Memórias do subsolo financeiro

Submersos na lama da política e entorpecidos pelo festival de clichês que se multiplicam feito Gremlins na água, buscamos alguma ideia original.

Compartilhe:
Enviar link para o meu e-mail
Memórias do subsolo financeiro

“E de onde concluíram todos esses sabichões que o homem precisa de não sei que vontade normal, virtuosa? Como foi que imaginaram que ele, obrigatoriamente, precisa de uma vontade sensata, vantajosa? O homem precisa unicamente de uma vontade independente, custe o que custar essa independência e leve aonde levar. Bem, o diabo sabe o que é essa vontade…”

Apelo a Dostoevsky para fazer emergir minhas próprias memórias do subsolo. Submersos na lama da política e entorpecidos pelo festival de clichês que se multiplicam feito Gremlins na água, buscamos alguma ideia original.

Esbarramos no limite do impossível – sim, porque ao limite do possível todos vão – para obedecer ao que é nossa ideia mais íntima. Recorremos aos porões e sujamos nossas mãos com aquilo que é evitado por outrem e, justamente por isso, podemos encontrar diamantes não dilapidados.

O mercado financeiro é o lugar onde prefere-se errar com todo mundo a acertar sozinho. Temos nosso próprio Mineiraço: Efeito Ancoragem 7 x 1 Originalidade. Quando se pensa em algo Original, ele vai logo ser comprado pelos chineses, como se a realidade zombasse de todo mundo provendo evidências empíricas do que são lugares-comuns.

O mercado financeiro brasileiro, em particular, é o lugar onde se responde a um gráfico explosivo da dívida pública comprando……títulos públicos!

A suposta verdade é formada de maneira mais frágil do que parece. Pra mim, ela não passa de um platonismo construído a partir de uma boa retórica, montada por gente muito confiante em si mesma, em sua própria capacidade de antever o futuro, ainda que suas convicções impliquem falta de coerência interna. Temos uma esperança inabalável na nossa capacidade de interpretação e, a partir daí, a verdade já nasce em cor verde.

O gestor X liga para o gestor Y, que fala com o economista do Z, todos preocupados com o mesmo problema, claro. Então, a imprensa repete a versão exaustivamente e pronto: temos o consenso formado em prol de títulos indexados em torno de 2024.

A partir daí, somos servos dessa convicção, somos seres servis. Se você não serve a um determinado senhor, vão tentar empurrá-lo para uma posição marginal. É dura a vida do contrarian. Quando ele erra, é defenestrado publicamente como um louco de posições completamente equivocadas, sem nenhuma capacidade para ser gestor de investimentos. Quando ele acerta, foi um irresponsável sortudo, que submeteu seus clientes a excesso de riscos.

Por vezes, me sinto tão contrarian que me vejo contrariando a mim mesmo. Vejo os senhores feudais do dinheiro tão convictos em seu desprezo por Bolsa que penso: eu só posso estar errado. Quando há gente muito melhor do que você na outra ponta, é sempre bom se beliscar umas 784 vezes.

Penso. Logo, desisto. Sei da minha ignorância e teimosia, mas não há como trair a própria alma. Na aplicação do Paradoxo da tolerância de Karl Popper para o caso, não podemos ser céticos com nosso próprio ceticismo.

Em face à impossibilidade lógica de discordar de si mesmo, lembro que, com raras exceções, os multimercados são excelentes em juro e câmbio, mas talvez lhes falte uma equipe realmente boa de equities – aqui preciso pontuar o mérito da SPX, que possivelmente é o maior expoente de gestora que conseguiu estruturar-se a ponto de também ter equity guys brilhantes.

Desconfiado dos semideuses, eu ainda que acho, se vier um calote da dívida pública, seja ele imediato ou disfarçado (via inflação), é melhor estar em Itaú do que em renda fixa.

Como um homem dos porões e nascido gauche na vida, não vou viver só de Itaú. Podemos ter Itaúsa também.

Brincadeiras à parte, enquanto me seduzia por TRPN3 na semana passada (e lá foram elas subir 16 por cento na sexta), me deparei com fato relevante de Log-In. Claro que ainda há muita dívida e uma série de problemas para resolver, mas recebendo indenização de R$ 60 paus e valendo menos de R$ 100 paus em Bolsa, pode haver uma assimetria muito interessante aqui. Risco altíssimo e nenhuma liquidez. Brincar com fogo (ou com estaleiro) é sempre capcioso. Mas me lembrei fortemente do caso de Mglu no começo do ano passado ao receber essa injeção de liquidez que representa um tantão do market cap.

E se for para estar em renda fixa, talvez seja melhor estar em B50 do que nos mais curtos. Com o tal consenso formado nos vértices mais próximos e o call quase majoritário migrando para Selic na casa de 8 por cento ou até mesmo um pouco aquém disso, o técnico aqui está muito ruim. O corolário mais óbvio da necessidade de se cumprir metas atuarias num contexto de juro a 7 por cento talvez seja o alongamento do duration. A 5,5 por cento de juro real, pode fazer sentido, pois os prêmios estão bem gordinhos ao longo da curva. Este é um caso bem particular em que me sinto atraído por essa Gordelícia.

Eu também me sentia atraído, fique claro: não sexualmente (nada contra, apenas não é o meu time), pelo bigode do Belchior. Ninguém tratou tão bem a crônica de costumes. Boa forma de encerrar: “não me peça que eu lhe faça uma canção como se deve; correta, branca, suave, muito limpa, muito leve; sons, palavras são navalhas e eu não posso cantar como convém, sem querer ferir ninguém. Mas não se preocupe meu amigo, com os horrores que eu lhe digo. Isso é somente uma canção. A vida realmente é diferente. Quer dizer. Ao vivo é muito pior.”

 

Mercados iniciam a segunda-feira estendendo o otimismo da semana passada. Bons indicadores na China estimulam commodities e disposição a risco em geral, com ênfase para emergentes e ações de mineradoras. Em paralelo, relatório Focus voltou a dar ênfase à hipótese de juros menores.

PIB chinês cresceu 6,9 por cento, contra estimativas de 6,8 por cento, enquanto produção industrial voou, subindo 7,6 por cento, bem acima das projeções. Vendas ao varejo também vieram melhores do que o esperado.

Está gostando desse artigo?Insira seu e-mail e comece já a receber nossos conteúdos gratuitos

Por aqui, mediana das projeções do relatório Focus foi reduzida de 8,25 para 8,00 por cento ao final do ano. Ainda há gordura na curva. IGP-10 trouxe deflação de 0,84 por cento, contra projeções de recuo de 0,88 por cento. IPC-S marcou deflação de 0,05 por cento. Volatilidade pode ser um pouco maior na Bolsa por conta de vencimento de opções sobre ações.

Ibovespa Futuro abre em alta de 0,3 por cento, enquanto dólar cai ligeiramente contra o real e juros futuros recuam.

Para quem também gosta de ideias originais, lançamos hoje o Sexo Antifrágil uma abordagem totalmente nova no Brasil e amparada no mais rigoroso método científico para estimular as mulheres a investir mais e melhor. Sugiro fortemente que você conheça. Nossa própria base de leitores e assinantes é muito dominada por homens. Queremos mudar isso. As mulheres podem – e devem – melhorar a forma com que encaram investimentos. Encaminhe para uma amiga, para sua esposa, para uma conhecida. Cada um pode ajudar essa revolução do Sexo Antifrágil.

Conteúdo recomendado