Ricardo Amorim estava certo – foi só uma pequena questão de timing

Hoje temos o julgamento do ex-presidente Lula. O mercado fica tentando elucubrar sobre “os impactos de curto prazo” no Ibovespa. Até onde poderia ir o movimento?

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Ricardo Amorim estava certo – foi só uma pequena questão de timing

A beleza de se fazer previsão é que uma hora você acerta. Se não acertar, ao menos continua tendo uma boa história para contar. “The winter is coming…” Vai repetindo o negócio, até que uma hora chega e você vira gênio – para a fraude intelectual funcionar de maneira mais eficiente, lembre-se de separar suas previsões de sua exposição; alavancar-se naquilo nem pensar.

Eu posso vir aqui e dizer que o dia 19 de fevereiro será muito especial, com uma presença iluminada – “terei meu novo livro pronto”; só falta precisar de qual ano. Bill Bonner, bilionário, escritor, amigo do Taleb e criador dessa brincadeira de newsletters financeiras (ele tem mais assinantes do que o New York Times e o WSJ somados), costuma dizer: “Eu falo a mesma coisa há 40 anos; e estou errado há 40 anos”.

Como diria Niels Bohr, é muito difícil fazer previsões, principalmente sobre o futuro. Ou, ao melhor estilo Pedro Malan, “no Brasil, até o passado é incerto.

Embora o contexto e as motivações fossem outras, eu sempre acho mesmo que até o passado é menos certo do que gostaríamos de acreditar. No Brasil ou em qualquer lugar do mundo. Transcorrida a história, nossa criativa cabeça, sob a influência do viés de retrospectiva, vai criar uma narrativa bastante crível para nos fazer acreditar que só poderia ter acontecido daquele jeito.

Na verdade, porém, a materialização do cenário A em vez do B normalmente se dá por uma linha muito tênue, como resultado de uma força aleatória de última hora. O materialismo histórico não encontra qualquer respaldo empírico.

Há um pequeno problema no mercado financeiro. Uma boa ideia na hora errada é simplesmente uma ideia errada. Ah, claro, sempre haverá a desculpa retórica de que aquele era um homem à frente de seu tempo. O que tem de Leonardo da Vinci circulando pela Faria Lima e pela Ataulfo de Paiva é uma grandeza…

Hoje temos o famigerado julgamento do Lula. Sinceramente, ninguém aguenta mais esse assunto. De um lado, uma torcida fanática querendo ver o ex-presidente preso. De outro, o exército das hienas do tio Scar acusando “antecipação das eleições”. Acho cafona. Só não é mais brega do que o fragilismo de alguns gestores tentando adivinhar qual será o resultado exato do julgamento. Ninguém sabe. Ponto final. Simples assim.

Fica uma masturbação mental tentando elucubrar sobre “os impactos de curto prazo” da decisão do TRF-4. Nada contra – aliás, adoro Billy Idol e seu Dancing with myself. Mas eu mesmo estou preocupado com o movimento de longo prazo.

Podemos – e não estou dizendo que iremos; apenas que podemos – ter nesta quarta-feira uma brutal redução do risco de longo prazo associado a Brasil. Se Lula não estiver na cédula neste ano, é muito improvável a eleição de um candidato não reformista. Ou seja, ainda que possa parecer distante, a decisão de hoje pode (de novo: PODE) ter uma representação muito além da questão estrita. De maneira mais objetiva, ela pode significar, antecipando aqui os desdobramentos futuros, o endereçamento de nosso problema fiscal, que é hoje o único fundamento econômico brasileiro fora do lugar.

“Ah, então devo montar minhas posições logo pela manhã, esperando essa bruta redução do risco?”

Eu acho que não. Na verdade, ao contrário. Esperaria o resultado do julgamento de forma bem leve, subalocado ou com uma bela posição em seguros.

Se vier uma decisão favorável ao ex-presidente Lula, os ativos de risco sofrerão no curto prazo e você terá uma belíssima oportunidade de compra.

Já se vier uma decisão desfavorável, você pode até perder 2/3% de uma pernada inicial. Mas isso será muito pouco perto do que está por vir. Note que as palavras acima foram empregadas com deliberação – “redução do risco de longo prazo.” O horizonte temporal importa aqui. Por construção, o risco de longo prazo importa aos investidores de longo prazo, que são caras mais lentos mesmo, cujas posições são montadas aos poucos.

Se endereçarmos nosso problema fiscal e o cenário externo continuar tão positivo quanto está neste momento, podemos ter uma tendência de alta muito além do que o consenso sugere hoje. Ou seja, pode perder a alta inicial de 2/3%, mas entrar num segundo momento sob muito menos risco e ainda com ótimo potencial de valorização.

Todo mundo fala hoje em 90 mil pontos. Não tem nada mágico aqui. É CDI mais um prêmio de risco. O fragilismo não tem limites. Eu entendo que o movimento pode ser muito maior.

Apenas como referência, sem querer cravar maiores inferências a partir daí, veja como as coisas são curiosas. Todos alardeiam o recorde nominal do Ibovespa agora, mas fato é que precisaríamos subir cerca de 80% para voltar à máxima em dólares, marcada em 2008.

Óbvio que a distância para o recorde não oferece qualquer poder preditivo. É quase só uma curiosidade. Mas ainda mais curioso é o fato de que as bolsas globais acumulam uma alta brutal desde 2009, da qual fomos alijados por conta da barbaridade chamada nova matriz econômica. Desde o início de 2009, o S&P 500 subiu algo como 215%, enquanto o MSCI EM, índice de ações dos mercados emergentes, voou mais de 120%.

O efeito dessa brutal diminuição de risco obviamente iria além da bolsa. Hoje, há um descasamento entre o CDS brasileiro e nosso juro de longo prazo. Talvez seja por conta das particularidades de cada mercado, com um sendo cash e outro non-cash. Talvez decorra das idiossincráticas condições de liquidez global. Ou quem sabe seja somente uma oportunidade de arbitragem. Seja como for, não me parece que o juro longo continuaria tão alto assim se, de fato, tivermos a garantia de um candidato reformista. É óbvio que há risco, mas a porrada aqui pode ser cavalar.

Voltando à Bolsa especificamente, até onde poderia ir o movimento? Luiz Alves disse ao Valor que 100 mil pontos em dólares seriam factíveis. Márcio Appel falou ao InfoMoney que não se surpreenderia se o Ibovespa dobrasse sua pontuação em 12 meses. Eu gosto mesmo é do Ricardo Amorim: 200 mil pontos! Minha mãe é apaixonada por aqueles olhos verdes.

Mercados mostram otimismo enquanto aguardam resultado do julgamento do ex-presidente Lula. Futuros de Wall Street também estão em alta, espraiando clima favorável.

Agenda local é fraca em indicadores econômicos. Nos EUA, temos estoques de petróleo, PMI e dados de moradia.

Ibovespa Futuro registra alta de 0,8%, dólar cai contra o real e juros futuros recuam.