Sete anos de bull market

O fato é que após o julgamento do ex-presidente Lula, acertamos a última peça que faltava para garantir o bull market secular que vínhamos projetando desde o fim de 2014.

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Sete anos de bull market

“Nunca estive tão frustrado na minha vida. Frustrado com a inabilidade de parte deste país de escutar e com a habilidade de falar, mas sem ser ouvido, de outra parte. Não há diálogo mais. Sempre tivemos um Congresso dividido. Mas nunca vi um entrincheiramento tão vil e dogmático. E nunca vi tamanha raiva na política. Não consigo encontrar o que seria uma maneira de começar um diálogo. Nunca vi tamanho entrave e não vejo nenhuma luz no fim do túnel.”

O Brasil é difícil, né?

Realmente, é. Mas o parágrafo acima, embora pudesse muito bem representar o clima local, foi retirado da entrevista de Steven Spielberg para a Folha de S.Paulo a respeito de seu mais novo filme, “The Post”. O longa conta o drama de Katherine Graham (no filme, Meryl Streep) e Ben Bradlee (Tom Hanks), do jornal The Washington Post, para a publicação de documentos secretos do Pentágono em 1971, sob a ameaça inclusive de irem para a prisão caso divulgassem as informações. Não faço ideia por quê, mas o tema do embate com o regulador pela liberdade de expressão me alimenta uma simpatia danada.”

Os fenômenos e os comportamentos são mais globais do que o consenso gosta de admitir. Classificam, por exemplo, a polarização e a radicalização como uma particularidade brasileira. Fato é que ambas as coisas estão também presentes no mundo todo. Não há nada de especial na situação brasileira.

Uma hipótese é de que isso decorra da forma com que as pessoas, no mundo todo, hoje buscam e recebem informação. Se antes a imprensa tradicional, com um espaço um pouco mais plural (alguns diriam isento, mas aí eu já discordo), fazia um maior papel, atualmente o Google, o Facebook, a Netflix, o Twitter e o WhatsApp usam algoritmos para nos colocar em contato com coisas previamente alinhadas a nossos próprios interesses. Então, ficamos cada vez mais ensimesmados, reforçando convicções anteriores.

Se você entra num site sobre o Bolsonaro (apenas um exemplo), por mera curiosidade, fica “cookado” e, então, será perseguido virtualmente por anúncios, propagandas e remarketing sobre ele. Em pouco tempo, vai sendo, sem perceber, afastado da exposição a outros assuntos. O pluralismo dá lugar ao reforço num tema em que você já tinha interesse e você acaba empurrado para uma posição um pouco mais extremista.

George Soros estava ontem pedindo mais regulação sobre as empresas de tecnologia. Mas isso é outro assunto. Estou interessado mesmo é na interconexão das coisas globais.

Nós temos sido empurrados por um vento favorável já há algum tempo. Esse elemento forma preço dos ativos brasileiros mais até do que nossas próprias idiossincrasias.

O mundo vive condições sem precedentes de crescimento rápido e sincronizado, baixa inflação, muita liquidez e juro baixo. Agora entra uma nova força motriz importante em jogo, a saber: preços de commodities mais altos, o que sempre foi driver marcante para essas economias.

O cenário supramencionado catapultou os mercados emergentes nos últimos anos. O Brasil se beneficiou disso, claramente. Mas esteve entre as menores apreciações, justamente porque, por muito tempo, esteve enterrado pelos coveiros Dilma Rousseff, Guido Mantega, Nelson Barbosa e Arno Agustin, no cemitério da nova matriz econômica.

Herdou daí um grande problema fiscal, com trajetória explosiva para a dívida pública. De forma simples e direta, se não promovermos uma rápida e profunda reforma fiscal, caminhamos para o calote explícito ou para uma disparada da inflação, que no fundo também é um tipo de calote.

Esse enorme risco fiscal impedia que o Brasil se beneficiasse de forma mais intensa e liderasse o movimento entre os mercados emergentes. Isso acabou na quarta-feira com o julgamento do ex-presidente Lula.

Haverá esperneio, choro e ranger de dentes. O exército das hienas do Tio Scar vai continuar chorando e perseguindo Simba de maneira implacável. Mas o fato é que Lula está morto. Com isso, acertamos a última peça que faltava para garantir o bull market secular que vínhamos projetando desde o fim de 2014.

Ainda que a Bolsa brasileira tenha subido bastante nos últimos anos, estivemos um pouco alijados da euforia global, justamente porque todos temiam a explosão da dívida pública. Todos os demais fundamentos foram ajustados.

A inflação foi domada, não há risco no balanço de pagamentos, temos uma equipe econômica muito competente, o crédito dá os primeiros sinais de que está voltando (e deve acelerar um pouco), a economia volta a crescer, as empresas fizeram seu dever de casa (reduziram custos, despesas e alavancagem), as famílias também enquadraram seus balanços, há muita capacidade ociosa, o mercado de trabalho melhora.

Só falta a questão fiscal, que exige reformas. Mas, em termos práticos, ela acaba de ser resolvida com a morte política de Lula. Sem o petista na disputa, é muito improvável a eleição de um presidente contrário às reformas. Ciro Gomes se mata com 15 minutos de microfone na mão, Marina Silva está mais com cara de vice de alguém e o PT não tem outro candidato viável. O próprio Bolsonaro, que supostamente virou a casaca para o time dos liberais aos 45 do segundo tempo (ao menos em seu discurso), ainda é uma incógnita, mas objetivamente perde espaço sem conseguir antagonizar com Lula.

