A primeira vez a gente nunca esquece

Foi assim que comecei... sabendo que, às vezes, as coisas dão errado. Foi também assim que fui introduzido ao Pactual e ao Garantia, que passaram a, figurativamente, nos acompanhar no frango com quiabo e no whisky – não necessariamente nessa ordem.

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A primeira vez a gente nunca esquece

“Quando os pintores perderem o amor pela arte,
as teorias vão começar…”
Delacroix (se não foi o Delacroix, dessa ele esqueceu)

Meu primeiro contato com o mercado financeiro foi em 1994. Vivíamos a expectativa pelo governo Fernando Henrique e todos estavam otimistas com a Bolsa brasileira.

Papai não era exceção. Estava comprado como todos, alavancado como só ele. Esse era seu estilo, termado até a alma em Globonabo.

Mundo, mundo, vasto mundo, se eu me chamasse Raimundo, seria uma rima, não uma solução.

Naquela noite, mamãe serviria frango com quiabo; papai serviria o whisky, principalmente para si mesmo.

Desculpe se isso lhe soa sexista. Não era a intenção. Apenas foi assim e eu tento manter-me fiel aos fatos, deixando claro que era minha própria mãe quem mais gostava da função.

Eu já tinha percebido que noites de típica comida mineira servida para os diretores do Safra representavam uma tentativa de, através do estômago, conseguir o perdão ao meu pai por algum erro cometido nos dias anteriores. Sabe como é, com frango com quiabo e angu da Dona Lúcia, regado a Black Label, até o Ezra fica bem-humorado.

Aquela noite, porém, não era apenas mau humor momentâneo ou um erro pontual que precisava ser corrigido. Era o prenúncio de algo muito maior, que nem aquela mesa de jantar ainda conseguia entender.

“Essa Bolsa só cai. É o filho da mãe do Jakurski que não para de vender. O que esse louco está vendo? Quer quebrar todo mundo, pô?”

Obviamente, não era loucura. André Jakurski estava vendo a crise do México.

Foi assim que comecei… sabendo que, às vezes, as coisas dão errado. Foi também assim que fui introduzido ao Pactual e ao Garantia, que passaram a, figurativamente, nos acompanhar no frango com quiabo e no whisky – não necessariamente nessa ordem.

Não havia cadeira ocupada pelo André Jakurski (Pactual) ou pelo Tom Freitas Vale (Garantia), mas suas almas e suas posições do dia anterior nos visitavam com frequência, recebidas com uma mistura de raiva, rivalidade, respeito e admiração. Essas histórias e o mercado financeiro “raiz” foram introjetados em minha alma por osmose.

Papai saiu de feirante para, 20 anos depois, virar diretor de banco. Foi dono de corretora, trader de ações, broker de renda fixa. Terminou como agente autônomo. Passou por cada posição no mercado financeiro e de cada uma delas me falava de maneira apaixonada. Chegava a ser chato. Contava tudo em detalhes, depois entrava tim-tim por tim-tim.

Desde cedo, conheci cada brecha do sistema, onde estavam os conflitos de interesse e onde os bancos e as corretoras atuavam (e ainda atuam) em causa própria em detrimento de seus clientes – sem que esses saibam, evidentemente.

Talvez eu não participasse da Empiricus se não fosse por esse histórico, que me permitiu conhecer o “monstro” por dentro desde cedo. Foi uma espécie de chamamento para atacar esse desalinhamento entre bancos/corretoras e clientes. As vocações também são path dependent, sabe?

Por questão de coerência, para evitar uma postura niilista, se lhe aponto diariamente os problemas e os conflitos do sistema financeiro, devo propor-lhe algo diferente. Se a via tradicional está cheia de buracos e armadilhas, qual caminho alternativo? Onde fica a estrada mais bem pavimentada?

