Guia prático para o longo prazo, também chamado de próxima quarta-feira

Mesmo sem saber o resultado do julgamento do ex-presidente Lula, acho que o investidor pode melhorar sua matriz de retornos potenciais na Bolsa na próxima quarta-feira, de modo a diminuir os impactos causados por possíveis cenários

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Guia prático para o longo prazo, também chamado de próxima quarta-feira

Este é um texto mais objetivo. Não que os causos, as teorias, as histórias ou as minhas versões delas não tenham, ao final, também seu apelo prático. Sempre têm. Narrativas pessoais ou particulares servem para nos levar por indução ao caso geral e é com ele que me preocupo. Mas hoje vamos mais direto ao ponto. Há um evento binário importante à nossa frente. O almoço primeiro, a ontologia depois.

Eu procurei fumar cigarro Hollywood, que a televisão me diz que é o cigarro do sucesso, imitando o Raul Seixas. Sem êxito, tento uma nova abordagem. Todos querem saber do julgamento do Lula, das implicações da coisa e de como eventualmente se pode ganhar dinheiro com isso. Se todos querem, lá vamos nós.

Alexandre Mastrocinque já falou sobre o tema em sua newsletter de ontem. Não estou aqui para repetir as palavras, tampouco para dizer agora o oposto do que foi dito antes. Tenho a mesma velha opinião formada sobre tudo. Apenas acrescento uma ou duas palavrinhas.

São quatro cenários possíveis basicamente, a saber:

1. Lula é condenado por 3×0 e há unanimidade também sobre a pena. Esse é o pior cenário para o ex-presidente, que encontraria bastante dificuldade para estar na cédula neste ano. Mercado reagiria de forma positiva no curto prazo a esse eventual resultado. Restaria à defesa de Lula apenas embargos de declaração, de rápido julgamento, com a decisão final do TRF-4 podendo ocorrer ainda em fevereiro.
2. Mantemos o 3×0, mas há divergência sobre a pena. Aqui a defesa poderia entrar com embargos infringentes, cujo julgamento é mais lento, com a decisão final vindo possivelmente depois do primeiro trimestre. Dados os preços atuais do mercado, não parece que a resolução, embora ainda mais positiva, seja capaz de influenciar de forma enfática o preço dos ativos.
3. Lula é condenado por 2×1. Neste caso, reação do mercado seria negativa no curto prazo, pois abriria espaço para uma série de embargos infringentes, com a decisão final indo lá para maio e junho, muito perto da eleição. Retiraria visibilidade do processo e adicionaria volatilidade.
4. Lula é absolvido. Aí seria o banho de sangue geral no curto prazo, com alguns meses bem complicados para os ativos de risco brasileiro. Entretanto, parece bem improvável.

Apresentadas as possibilidades, como ganhar dinheiro?

A primeira coisa que eu gostaria de falar sobre isso é, embora o evento, de fato, seja binário para definir os rumos de curto prazo dos ativos brasileiros, ele não é definitivo para trajetórias mais longas. O argumento retrata a mera aplicação da lógica. No limite, Lula pode ser absolvido e perder a eleição no voto. Ou seja, se o problema para os mercados é a eventual eleição do ex-presidente, o julgamento no TRF-4, embora importante, não representa o ponto final da história. É um dos passos do processo.

Tenha isso em mente: a Bolsa pode cair ou subir muito no curtíssimo prazo. Não se deixe abalar por isso. Acima de tudo, desde já, tenha como regra 1: não entre em pânico. Cole esse recado na tela do seu computador. Cole também um outro post it com a regra 2: não esqueça a regra 1.

Um segundo ponto importante é que ninguém sabe qual será exatamente o resultado do julgamento. Não dá para saber. Eu sinceramente acho que ele vai ser condenado. Mas quem não acha? Isso não é uma vantagem competitiva. Há várias outras nuances e imbricações no processo. Mais do que isso, as cotações atuais já refletem muito bem o que seria a melhor expectativa (no sentido de acurácia) para o julgamento. Não há muita assimetria de retornos. O mais provável parece ser de um julgamento desfavorável para Lula, mas isso há está refletido nos preços. O cenário de 2×1, por exemplo, seria negativo para os mercados, mas tem sido considerado menos provável.

Os mercados são irritantemente eficientes. Falo isso no sentido informacional. Para casos como esses, é muito difícil você achar que vai conseguir uma informação melhor do que os outros, ainda não refletida nas cotações.

