Do Fim do Brasil ao céu de brigadeiro

Normalmente, no mercado brasileiro as maiores multiplicações na renda variável estiveram associadas a uma virada da recessão para maior crescimento econômico, a uma mudança do espectro político em direção a uma agenda liberal e a um cenário externo favorável.

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Do Fim do Brasil ao céu de brigadeiro

Sei que conselhos não servem pra nada. Se sou um desastre para cuidar da minha vida – e eu sou -, como poderia sentir-me no direito de vir aqui propor alguma coisa? Também não gosto de recomendar-lhe o que eu mesmo não consigo fazer pra mim.

Mas, olha, ao melhor estilo “faça o que eu falo, não faça o que eu faço”, venho hoje sugerir para que você tire umas pequenas férias. Nada muito extenso, coisa pouca, só até 2022. Este restinho de 2018 mais outros três aninhos. Você poderia estar roubando, poderia estar matando, poderia estar votando no Lula. Só está pedindo um curto período sabático de quatro anos. Estou certo de que as pessoas no seu trabalho, altamente compreensivas, vão entender.

Antes de sair, monte uma significativa posição em Bolsa. Vamos celebrar os benefícios da inação.

Explico o argumento, antecipando as conclusões.

Com o Ibovespa renovando recordes nominais de forma sucessiva perto dos 80 mil pontos, sobram questionamentos: já seria hora de vender? Não fomos longe demais? Estamos diante de uma bolha especulativa? Não está tudo caro demais?

Não faço ideia do que vai acontecer no curto prazo. Sinceramente, ninguém faz. Talvez lhe soe arrogante, mas entendo que uma de nossas vantagens aqui é justamente saber que não sabemos. Sempre fico na dúvida se assumir a própria ignorância é uma atitude humilde ou pretensiosa.

Seja como for, teremos muita volatilidade no meio do caminho, sustos e, em alguns momentos, a certeza de que tudo vai dar errado.

Mas sustento que estamos diante de uma tendência secular de alta. Se você olhar o histórico de longo prazo do Ibovespa em dólar (ou a partir de qualquer outro indexador; note aqui a noção implícita de que acho inapropriada a avaliação do índice em termos nominais) perceberá longos e grandes ciclos de alta e de baixa. Na média, a duração dessas supertendências é de sete anos. E o mais curioso é que a variância não é muito grande.

Em 2015, entramos no ciclo de alta. A julgar pela tendência histórica, vamos com ele até 2022. Por isso, só lhe resta ficar comprado.

No meio do caminho, porém, você vai ser tentado a sair inúmeras vezes. Mesmo no meio dos maiores bull markets da história, atravessamos correções de até 60%. Então, é importante ficar claro: a caminhada não será linear. Vai ser difícil pra caramba, aliás.

A Folha vai escrever matéria sugerindo a hipótese de bolha quando o movimento está apenas começando, o S&P 500 vai passar por uma correção de dois dígitos e arrastar aqui para baixo em alguma coisa perto de 20%, a possibilidade de eleição de um candidato contra as reformas vai assustar-nos seguidas vezes, o Fed vai elevar o juro mais do que gostaríamos (não se preocupe: a correlação entre o juro nos EUA e a bolsa brasileira é positiva; sim, está escrito certo – a alta do juro global é sinal de aquecimento da economia e maior demanda por commodities), alguma outra coisa negativa que sequer conseguimos imaginar acontecerá e trará a sensação de que o mundo acabou.

Se você ficar muito exposto a tudo isso, terá de ser muito convicto para não realizar lucros ou vender sua posição antes da hora. Uma das tarefas mais complicadas é definir os limites entre a convicção e a teimosia. Nesse caso, não há como escapar à tendência humana, muito bem documentada pelos estudos de Teddy Odean, de cortar os lucros cedo demais. Afastar-se dessas pressões, e por isso a brincadeira com as férias, seria uma espécie de garantia da preservação da serenidade. Sortudos são os portadores de uma reserva individual inabalável para servir-lhes de guardiã da sanidade mental.

O que define os grandes ciclos?

Normalmente, as maiores multiplicações na renda variável brasileira estiveram associadas a uma virada da recessão para maior crescimento econômico, a uma mudança do espectro político em direção a uma agenda liberal e a um cenário externo favorável.

O primeiro elemento já é uma realidade. O segundo tem acontecido no governo Temer e pode ser reforçado com a eleição de um candidato reformista. E o terceiro oferece uma reunião sem precedentes de crescimento global sincronizado, inflação baixa, juros no chão e liquidez colossal, entrando em campo agora um novo elemento formidável para os mercados emergentes, a saber: um novo ciclo de commodities – petróleo já está em seu maior nível em três anos e minério de ferro flerta com a marca de 80 dólares por tonelada.

Pegue, por exemplo, os dois ciclos anteriores. Eles obedecem justamente ao supramencionado, tanto em relação às suas variáveis explicativas quanto em duração. A grande multiplicação de 2002-2008 veio pela perda do medo do Lula, preservação de uma política macro responsável e um dos maiores ciclos de commodities da história. Então, o período 2008-2015 trouxe a inversão de tudo isso, representado imageticamente pela metáfora do Fim do Brasil.

Agora, entramos no ciclo 2015-?. Os mercados são apenas a representação da vida cotidiana. Não há nada de especial neles. Reproduzem a ambivalência típica da natureza humana, alternando manifestações de medo e ganância, Dionísio e Apollo, tanático e erótico, boom and bust. Não lutamos apenas pela simples felicidade. Estamos atrás de euforia, aquela última gota de dopamina levada ao extremo. A seguir, após o exagero da droga, virão a ressaca insuportável e o arrependimento. Mas isso é coisa para lidarmos em 2023.

Mercados brasileiros iniciam a segunda-feira em alta. Variações são modestas, bem como a liquidez é reduzida diante da falta de referência de Wall Street, que fecha por conta de feriado de Martin Luther King.

Commodities, no geral, em alta com mais uma queda do dólar ajudam no bom humor com emergentes. Atividade medida pelo IBC-Br ficou acima das projeções ao subir 0,49%, enquanto economistas atualizam suas projeções para variáveis macro por meio do boletim Focus. Previdência volta à pauta com uma série de discussões no final de semana. Vencimento de opções sobre ações pode adicionar volatilidade na B3.

Ibovespa Futuro abre em alta de 0,3%, dólar cai ligeiramente contra o real e juros futuros recuam.