Onde nós erramos?

Onde nós erramos? Temos 1 milhão de pessoas comprando bitcoins e 500 mil CPFs na Bolsa. Confesso certa decepção com a baixa penetração de Bolsa entre as pessoas físicas brasileiras. Insisto para que você comece a investir em ações e monte uma exposição significativa.

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Onde nós erramos?

ou um sujeito de ações. Ah, sim, obrigado. Você tem razão. Eu não tinha percebido a ambiguidade da frase.

Acredito mesmo que um homem (uma mulher ou qualquer outro gênero que venha a habitar o planeta Terra) deve ser medido(a) por suas ações/atitudes, não pelo que pensa ou acredita. Uma opinião sem exposição vale zero. Ou, como diria mamãe: de boa intenção, o inferno está cheio. A salvação, se existisse, só poderia se dar pelas obras.

Mas aqui não falo de ações nesse sentido. Dou à frase inicial a outra conotação possível da ambiguidade. Digo que sou um sujeito de ações por ter me ligado a vida inteira à Bolsa, mais especificamente ao segmento Bovespa. Sou nascido e criado no ambiente da renda variável – papai foi trader de ações e sócio de corretora. Eu observava aquilo com grande interesse e entusiasmo, tentando copiar o herói sempre que podia.

Não me tome por um sujeito de posses. Tivemos, sim, uma grana por um tempo, mas a alavancagem, o day trade e o excesso de concentração cobraram seu preço. A montanha-russa patrimonial variava de acordo com as crises econômicas – tenho um vudu do Itamar desde aquela convocação de policiais-militares para “proteger” Furnas da privatização. Não é um tanto curioso que o mesmo PMDB agora queira oferecer a Eletrobras à iniciativa privada?

Não reclamo de coisa alguma. O vudu é licença literária. Conto do berço ordinário, que nunca foi muito ligado aos dividendos, simplesmente para lhe fazer perceber que os comentários sobre ações vêm, de maneira não deliberada, carregados de muito viés pessoal, de alguém que, por mais que se esforce, não poderá superar a paixão visceral pela renda variável.

A Empiricus nasceu como uma casa de análise de ações e, ainda que tenha se desdobrado em uma coisa mais plural, carregará para sempre essa veia mais apegada à renda variável. A gente tenta disfarçar a nossa orientação mais íntima, mas acaba dando bandeira, não tem jeito.

Desde cedo, sou incomodado pela seguinte pergunta: será que nossa visão sobre as coisas, mais especificamente para nosso caso, o preço dos ativos financeiros (das ações, por exemplo), converge para a realidade objetiva? Ou, me embrenhando um pouco mais no assunto, a realidade em si existe sem nossa visão sobre ela? Ou será que só existe a percepção da realidade?

Noutro dia, veio aqui um brilhante gestor de ações. Ele é muito mais inteligente do que eu. É muito mais rico também. No meio da conversa, ele me interrompeu: “Mas, Felipe, então isso vira a especulação pela especulação. No final do dia, tem que convergir para seu real valor.”

O problema, pra mim, é que talvez só haja a especulação. Pensa bem: se, por definição, o valor de uma ação vem da soma dos fluxos de caixa, de hoje ao infinito, trazidos a valor presente por uma taxa de desconto apropriada, o que nos resta além de especular sobre esses fluxos futuros? Caímos num paradoxo de que o único fundamento é a própria especulação, aqui no seu sentido etimológico, de antevisão sobre o futuro, elucubração, análise em detalhes.

Desafiando a física de Newton, Einstein propôs que tempo não é função do espaço, nem vice-versa. É uma coisa só. Na metáfora transposta para as finanças, não pode haver separação entre as expectativas, cuja interação se manifesta no preço de tela, e dos fundamentos, que resultariam no famigerado “valor intrínseco”. Expectativa e fundamento são a mesma coisa. Soros e sua teoria da reflexividade se ligariam a Einstein e à relatividade, enquanto Graham/Buffett e a ideia de valor intrínseco guardariam conexão com Newton.

