Dr. Jekyll and Mr. Hyde

Dr. Jekyll e Mr. Hyde. O quanto você consegue se "desumanizar"? Só se fala do evento binário diante dos nossos olhos. Na quarta-feira, teremos o julgamento do Lula. Eu mesmo tratei do assunto aqui na última sexta-feira. Retomo a questão porque a coisa mais importante talvez tenha faltado.

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Dr. Jekyll and Mr. Hyde

“O homem é uma mera sociedade de múltiplos habitantes, incongruentes e independentes entre si.”

A frase está no clássico The strange case of dr. Jekyll and mr. Hyde (O médico e o monstro), de Robert Louis Stevenson, tido como um dos maios clássicos de terror psicológico da chamada era vitoriana, ao lado de Drácula e Frankenstein.

Nele, a personagem principal cria uma poção mágica para separar suas personalidades, isolando a parte ruim, que, supostamente, poderia depois desaparecer. Desculpe o spoiler se você não conhece a história, mas as coisas acabam não caminhando conforme o esperado. Mr. Hyde, o lado negro e que deveria permanecer escondido, acaba saindo “vitorioso”.

Convivem aqui dentro o bem e o mal, a agressividade e o comedimento, o ganância e o medo, Dionísio e Apollo, a teimosia e a flexibilidade. Não adianta tentar matar cada um dos lados. Eles estão ai como representação de nós mesmos, que se misturam em forças ambivalentes inseparáveis fisicamente. Nós não existimos sem cada um deles. A arte está em fazer essas coisas conviverem de maneira simultânea, domando nossos próprios demônios.

As tentativas de matar parte de nós mesmos dificilmente terminam bem. “Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício todo”, resumiu Clarice Lispector. Ela tem uma outra bonita para descrever esse monte de coisa que existe dentro da gente: “Sou como você me vê. Posso ser leve como uma brisa ou forte como uma ventania, Depende de quando e como você me vê passar.”

Somos vários dentro de nós mesmos quando decidimos comprar um ativo financeiro. Somos o investidor de longo prazo transformado em trader a partir de uma inquietação momentânea insuperável. Definimo-nos como fundamentalistas convictos até a perda do primeiro suporte importante. Classificamo-nos como absolutamente originais até ouvir uma excelente tese de investimento de um gestor que admiramos. Julgamo-nos tolerantes à volatilidade e convictos no racional até a primeira queda de 20%.

O que define uma performance diferenciada ao longo do tempo? São várias coisas, certamente. Acesso a informação, capacidade de armazenamento, processamento e associação dessa informação, aplicação do instrumental analítico adequado, disponibilidade de capital, sorte, controle de seus vieses cognitivos, aquilo que poderia fazer-lhe desviar da racionalidade pura.

No passado, acessar informação era realmente um grande diferencial. Hoje, talvez seja mais importante saber descartar informação. Há um mundo de dados e notícias disponíveis a custo zero. Depois do Google, todo mundo é inteligente.

Com o desenvolvimento computacional, na era do big data, processar, armazenar e associar informação também não representa uma vantagem competitiva importante.

Também a aplicação do instrumental analítico deixou de ser um edge relevante. Com dois cliques você baixa livros gratuitos de value investing e todos os investidores estão equipados com o kit “Graham/Fisher/Buffett/Munger/Greenwald”.

Bom, sobre a sorte, não há muito o que fazer.

Então, resta a capacidade de controlar os vieses cognitivos. O quanto você consegue se “desumanizar”?

A ideia ganha importância nesta semana. Há um evento binário diante dos nossos olhos. Na quarta-feira, teremos o famigerado julgamento do Lula. Só se fala disso. Eu mesmo tratei do assunto aqui na última sexta-feira. Retomo a questão porque a coisa mais importante talvez tenha faltado.

Vejo uma grande preocupação com o evento. Muita gente boa buscou proteção na semana passada, inclusive empurrando a volatilidade implícita das opções para níveis não vistos há bastante tempo. Também ouvi de gestores competentes o temor de que possivelmente estejamos diante de um evento com proporções semelhantes ao vazamento do áudio Temer-Joesley, na hipótese de absolvição de Lula ou mesmo de um 2×1 pela condenação.

