mundo sempre foi judaico-cristã. Esse foi e é até hoje meu guia ético e moral. Agora, acreditar mesmo na existência de um Criador é difícil para um cético.

Nas missas de domingo na Igreja Dom Bosco ali na Cerro Corá, na capela do Colégio São Luís ou na igreja matriz de Senhora do Porto em Minas Gerais, ficava olhando para aqueles santos lá no alto e pensando: mas mamãe não é monoteísta? Como reconciliar a ideia de um único Ser todo-poderoso com essas semi-divindades, preparadas para confortar-nos em causas específicas?

Nada contra, esclareço. De verdade. Só acho controverso, como uma porção de outras coisas. O que seria de nós sem nossas contradições e ambivalências?

A coerência é um porre. Gosto mesmo das coisas misturadas. Talvez por isso carregue comigo um chaveiro lindo de São Bento, que ganhei do amigo Filipy. Ele obrigou a usar, diz que vai me proteger. Na dúvida, né? Mal não deve fazer. E vai que…

No politeísmo, a coisa parecia mais bem definida. Na Grécia clássica, todos os deuses estavam submetidos a um poder onipotente que abarcava tudo. Zeus, Hera, Apolo e todos seus amiguinhos ficavam hierarquicamente abaixo de Ananque, também chamada de Destino ou a deusa da inevitabilidade. Suspeito de certa dificuldade de Dionísio em respeitar a autoridade, mas mesmo ele não poderia escapar à fatabilidade da mãe das Moiras.

O negócio faz mais sentido assim. O poder supremo que governa o mundo (veja: o mundo todo) precisa ser destituído de interesses e inclinações. Não pode estar preocupado com anseios, cuidados e motivações de determinadas pessoas ou setores, em detrimento a outros. Escolher a glória de um por vezes representa conduzir o outro ao fracasso. Se uma determinada tribo reza antes de uma guerra pedindo a vitória para o poder supremo, isso significa a preferência de deus por uma equipe à outra?

A ideia está refletida na sabedoria popular: se macumba funcionasse, campeonato bahiano determinava empatado.

André Agassi narra anedota parecida em sua biografia ao comentar os jogos contra Michael Chang. Ao ver o adversário agradecendo a Deus pela vitória, Agassi questionava: que Deus é esse que escolhe um vencedor numa partida de tênis? O Criador gosta mais dele do que de mim, é isso?

Deus (o Deusão) precisa ser imparcial. Não dá para negociar com Ele. Então, a gente recorre a poderes parciais (sejam eles o deus da guerra ou o santo das causas impossíveis). Escolhemos conforme a necessidade pontual, se a vitória militar ou a recuperação de uma doença.
Todos, porém, continuam submetidos ao Deus maior: o Destino. Esse é inexorável. Ele nos espera ali na frente e não há como desviar das forças aleatórias por Ele impostas, sem inclinações ou interesses particulares…

Você pode rezar o quanto quiser, estudar o quanto puder uma ação – o que vai guiar seus resultados à frente será definido pelo acaso, por algo incapaz de vislumbrarmos ex-ante.

Entramos hoje em dezembro e, definitivamente, na temporada de previsões para 2018. Teremos uma série de reportagens, relatórios, vídeos e podcasts tentando adivinhar como será o próximo ano. Quero propor um desafio para você: eu aposto que você lerá, repetidas vezes, algo como “o movimento mais óbvio nos ativos brasileiros já aconteceu; daqui para frente, precisaremos ser mais seletivos.”

Engraçado porque muitos daqueles que apontam o “movimento óbvio do passado” não capturaram esse movimento mais óbvio. Eles não foram aos jornais ao final de 2016 para defender uma “óbvia posição mais pesada em Bolsa” neste ano.

Tudo que está no passado é óbvio. Entorpecidos pelo viés de retrospectiva, sequer conseguimos ver que nós mesmos não conseguimos ver a obviedade anterior. Das duas, uma: ou somos imbecis ou não era óbvio. Ok, talvez ambos.

O mercado nunca é óbvio. Se a hipótese de mercados eficientes não representa fidedignamente o comportamento dos ativos (de fato, não representa), a verdade também é que não há outra melhor para colocar no lugar.

Não dá para saber como será 2018. Pra mim, há dois elementos-chave para definir o próximo ano: i) o comportamento da inflação norte-americana, que vai balizar o futuro do juro nos EUA e, por conseguinte, o comportamento do Fed, da liquidez global e do tamanho dos prêmios de risco; e ii) a disputa e o resultado das eleições brasileiras, capazes de determinar o prognóstico para aprovação ou não das reformas estruturais.

No atual momento, acho prematuro tecer qualquer comentário mais incisivo sobre o resultado de cada um dos dois elementos. Há bons argumentos para cada um dos lados e muita incerteza no processo. Sei de três pessoas dez vezes mais inteligentes do que eu posicionadas para capturar o aumento da inflação nos EUA e a derrota de um candidato reformista no Brasil; também conheço outras três, igualmente inteligentes, apostando no contrário.

Sempre que estou muito na dúvida sobre o que fazer, compro um pouco de dólares. Se Ananque existe e admite negociações, suspeito que Ela prefira receber em dólar.

Leia mais: 8 ou 80

Mercados estendem o clima negativo dos últimos dias e registram perdas no início das negociações desta sexta-feira. Internamente, pesam novas notícias negativas sobre a Previdência, com jornais apontando falta de votos para a potencial aprovação. Lá fora, revés no Senado dos EUA para aprovação de pacote tributário de Donald Trump eleva aversão a risco.

Na agenda local, destaque para crescimento abaixo do esperado do PIB brasileiro no terceiro trimestre, de apenas 0,1%, contra 0,3 esperado. IPC-S anotou inflação de 0,36%, em linha com projeções. Prévia do Ibovespa sugere entrada de Fleury, Iguatemi e Magazine Luiza. E temos dados de balança comercial mensal. Nos EUA, saem ISM e PMI.

Ibovespa Futuro tem queda de 0,57%, juros futuros sobem e dólar está perto da estabilidade.

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