Mas talvez você ache essa uma discussão filosófica sem aplicação. Por mais que eu discorde, não negaria que você tem um ponto. Falo tudo isso motivado pelo comportamento de ontem dos mercados.

Desde o último Relatório de Emprego dos EUA, qual é o grande temor global? Basicamente, de que as pressões inflacionárias naquele país forcem o Fed a elevar sua taxa básica de juros em ritmo mais acelerado do que o previsto. O banco central norte-americano, assim, poderia acabar com o crescimento daquela economia, ao mesmo tempo em que decretaria o fim da festa da grande liquidez global, com impacto potencialmente grande sobre os mercados emergentes – Brasil incluído, claro.

Então, ontem era o dia da temida inflação ao consumidor norte-americano. Qualquer comportamento acima do esperado poderia disparar nova pressão vendedora, ao corroborar o argumento em prol da necessidade de uma subida acelerada do juro básico norte-americano, com efeitos danosos sobre ativos de riscos.

Eis que os preços ao consumidor dos EUA arrombaram qualquer expectativa e, claro, as Bolsas fecharam…. em forte alta!

Onde está a conexão umbilical com os fundamentos?

Talvez o leitor mais atento rebate de imediato o argumento. “Você está desconsiderando que as vendas ao varejo norte-americano decepcionaram muito. Na esteira, vários bancos e o próprio Fed de Atlanta revisaram para baixo suas estimativas para o crescimento no primeiro trimestre. Logo, a economia dos EUA teria menos força do que se supunha e o Federal Reserve não poderia subir sua taxa básica de forma tão intensa.”

Ah, claro. Faz todo sentido. Há mais inflação do que supúnhamos. E menos crescimento. Ora, esse seria o pior cenário possível para os ativos de risco. Não para em pé.

O mercado tem sua própria dinâmica. Não digo a própria lógica, porque por vezes aparenta não ter lógica alguma. Assim como os seres humanos, ele obedece a seus próprios anseios. Por vezes, a forma como reage a uma determinada notícia revela mais sobre sua trajetória futura do que a notícia em si. O mercado parece querer subir. E, se assim for mesmo, vai subir. Só com mais volatilidade agora.

Sei dos meus vieses pessoais. E espero que você também os tenha apreendido a esta altura. Mas confesso certa decepção com a baixa penetração de Bolsa entre as pessoas físicas brasileiras. E insisto para que você monte uma exposição significativa em ações.

A XP tem feito um trabalho incrível de oferecimento de alternativas, com boa democratização de investimentos a partir da plataforma aberta. A própria Empiricus tem uma pequena contribuição nessa popularização.

A verdade, porém, é que temos feito muito pouco. Todos nós, sem exceção. Há algo errado aqui, sabe? Temos 1 milhão de pessoas comprando bitcoins e 500 mil CPFs na Bolsa.

Não tenho nada contra as criptomoedas, de verdade. Aliás, tenho encontrado uma desonestidade intelectual atroz em torno delas. Esbarrei com uma porção de profetas alardeando um “não falei” por conta da recente queda do bitcoin. O sujeito fala que vale zero no momento em que o negócio está cotado a 2 mil dólares. Vai a 18 mil dólares e depois volta para 9 mil dólares. Ele te liga para contar vitória. O camarada falou mal do bitcoin a 2 mil dólares, hoje está 10 mil dólares e ele vem contar vantagem. Não sei como a história vai acabar. Talvez termine bem feia. Deixo as profecias para os profetas. Mas, por ora, ele está errado.

Esqueça a breve digressão. Volto à questão central. Há pelo menos 500 mil pessoas que têm bitcoins e não têm nada de ações. Boa parte dessas pessoas possivelmente não tem a menor ideia do que está fazendo, desafiando qualquer preceito de diversificação de seus investimentos.

