A morte é antifrágil

Ao ver o lindo corpo seminu de Leda deliciosamente espalhado na relva, Zeus apaixonou-se de imediato. Após alguns instantes de contemplação à distância, decidiu que […]

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A morte é antifrágil

Ao ver o lindo corpo seminu de Leda deliciosamente espalhado na relva, Zeus apaixonou-se de imediato. Após alguns instantes de contemplação à distância, decidiu que precisava agir sobre aquilo. Talvez dentro daquilo. Entorpecido por aquela patologia (de pathos, paixão), foi sugado para mais perto.

Temia assustá-la com sua figura imponente e gloriosa. Não é sempre que você se depara com o deus supremo por aí. Carregado de excitação dos pés à cabeça, sentindo uma ardência transcendental por entre a barriga e a pélvis, transformou-se num cisne para poder se aproximar sem problemas.

Leda avistou o belo cisne à distância, entretida por uma dança linda e sensual. A plumagem bela e afrodisíaca despertava também em si um tesão incomum. A movimentação do corpo do cisne, ziguezagueando numa dança inebriante, emitia sinais irrefreáveis de atração e paixão, prontamente correspondidos. Sob fascínio da estética e de algo além da capacidade de explicação racional, Leda se aproximou e permitiu-se tocar por aquelas penas, acariciando em reciprocidade o longo pescoço.

Dessa relação ardente, nasceu Helena de Troia, a mulher mais bela do mundo. Na infância, ouvia que Jesus se disfarçava de mendigo para testar nossa generosidade. Na vida adulta, entendo que Zeus se disfarça mesmo é de cisne (negro), que é pra surpreender a gente com o que pode acontecer. A beleza enviada por Deus é mesmo surpreendente, parece uma coisa, mas é outra muito melhor.

Eu, por ignorância e desconhecimento, nunca tinha ouvido falar na vereadora Marielle Franco. Sequer sabia o nome. Embora admita aqui publicamente minha pequena relação com os vereadores cariocas, vejo muitos à minha volta partilhando desse mesmo desconhecimento antes de sua morte. Agora, só se fala disso. Há especialistas e fãs da heroína Marielle. Sim, eu também lamento profundamente o ocorrido e, ainda que postumamente, passei a admirar os feitos da vereadora.

Van Gogh é um dos maiores pintores da história, entre as grandes influências da arte ocidental. Morreu pobre, após ter vendido apenas um quadro para um amigo por preço de banana. Kafka, para mim o autor mais claro e preciso de todos os tempos, teve a maior parte de suas obras publicadas depois de sua morte.

Pesquisa recente do Google mostrou que seus melhores colaboradores não eram estudantes da Ivy League, mas jovens que sofreram uma grande perda em suas vidas e foram capazes de transformar essa experiência em crescimento. Essas pessoas seriam mais humildes e abertas a ouvir e aprender.

Do choque da morte, muitos saem mais fortes. Evidentemente, se a morte for sua, você pode até deixar um belo legado e ser reconhecido como um dos grandes gênios da humanidade, mas não conseguirá usufruir daquilo. Por prudência, portanto, talvez seja melhor evitar esse cenário.

Mas se você tiver pequenas mortes no meio do caminho, vai sair melhor lá na frente. A dinâmica do investimento obedece à mesma lógica natural da vida. Tente, erre, aprenda com o erro, mate o que não deu certo e faça algo melhor a seguir.  Imponha a si mesmo um processo de destruição criativa, pois se você promover a disrupção, algo vai impor isso sobre si. Tentativa e erro. Para capturar um grande acerto, você vai precisar tentar um monte por aí. E tentando muito, alguns erros vão aparecer por mera aplicação da estatística.

Num mundo exponencial e, portanto, convexo, também a decisão de investir em ações deve procurar empresas que tentam, erram, erram de novo e, de repente, acertam uma grande tacada que fazem-lhe valer muito mais do que supunham a priori. Depois de um século de Folha, alguém imaginaria que a família Frias apareceria na Forbes por conta do PagSeguro? Claro, agora, a posteriori, todos os gênios imaginariam.

Ao tentar coisas que podem lhe oferecer um retorno exponencial, é claro que nem tudo vai dar certo. Mas basta que uma dê. Várias mortes no meio do caminho levando ao nascimento de uma Helena de Troia, algo cuja beleza pode valer bilhões.

