Robusto ou antifrágil? A pós-história e o decoupling

Meu argumento hoje é de que o cenário internacional em formação pode colocar o mercado brasileiro não somente como robusto. Há espaço para irmos um pouco além, adentrando o terreno da antifragilidade.

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Robusto ou antifrágil? A pós-história e o decoupling

Deus do céu, lá se vão dez anos.

Em março de 2008, a revista “The Economist” publicou “The decoupling debate”, uma investigação sobre a hipótese de os mercados emergentes se descolarem de uma recessão nos EUA. Para alguns, “não faria sentido pensar em tal descasamento na era da globalização”. Para outros, “a queda em termos relativos das exportações de emergentes para os EUA, associada ao desenvolvimento de seus mercados internos de consumo e investimento, poderia permitir uma dinâmica própria para a periferia”.

Uma década depois, perdemos cabelos, parte de nossa alma e a capacidade de indignação. A compulsão a repetição permanece. Repetem-se estereótipos e vivências da infância supostamente remota.

Há algo um tanto surpreendente no comportamento dos mercados brasileiros: temos conseguido atravessar de maneira tranquila pela tempestade recente no exterior. Enquanto as Bolsas norte-americanas perderam mais de 5% na semana passada, o Ibovespa cedeu apenas marginalmente, 0,6%, algo bastante módico, em especial se lembrarmos da boa alta acumulada no ano.

Mais do que as notícias em si, por vezes, a forma com que um ativo ou um mercado reage a essa notícia oferece boas indicações sobre sua força e, por conseguinte, o prognóstico para sua performance futura.

A julgar pelo desempenho das ações brasileiras nas últimas semanas, temos ao menos parte de minha maior preocupação aliviada.

Conforme dito aqui algumas vezes, nutro grande otimismo para a economia brasileira e seus mercados, por conta da melhora dos fundamentos, da perspectiva de eleição de um candidato reformista e da baixa alocação em ativos de risco brasileiro, o que necessariamente precisaria mudar num contexto de Selic na casa dos 6% ao ano.

O que tira meu sono – bom, são vários fatores que tiram meu sono, mas falando especificamente dos mercados – é justamente esse “late cycle” (ciclo muito avançado) das economias desenvolvidas e de suas Bolsas. Se sabemos que os mercados são ciclotímicos e vivem ciclos de “boom and bust” (euforia e depressão), o fato de estarmos subindo lá fora há tanto tempo se coloca naturalmente como ponto de atenção.

A pergunta-corolário surge de maneira espontânea: poderíamos resistir a uma grande correção em Wall Street? Sem maiores elucubrações, a mera observação objetiva do comportamento das últimas semanas indica uma robustez maior do que todos imaginavam da Bolsa brasileira.

Isso nem é análise, opinião ou interpretação. Apenas os fatos, com sua impiedosa frieza.

Meu argumento hoje é de que o cenário internacional em formação pode colocar os mercados brasileiros não somente como robustos. Há espaço para irmos um pouco além, adentrando o terreno da antifragilidade.

Antes de avançar para o racional propriamente dito, preciso expor rapidinho aos três leitores desta newsletter as definições, para o risco de não terem familiaridade com elas. Os versados no talebianismo podem pular os três próximos parágrafos.

O que é frágil? Aquilo que se quebra facilmente a partir do choque.

E qual o antônimo de frágil? Na pressa, as pessoas costumam responder coisas como: forte, resistente, resiliente, duro, rijo e por aí vai. Acontece que não é preciso. Se frágAil é aquilo que se prejudica com o choque, seu antônimo precisa sugerir algo que se beneficia com o choque e não apenas resiste a ele. O antônimo de positivo não é neutro ou zero, é negativo.

Daí vem o neologismo “antifrágil”: aquilo que se beneficia a partir do choque, ou seja, fica melhor depois que leva uma porrada.

Como vejo a discussão sobre a guerra comercial entre EUA e China?