Aí que entra minha obsessão com a convexidade. Não acho que você possa ganhar dinheiro com o julgamento no sentido de que pode antecipar, melhor do que os outros, qual será o resultado. Se você achar, por exemplo, que vai ser 2×1 e realmente foi, você simplesmente deu sorte. É como falar: “Acho que vai dar cara. Olha aí, deu! Sou um gênio.”

No entanto, mesmo sem saber o resultado, acho que o investidor pode melhorar sua matriz de retornos potenciais. Essa é uma mudança de matriz importante. Não estamos aqui para entender ou adivinhar qual será a decisão do TRF-4. Estamos aqui para propor formas de se expor de maneira inteligente aos diferentes cenários possíveis, condicionados às informações disponíveis hoje. É com esse espírito que as proposições abaixo são apresentadas.

O que eu acho que dá pra fazer?

Se você é um investidor de Bolsa de longo prazo e tolera volatilidade sem problemas (na verdade, o primeiro ponto nem deveria existir sem o segundo – como diria Buffett, se você não aceita ver sua ação caindo 50%, nem compre), não precisa fazer nada. Num gráfico de longo prazo, a decisão da próxima quarta-feira vai representar apenas um fio de cabelo. Se estivermos certos sobre o bull market de anos e anos, o tal dia 24 de janeiro vai ser bem irrelevante, para um lado ou para outro. Fique atento a eventuais oportunidades de compra que uma reação negativa pode criar. Lembre-se de 18 de maio de 2017.

Se você é um investidor com alta exposição em Bolsa (superior a 20% do capital) no momento e se preocupa com flutuações de curto prazo, talvez seja prudente buscar um pouco de seguros e proteções. Veja que o cenário apontado como mais provável tem sido justamente na direção do 3×0. Ou seja, no caso de um resultado mais favorável ao ex-presidente, podemos, sim, ter um belo soluço de curtíssimo prazo. Vimos, por exemplo, investidores institucionais competentes montando put spreads sobre Ibovespa Futuro para o range de 74-75 mil pontos. Talvez você pudesse comprar puts sobre Petrobras, Eletrobras ou Banco do Brasil – problema é que, diante do evento binário à frente, vão lhe cobrar os olhos da cara sobre isso. Então, acho que um hedge barato neste momento é o velho dólar mesmo. Ou opções de dólar fora do dinheiro se você conseguir.

Já se você não tem exposição alguma a Bolsa ou está pouco alocado, primeiro vale um recado mais geral: independentemente do julgamento do Lula, entendo que a condição inicial precisa ser revista. Minha visão é de que estamos numa grande tendência de alta e o cenário é bem favorável à renda variável.

Para um pequeno tiro de curto prazo, porém, e reforço que aqui estou falando para o grupo sem alocação em Bolsa e com uma carteira muito defensiva, pode se montar uma fezinha no combo de estatais, de algo como 5% da carteira, reunindo Eletrobras, Petrobras e Banco do Brasil. Se vier o resultado favorável, elas vão continuar subindo e você terá criado uma necessária exposição à renda variável. Se vier o resultado ruim, elas vão cair e você perderá dinheiro nessa posição. No entanto, dado que o restante da carteira continua conservador, permanecerá vivo e dificilmente arcará com perda permanente do capital, posto que seguimos numa tendência estrutural e de longo prazo positiva.

Acima de tudo, porém, lembre-se: dinheiro não tem ideologia, partido político, carimbo, não gosta de mortadela nem coxinha. Se você for por esse caminho, a única carreira que vai lhe sobrar no mercado financeiro é a de cocaína, a única saída para lhe dar uma injeção de ânimo, mesmo que momentânea, depois de perder um bom dinheiro. Seu posicionamento em Bolsa deve seguir a racionalidade, não a torcida para um lado ou para o outro.

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Metais voltam a ter bom desempenho, dando continuidade ao rali de commodities, embora petróleo faça uma pausa na escalada.

Nos EUA, Câmara dos Representantes aprovou projeto que amplia teto do endividamento. Questão em torno do shutdown do governo norte-americano ainda não foi definida por completo, restando votação no Senado, em meio a muita dúvida, mas houve um passo pelo menos. Aguarda-se confiança do consumidor medida pela Universidade de Michigan para hoje.

Ibovespa Futuro abre em alta de 0,5%, dólar cai ligeiramente contra o real e juros futuros tentam definir tendência.