Sem querer tornar o papo muito técnico, porque não é mesmo o objetivo de hoje, entendo que essa nova dinâmica da economia compartilhada, das ExOs, do Big Data, da Inteligência Artificial e da predominância da mudança sobre a continuidade (ou você faz a disrupção ou sofrerá a disrupção) toda a análise de ações precisaria necessariamente mudar. Não cabe mais Fluxo de Caixa Descontado, muito menos valor da perpetuidade – de qual perpetuidade estamos falando? Do negócio atual, que vai morrer em cinco anos? Precisamos migrar imediatamente para um escopo de Opções Reais, para capturar a dinâmica, as opcionalidades e a multiplicidade de alternativas que se colocam. Sei de meus vieses pessoais a favor do tema – fui inclusive professor de Opções Reais por um tempo. Mas não se trata disso. Trata-se de imperiosa necessidade para um mundo em constante mudança e que cada vez mais se afasta da linearidade.

O escopo das Opções Reais permite capturar os diferentes cenários à frente e os retornos convexos que possivelmente podem se formar a partir de projetos e tentativas novas.

Cada vez mais, precisamos privilegiar os praticantes, aqueles que tentam e, no final, capturam um retorno exponencial, em detrimento aos pensamentos lineares e aos teóricos que nunca compraram uma ação na vida.

Como diria Bobby Axelrod: “Muitas pessoas assistem aos filmes do Bruce Lee. A maioria delas não sabe lutar karatê”. Somente a prática e a exposição sucessiva às várias possibilidades assimétricas podem trazer a antifragilidade.

A antifragilidade brasileira pode comprovar-se hoje a partir da eventual morte da liberdade do ex-presidente Lula. Não sei qual será o resultado do julgamento no STF. Sinceramente, acho que ninguém sabe. Prever o voto de Rosa Weber é tarefa para os búzios e o tarô e eu, infelizmente, esqueci meu baralho em casa.

Há muito tempo, falo aqui pelos corredores – e isso nada tem a ver com o noticiário recente – de que meu cenário-base sugere Lula solto e inelegível. Famosa solução macunaímica, bem nosso jeitão. Nesse sentido, a decisão de hoje seria o manifesto antropofágico do STF, 90 anos depois do original. Mas isso é mais um palpite do que propriamente uma conclusão científica.

Não saber não significa não agir. O que penso para os mercados a partir do julgamento?

Primeiro ponto a se considerar é que não altera fundamentalmente o quadro político, qualquer que seja a decisão. Poder ou não ser candidato obedece à Lei da Ficha Limpa e não ao fato de estar em casa ou na cadeia.

Claro que os mais extremistas dirão que a concessão do habeas corpus abriria espaço para discussão posterior sobre a candidatura do ex-presidente. Mas esse ainda é um cenário bem fora do radar, ao menos por enquanto. Claro, no Brasil, tudo é possível, até impeachment com preservação dos poderes políticos. Mas demos às coisas as reais dimensões que elas têm.

Prevalecendo o cenário de maior probabilidade, portanto, a decisão de hoje pode gerar volatilidade e ruído, mas não fere a estrutura da tese do bull market.

O que poderia, de fato, sofrer alguma alteração de cunho mais fundamental seria o juro longo, muito sensível à percepção de risco institucional. A liberação do habeas corpus seria uma cesta de três anotada pela República das Bananas, reforçando a relação clássica identificada por Pérsio Arida, Edmar Bacha e André Lara Resende entre taxas de juro e incerteza jurisdicional.

Resumidamente, portanto, a quarta-feira pode ser muito triste para os brasileiros. Não tende a ser para o bull market. Os cisnes negros não rondam o STF. Dali ninguém espera mais muita coisa.

Mercados iniciam as negociações demonstrando nervosismo, na esteira da escalada das tensões na direção de uma potencial guerra comercial. Donald Trump anunciou novas tarifas, envolvendo 1.300 produtos medicinais, industriais, de tecnologia e de transporte. China retaliou com planos de impor tarifas de 25 por cento em produtos norte-americanos.

Em paralelo, expectativa por decisão do STF sobre o ex-presidente Lula gera alguma cautela.

Ibovespa Futuro abre em queda de 1 por cento, dólar sobe contra o real e juros futuros avançam.