Gosto de dividir nosso trabalho aqui em dois blocos. Sobre o primeiro, aplica-se apenas e tão somente a racionalidade estrita, em que apenas o estudo e a aritmética conduzem-nos às conclusões práticas. É o mundo em que não há incerteza ou surpresas no meio do caminho. Ou se há, elas são desprezíveis.

Deixo dois exemplos. Se o banco A lhe oferece um financiamento imobiliário pela taxa de 11% e o banco B dá a mesma linha de crédito a 10%, não há dúvida sobre a decisão certa a se tomar. Não precisamos saber nada sobre o futuro para escolher B sobre A.

Vale rigorosamente a mesma coisa se o fundo DI do grande banco C cobra uma taxa superior àquela do grande banco D.

Deixe-me dar nome aos bois.

A cada vez em que o Banco Central atualiza a taxa Selic, surgem matérias comparando fundos DI contra poupança. Algumas procuram um pouco mais de sofisticação e adicionam à conta também as alternativas do Tesouro Direto. Todas essas opções de investimento circunscrevem-se na categoria das reservas de emergência e, portanto, permitem a comparação.

De todas essas, hoje a melhor opção para sua reserva de emergência e/ou para suas posições pós-fixadas sem risco de crédito é o fundo DI do BTG, com taxa de administração de apenas 0,1% ao ano. É o melhor fundo DI do mercado, inclusive superior às aplicações no Tesouro Selic (LFT), onde você vai pagar 0,3% ao ano. Não é uma opinião, é um fato objetivo, entende? Do ponto de vista estritamente racional, não há razões para manter seu dinheiro em outro fundo DI ou em LFT hoje.

Parte relevante do trabalho da Empiricus é justamente descobrir esse tipo de alternativa e levá-la ao conhecimento do grande público. Há uma outra parte, em que o buraco é mais embaixo.

Nesse segundo bloco, imperam a incerteza e a aleatoriedade. Nele, dependemos da evolução das coisas no futuro para caracterizar um investimento lucrativo ou perdedor. Se você compra uma ação agora, sua decisão vai render-lhe algo bom ou ruim a depender dos resultados futuros da empresa.

O esforço dos financistas normalmente vai no sentido de desenvolver as técnicas mais sofisticadas possíveis para adentrar esse futuro e enxergá-lo de maneira antecipada. Supostamente sabendo o que acontecerá à frente, o investidor toma a decisão de comprar ou vender.

Aqui, nós achamos que o futuro, por mais incrível que pareça, está somente no futuro e jamais poderá ser acessado hoje. Se não fosse assim, ele viraria o próprio presente, criando uma contradição em termos.

A metáfora que uso aqui é a seguinte: joga-se uma moeda para cima, girando. Há uma porção de gente munida dos materiais mais sofisticados do mundo para, enquanto a moeda está no ar, adivinhar se vai dar cara ou coroa. Nós aqui pensamos: “Eu não sei se vai dar cara ou coroa; mas, neste jogo, se der cara eu ganho 5, se der coroa eu perco 2 – está aí um jogo que eu gostaria de jogar por várias rodadas, pois sairei vencedor lá na frente”.

O investimento não é uma decisão estética. Nele, valorizam-se as assimetrias. Aos preços atuais, a minha proporção áurea sugere um pouco menos de dólar, um pouco mais de NTN-B.

Mercados iniciam a semana de forma positiva, empurrados por prognóstico favorável sobre relação comercial entre EUA e China e por recepção calorosa ao aumento da intervenção do Banco Central no câmbio. BC ampliou oferta de swaps de 5 mil para 15 mil e apontou possibilidade de atuar de forma extraordinária se julgar necessário.

Lá fora, Bolsas sobem após trégua na relação comercial sino-americana. Secretário do Tesouro dos EUA afirmou colocar a guerra comercial em espera.

Agenda é fraca no exterior. Por aqui, atenção para relatório Focus e potencial maior volatilidade na B3 em meio a vencimento de opções sobre ações.

Ibovespa Futuro abre em alta de 0,5%, dólar e juros futuros caem.