Não tem medida para tudo isto

Odiamos tanto reconhecer perdas que carregamos irracionalmente posições perdedoras, na ideia de que queremos evitar aquele sofrimento de reconhecer o erro.

Não tem medida para tudo isto

Estou desconfiado que Nassim Taleb desentendeu-se com Daniel Kahneman. Eu fico triste. Sabe como é: sou o melhor amigo dos dois – eles só não sabem disso.

Taleb elogiava Kahneman sempre que podia. Citava em seus livros como maior psicólogo vivo, grande gênio. Fez duas conversas públicas memoráveis com ele, uma sobre a crise de 2008 e outra quando do lançamento de seu livro sobre antifragilidade.

Da minha parte, sempre vi uma complementariedade incrível entre eles. O WYSIATI de Daniel Kahneman é, pra mim, a versão psicológica do problema filosófico do cisne negro de Taleb, que é, em última instância, a questão da indução de David Hume e do falseacionismo popperiano.

Considero que se completam mesmo quando discordam. A tal compra sistemática das caudas (“buy the tails”) de Taleb encontra uma discordância de Kahneman: pode até ser vantajoso financeiramente, mas vai lhe causar um dano psicológico brutal. Perder, perder e perder pouquinho, para no final ter um ganho excepcional que mais do que compense os prejuízos não é aquilo que seu cérebro deseja. O argumento pode ser resumido na resposta que Kahneman nos deu aqui na Empiricus: “o peru de Natal pode ter morrido antes que esperava, mas teve uma vida muito feliz.”

Se você não entendeu nada dos dois últimos parágrafos, não tem problema. Fato é que os dois mantinham uma relação bonita, daquelas cujas almas pareciam conversar telepaticamente, uma sintonia que poucas vezes se vê por ai. Deveriam comemorar vários aniversários juntos, felizes para sempre. Intensidade intelectual, moral e, até mesmo parecia, espiritual. Coisa bonita de se ver.

As coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão, diria Drummond. Infelizmente, há indícios de que a relação estressou. Não tenho provas materiais, nem declaração oficial do rompimento.

Taleb já vinha com algumas alfinetadas aos psicológicos, com críticas contumazes à turma do behavioral economics. Chegou inclusive a citar nominal e negativamente Richard Thaler, um dos melhores amigos de Daniel Kahneman. Ai já fiquei de orelha em pé. Ver meus brothers brigando sempre me deixou chateado…

Dai, Nassim chutou o balde em um dos excertos de seu novo livro, disponibilizado na internet para comentários no último dia 25:

“Note: The flaw in psychology papers is to believe that the subject doesn’t take any other tail risks anywhere outside the experiment and will never take tail risks again. The idea of “loss aversion” have not been thought through properly –it is not measurable the way it has been measured (if at all mesasurable). Say you ask a subject how much he would pay to insure a 1% probability of losing $100. You are trying to figure out how much he is “overpaying” for “risk aversion” or something even more stupid, “loss aversion”. But you cannot possibly ignore all the other present and future financial risks he will be taking. You need to figure out other risks in the real world: if he has a car outside that can be scratched, if he has a financial portfolio that can lose money, if he has a bakery that may risk a fine, if he has a child in college who may cost unexpectedly more, if he can be laid off. All these risks add up and the attitude of the subject reflects them all. Ruin is indivisible and invariant to the source of randomness that may cause it.”

Se você não entende ou não tem paciência para ler em inglês, arrisco aqui uma tradução da essência da coisa. Taleb critica a forma com que se mede tradicionalmente a “aversão a perda”, um dos vieses cognitivos fundamentais da Teoria Prospectiva de Kahneman e Tversky.

Para Nassim, precisamos medir aversão a perda considerando uma interdependência de coisas, sua relação com outros elementos além daquela questão estrita. Se você topa pagar por um seguro de carro mais do que seria, em tese, seu valor justo, não é necessariamente porque você é avesso a risco. Isso pode ser simplesmente porque sabe que é um motorista meio malucão, que toma todas a sai tirando racha por ai, ou deixa o automóvel de porta aberta na PUC ali em Perdizes, feito uma presa sangrando diante dos predadores ávidos por roubar aquela caranga.

Taleb tem um ponto. Há de se colocar interdependência, complexidade, endogeneidade no processo para medir mais precisamente aversão ou disposição a risco.