Ou seja, as chances de um candidato reformista são altíssimas. Então, se montarmos um plano crível para a trajetória da dívida pública, acabou. Está consolidada a perspectiva de sete anos de bull market – começamos em 2015 e vamos até 2022, com chances de estendermos para mais quatro no caso de reeleição (mas daí pensamos lá na frente).

Vai haver sustos no meio do caminho, volatilidade, medo, quedas, sobressaltos. Tudo isso. Mas o prognóstico, já traçado anteriormente aqui e repetido em verso e prosa, agora é muito mais claro, sob muito menor perfil de risco.

Recado prático 1: sei que a alta rápida e pronunciada por vezes assusta e faz coçar a mão. Não venda nada agora. Tenho defendido uma posição grande em Bolsa e exposição a juro longo. Continue com elas. Se ainda não montou, sim, existe tempo. Estamos no começo de um movimento muito maior e um múltiplo do que sugere o consenso. Se você ainda não tem uma boa exposição em renda variável, sugiro que você compre as Melhores Ações da Bolsa.

Aliás, aqui cabe observação importante. Estamos em janeiro e já podemos afirmar: os analistas do sell side, mais uma vez, erraram fragorosamente suas projeções para o ano de 2018. Sob o efeito clássico da ancoragem, estavam todos os modelos (eca!) apontando alguma coisa em torno de 90 mil pontos para o Ibovespa ao final do ano. Já podemos iniciar a contagem regressiva para uma rodada ampla e irrestrita de revisões para cima.

O mais divertido é o que eles vão fazer agora: usar esse mesmo modelo que errou já em janeiro a projeção para o ano para traçar uma nova projeção, sob a justificativa de que os novos acontecimentos ensejam a necessidade de “atualizar” o seu ke (custo do equity) na planilha. Aquela velha e louca ideia de repetir um procedimento esperando resultado diferente.

“Nada preocupa, então, para as posições em Bolsa?”

Há algo, sim, que me preocupa. O estágio (late cycle) do ciclo da economia e dos mercados globais. Já estamos na terceira mais longa expansão da economia dos EUA na história. Os mercados andam em ciclos de boom and bust e seria natural uma correção vigorosa no meio do caminho, arrastando aqui no curto prazo.

Mas como o estrutural doméstico estaria arrumado, essa seria uma oportunidade de entrada fabulosa para os investidores de longo prazo.

Recado prático 2: se você quer dormir mais tranquilo (ou tranquila), pegue metade de seu lucro da quarta-feira e compre puts (opções de venda) de S&P 500, longas e fora do dinheiro. É um bom seguro e está barato agora.

Quando estamos vivendo a História, é difícil termos a dimensão exata da importância de cada momento. Ela está sendo escrita neste instante, bem na nossa frente. Não podemos perder essa oportunidade.

Encerro a exposição inicial de hoje com um comentário de satisfação pessoal. Não porque represente um acerto pessoal. De fato, não é isso. Escrevo as linhas a seguir somente porque elas corroboram um método. Não tem nada a ver com habilidade ou competência. Foi simplesmente a combinação da sorte com a aplicação de uma filosofia muito bem definida. Minha missão aqui é tentar convencê-lo da importância da metodologia. Só isso.

De acordo com o jornal Valor Econômico, o fundo multimercado com maior valorização de suas cotas na quarta-feira foi o CSHG Gauss, com alta de 1,5%.

A Carteira Empiricus, que tocamos aqui como se fosse um fundo multimercado, subiu 1,71%.

Entramos no evento do julgamento do Lula com o discurso explícito e transparente de que não sabíamos o que iria acontecer. Todo o mercado passou o tempo tentando adivinhar qual o resultado. Mesmo os que acertaram não subiram tanto.

De novo, não é mérito. Nem estou aqui competindo com ninguém – tenho plena convicção de que se medissem nossas competências, eu perderia por larga vantagem. O ponto central aqui é a insistência em prol da convexidade. O acontecimento deveria ser prova irrefutável de que, nas palavras de Taleb, “understanding is a poor substitute for convexity”.

Além de uma grande posição em Bolsa e em juro longo, a Carteira Empiricus se beneficiou da explosão com calls fora do dinheiro de Banco do Brasil. Não achávamos que Lula teria uma derrota tão superlativa. Mas sabíamos que, se isso acontecesse, as calls de BBAS iriam se multiplicar.

Não importa a coisa em si. Importa sua exposição a ela. Eu não quero estar certo em Bolsa. Eu quero ganhar dinheiro.

Dando continuidade ao rali da quarta-feira, mercados brasileiros voltam do feriado em São Paulo mostrando alta. Valorização dos ADRs na véspera em NY já indicava abertura positiva.

A percepção de morte política de Lula continua sendo o principal catalisador para o bom humor.

Agenda doméstica traz como destaques hoje arrecadação federal, dados do Caged e de transações correntes. Lá fora, PIB norte-americano atrai atenções, bem como discurso de Donald Trump em Davos.

Ibovespa Futuro sobre 1%, dólar cai 0,3% e juros futuros recuam.