Discordo de tamanha preocupação. Entendo que o evento representa menos risco para o mercado do que essa abordagem mais pessimista sugere – e aqui coloco risco não como volatilidade de curto prazo; isso pode ter mesmo. Emprego a palavra no sentido de perda permanente de capital.

Alguns pontos:

• Diferentemente do caso Joesley, um placar mais favorável para Lula é um risco mapeável. Por mais que não seja considerado o cenário mais provável, ele pode ser listado como fator de risco. Na abordagem ortodoxa de Knight, estamos diante de “risco”, não de “incerteza”. Joesley foi um cisne negro, ou seja, imprevisível. Por definição, costumamos estar muito mais preparados para o que, embora improvável, é visível. Ninguém escorrega na casca de banana identificada à sua frente.

• O julgamento de Lula só representa algo definitivo se for 3×0, sem discordância sobre a pena. Isso o tira do jogo. Qualquer outro desfecho pode até ser ruim para o mercado no curto prazo, mas não significa que Lula está eleito, nem que estará apto a concorrer. Imagine, por exemplo, que há um placar de 2×1 e, duas semanas depois, Antonio Palocci feche sua colaboração premiada. Resumindo, no cenário positivo ao mercado, há algo definido: Lula está fora de combate. No cenário negativo, não significa que Lula está eleito. Em outras palavras, é mais incerteza e volatilidade de curto prazo. Não representa perda permanente de capital.

• O cenário externo é altamente favorável e empurra os ativos de risco para cima. Retome o Friboigate em sua cabeça. O mundo parecia ter acabado ali. Poucos dias depois, tudo voltava à tendência de alta, com a Bolsa renovando recordes históricos. Sobra liquidez no mundo e há uma grande complacência com riscos. Até quando isso vai durar, sinceramente não sei. Ninguém sabe. Mas esse é o cenário hoje.

• O momento do ciclo da economia brasileira é extremamente positivo. Temos muita capacidade ociosa, inflação está sob controle, lucros corporativos devem subir vigorosamente (assim como a geração de caixa, porque não tem capex pra fazer), juros estão na mínima histórica, não há problemas de balanço de pagamentos.

• Não consigo entender a qual “descolamento claro entre o mercado e os fundamentos da economia” Monica de Bolle se refere. Sobre a Bolsa especificamente, P/L está bem próximo à média histórica, marginalmente acima para ser rigoroso, com custo de oportunidade do capital abaixo da média histórica (em que pese a resistência do juro longo em cair) e prognóstico de maior expansão de lucros.

Tenha isso claro desde já para a quarta-feira. Se o mercado resolver “panicar” por conta de uma decisão do TRF-4, seja ela qual for, lembre-se que o Ibovespa sobe 10% em dólar em janeiro. Correções de curto prazo são normais e você não vai conseguir “time the market”, entrando na mínima e saindo na máxima. Se seu lado negro se manifestou em 18 de maio de 2017 e foi capaz de dominá-lo, você pode ter perdido um ano fantástico para seus investimentos.

A coisa mais importante que eu gostaria de lhe sugerir nesta semana: “Hide Mr. Hyde.”

Em uma segunda-feira de agenda fraca, clima de cautela acaba predominando, no aguardo de notícias mais relevantes ao longo da semana. Shutdown do governo americana traz alguma aversão a risco, mas apenas marginal, sem disparar pânico ou coisa parecida.

Por aqui, agenda traz relatório Focus, com elevação das projeções para crescimento de 2018, e balança comercial. Todos querem mesmo é saber do julgamento do Lula.

Nos EUA, além das discussões sobre elevação do teto da dívida, atenção para atividade na região de Chicago e resultados do Netflix.

Empurrado por nova valorização das commodities no exterior, Ibovespa Futuro abre em leve alta de 0,2%. Dólar cai contra o real e juros futuros estão próximos da estabilidade.