Em contrapartida, no meu humilde entendimento, isso em nada invalida a identificação do problema e o mérito da turma das Finanças Comportamentais. Em muitas situações, você não precisa saber medir exatamente seu viés cognitivo. Seria ótimo saber o quanto somos enviesados. Mas, não sendo possível, apenas saber que somos enviesados (sem saber o tamanho do viés) já é suficiente para nos impedir de cometer uma série de erros.

O caso da aversão a perda é emblemático.

Quando Teddy Odean estudou a conta de 163 mil pessoas físicas em corretoras, ele viu o quanto nós resistimos a vender ações e títulos no prejuízo. Odiamos tanto reconhecer perdas que carregamos irracionalmente posições perdedoras, na ideia de que queremos evitar aquele sofrimento de reconhecer o erro. Seria muito mais acertado vender aquela posição ruim e recuperar numa outra, mais vantajosa.

Veja que do ponto de vista darwinista isso faz todo sentido. Se não odiássemos tanto a dor, o sofrimento, o prejuízo, talvez não tivéssemos chegado até aqui. Passaríamos fome sem problema, aceitaríamos as mordidas dos predadores com facilidade, etc.

Mas, do ponto de vista financeiro e individual, não faz sentido. Você terá uma tendência a não reconhecer prejuízos e ficará com aquela posição ruim por mais tempo do que deveria.

Mesmo que não saiba como medir o tamanho do seu viés, reconheça que ele existe. Escreva sua tese de investimento no papel e guarde-o com carinho. Revisite o papel de tempos em tempos e veja se aquela tese tem sido cumprida ou, se ao contrário, vem sendo desafiada, com uma caminhada muito pior do que se imaginava. Se a realidade desafiar o papel, mande-o para a reciclagem e escreva um novo. As oportunidades estão ai. Não fecha a porta antes da hora.

Se eu gosto mais de Bolsa do que de juro longo, preciso beliscar-me quando a defasagem da NTN-B 2050 sobre o Ibovespa marca recorde histórico – afinal, a Bolsa é, ou deveria ser, um prêmio de risco sobre o juro longo.

Se não gosto de China e vejo ali importantes desequilíbrios estruturais, devo render-me em minhas sugestões short (vendidas) se a economia do país emite sinais sucessivos de estar em melhor forma do que eu imaginava – e lá se foi o PMI Markit exatamente nessa direção na última madrugada; ao marcar 51,6 pontos, ficou bem acima dos 51,1 pontos de julho.

Se acho BRFS3 uma ação ruim, hei de revisitar o caso quando troca-se o CEO que vinha destruindo valor (com o devido respeito, essa é a realidade – falo com dor no coração), reconquista-se market share no mercado doméstico e muda-se o ciclo. O Rodolfo, este sim um irmão inseparável, já vem recomendando as ações há uma semana em seu preciso PRP – deu sorte no timing, foi competente no racional.

Se desconfio das criptomoedas, permito-me ceder se Fidelity, Goldman Sachs e agora grandes bancos globais passam a tratá-las com seriedade. E lá vai o bitcoin rumo a novo recorde…

Em dia de agenda relevante, Ibovespa pode também marcar novo recorde no ano. PIB brasileiro cresceu 0,2 por cento no segundo trimestre, um pouco acima das projeções de consenso. Dados positivos da atividade industrial chinesa também ajudam no bom humor. IPC-S e indicadores da Fenabrava completam agenda doméstica.

Nos EUA, atenção especial para Relatório de Emprego, com 156 mil vagas criadas, abaixo das expectativas. Salários também cresceram menos do que o esperado.

Está gostando desse artigo?Insira seu e-mail e comece já a receber nossos conteúdos gratuitos

Ibovespa Futuro abre em alta de 0,7 por cento, dólar busca tendência contra o real, assim como juros futuros.

Ps.: Acabo de soltar a versão atualizada para setembro da Carteira Empiricus. Com um grande empurrão da sorte (venha sempre!), portfólio recomendado sobe nada menos do que 200 por cento do CDI no ano. Motivo de satisfação e orgulho, mas também de muita responsabilidade. Eu já não durmo tradicionalmente, ainda mais agora. Dá-lhe melatonina.

PPS.: Se você gosta do investimento em imóveis, precisa entrar em contato com a brilhante carteira montada pelo Daniel Malheiros, que fez um trabalho espetacular na cobertura do setor. Vale muito a pena.

Conteúdo relacionado