Aqui cai um outro mito do mercado de capitais brasileiro, aquele que explica a baixa penetração das ações entre as pessoas físicas do país por conta de sermos “conservadores ao lidar com o dinheiro”. Então, nosso conservadorismo vale para as ações e não vale para os bitcoins, é isso? Ou alguém vai tentar me convencer de que as criptomoedas são um destino conservador para nossas economias?

Eu me pergunto onde foi que erramos.

Possivelmente, é um problema de framing, de como a coisa é apresentada. O que você prefere:

1. Ganhar 15% com as ações?

2. Ganhar 4x mais nas ações do que na renda fixa?

Diante do problema acima, normalmente as pessoas escolhem a segunda opção. Mas note que é rigorosamente a mesma coisa. Se você supuser que a renda variável vai lhe dar 15% ao ano, isso representa um retorno real de cerca de 11%, descontada uma inflação de 4%. Na renda fixa, assumindo um rendimento nominal de 6,75 e a mesma inflação, chegamos a 2,75% de retorno real. 11/2,75 = 4x.

Talvez seja um problema das campanhas muito institucionais. Aquela do Pelé com a Bovespa foi impagável. O cara vai na Bolsa para anunciar que gosta mesmo é de imóveis. Calado é um poeta, resumiu o Baixinho.

Talvez a redução do espaço na imprensa aos investimentos pessoais cumpre algum papel também. Sem informação, o sujeito acaba fugindo, muito embora isso também encontraria problemas ao ser comparado com o bitcoin, que apoia mais que boi ladrão dos jornais, que, como eu, nem sequer sabem do que se trata.

Ou talvez seja por conta do histórico ruim de Bolsa contra a renda fixa. O ponto central, porém, é que hoje o cenário mudou e o juro deve ser bem mais baixo estruturalmente.

Por isso, é chegada a hora de inverter o quadro. Eu acho que você deve começar com uma boa exposição em ETFs, aqueles que replicam carteiras teóricas dos índices. Assim você tem uma boa cesta de ações. Se sua alocação em Bolsa for composta por 85% de BOVA11 e o restante de SMLL11, você terá cumprido sua missão já.

Muita gente acha que gestão passiva (esta em que você não seleciona ações especificamente; apenas se expõe a um índice pré-determinado) é coisa de “série B” dos investimentos. Discordo frontalmente. Acho que a maior parte das pessoas não bate os índices. Não por incompetência, mas porque é difícil pra caramba superá-los mesmo.

Pense que o índice é uma média ponderada. Então, veja o seguinte. Em longos períodos de tempo, as dez ações líderes daquele índice terão se multiplicado várias vezes. Sei lá, por 10x. Enquanto isso, as dez piores ações terão caído no máximo 100% – pela simples aplicação da lei de responsabilidade limitada. Então, as dez ações líderes explicarão boa parte da alta daquele índice. Por mera aplicação da probabilidade, a chance de você ter aquelas dez ações é relativamente baixa. E se você não as tiver, muito provavelmente não vai bater o índice. A maior chance é justamente que você não as tenha.

Depois de montar uma boa exposição passiva, superado o preconceito, você pode ir migrando na margem em direção à gestão ativa. A Luciana Seabra é a maior especialista em fundos de investimento do Brasil e seleciona os melhores para capturar os ciclos de alta da Bolsa. Os fundos de ações são ótima alternativa para momentos de bons ciclos de mercado, exatamente como esse que, em meu entendimento, está em curso.

Num segundo momento, você pode começar a escolher por conta própria. Bruce Barbosa está aqui para auxiliá-lo nessa caminhada, listando As Melhores Ações da Bolsa.

No país em que bicheiro escreve samba-enredo com crítica social e leva o título de campeão do Carnaval, o que mais me surpreende ainda é a baixa penetração da renda variável.

 
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Feriado na China retira um pouco da referência do mercado de commodities, em dia de agenda cheia nos EUA, com inflação ao produtor, produção industrial, atividade na região de Nova York e pedidos de auxílio-desemprego.

Ibovespa Futuro registra alta de 0,7%, dólar cai 0,2% contra o real e juros futuros operam predominantemente em baixa, sobretudo os mais curtos.