Para mim, isso está inserido no contexto de emergência de uma antítese à tese anteriormente hegemônica da democracia liberal. Desde a queda do muro de Berlim, não tínhamos um sistema para rivalizar com o modelo ocidental de alternância de poder e predominância do mercado sobre o Estado. Daí emergiu o conceito de Fim da História, sintetizado por Francis Fukuyama, para caracterizar a ausência de uma antítese à tese predominante, acabando com o curso dialético das coisas.

Agora, a coisa mudou. Desafiando a crença mais popular entre os analistas de que a China caminharia em direção à democracia conforme avançassem a urbanização, a digitalização e a modernização em geral, o que temos observado é justamente o contrário: o incremento da autocracia e da valorização pessoal de Xi Jinping.

Emergiu a antítese ao modelo da democracia liberal, inaugurando uma nova era, que tenho chamado de Pós-História (uma forma de descrever o que vem depois do Fim da História). Note que a reeleição de Putin é também uma demonstração de espraiamento da autocracia para além da China, com uma influência crescente do presidente russo sobre as ex-repúblicas soviéticas.

Clóvis Rossi, por exemplo, escreveu na “Folha” que “começou a Guerra Fria do século 21”. Para ele, não se trata de uma guerra comercial propriamente dita, mas de um embate político e econômico que pode levar ao surgimento de uma nova potência hegemônica.

Aqui está o cerne da questão e esta segunda-feira aponta justamente nessa direção. Não parece haver espaço para uma guerra comercial propriamente dita. As relações entre os dois países são muito imbricadas e, ao final, alguma racionalidade econômica tende a prevalecer.

Hoje, mercados sobem com força no exterior, sob notícias de que a Casa Branca já negocia com Pequim para alcançar um acordo comercial. Copiando a ideia de Niall Ferguson, falamos aqui na semana passada: Trump usa na presidência dos EUA a mesma tática que pregava em seu livro “The Art of The Deal”; se você quer fechar uma operação, desdenhe do que quer comprar, ameace sair do negócio – assim você conseguirá termos favoráveis para si.

Em síntese, o que me parece haver não é um ferimento muito grande ao comércio mundial que possa levar-nos a uma interrupção do chamado crescimento sincronizado. A avaliação é de que se inicia possivelmente um período de certa tensão geopolítica tácita entre EUA e China, passando também pela Rússia. Essa migração do risco político para o Norte pode fazer com que os mercados emergentes acabem atraindo mais capital, por conta de seus próprios avanços domésticos.

Em termos de riscos políticos, não custa lembrar que há dois anos estávamos sob o governo Dilma e a possibilidade de venezualização do Brasil – agora, a pauta mudou. O papo de bar mudou de Maduro e Foro de São Paulo para a reforma da Previdência. Caiu abruptamente o risco político local, aumento o risco político internacional. Isso precisa ser levado em conta no apreçamento dos ativos e na alocação de recursos global.

Em sendo verdadeiro o raciocínio, o Brasil não somente seria robusto, ele também passaria a se beneficiar do choque internacional.

Encerro lembrando que o início da Guerra Fria original coincidiu com a geração “baby boomers” nos EUA (1946-1964), marcando um período de consolidação de grandes indústrias norte-americanas e formação de um amplo mercado consumidor – além de brilhantismo artístico, com presentes do tipo Beatles, Stones, Dylan, Kerouac. Há uma nova e gigantesca classe de consumidores chegando à economia mundial, agora na China, cujo processo de urbanização, ampliação da classe média (com seus hábitos típicos de consumo), acesso a capital e digitalização deve empurrar o crescimento global e o preço de commodities. Mas isso é papo para uma outra oportunidade. Antecipando as conclusões: o Brasil pode sair melhor dessa.

Mercados iniciam a semana mostrando ganhos, sob exterior mais positivo. Secretário do Tesouro dos EUA se disse esperançoso sobre acordo com China para evitar guerra comercial.

Internamente, destaque para o julgamento pelo TRF-4 de embargos pedidos pela defesa do ex-presidente Lula no caso do tríplex no Guarujá. Agenda econômica traz relatório Focus, com aumento das projeções para PIB e redução nas estimativas de inflação, e nota de crédito do Banco Central.

Ibovespa Futuro abre em alta de 1,2%, dólar cai contra o real e juros futuros cedem.