Nem todos os cisnes são negros

Precisamos ir além do óbvio. Eu não acho que uma empresa de publicações de ideias de investimento possa sobreviver repetindo esses lugares-comuns. Isso você encontra aos montes por aí, de forma gratuita.

Nem todos os cisnes são negros

Descobri que tínhamos quebrado numa macarronada de domingo. Ao retirar o excesso de molho do canto dos lábios, o guardanapo se desfez por completo e meus próprios dedos, entrando pelos vãos deixados pelos rasgos, assumiram a coloração vermelha.

“Mãe, este guardanapo é muito ruim. Por que você mudou de marca?”
“Filho, foi o que deu para comprar neste mês.”

Mamãe, que tentava disfarçar o choro ao me dar explicações, nunca gostou de Bolsa. Ela tinha raiva daquilo, machucada pela montanha-russa patrimonial, emocional e até mesmo hormonal do papai. Aprendemos pela via mais difícil as mazelas de um trader alavancado e concentrado. Se você tem isso na sua família, saiba que ao menos uma vez vocês vão quebrar. Nós, que curiosamente sempre fomos os melhores alunos da classe, ali parecíamos resistir a aprender. Fizemos e refizemos o curso, passando por recuperação, reforço escolar e repetência. Vivemos o fica rico, fica pobre com intensidade e frequência.

Dona Lúcia fugia de qualquer assunto ligado às ações. Não poderia ser diferente, claro. Impossível suportar a tristeza imposta pela impiedosa marcação a mercado, com desdobramentos claros para a relação do casal. Se o dinheiro não entra pela porta, o amor voa pela janela.

Mesmo ela, porém, podia repetir fatos estilizados e clichês financeiros, travestidos de autoajuda pseudointeligente: “Compre empresas boas, líderes de mercado, com managements competentes”.

 

Precisamos ir além do óbvio. Eu não acho que uma empresa de publicações de ideias de investimento possa sobreviver repetindo esses lugares-comuns. Isso você encontra aos montes por aí, de forma gratuita. Depois do Google, todo mundo é inteligente. Com 30 segundos de pesquisa, você encontra coisa melhor.

Até minha mãe pode lhe fornecer recomendações dessa natureza. Estão aí de graça para você: Itaú, Bradesco, B3, Cielo, Raia Drogasil, Lojas Renner, Localiza, Hypermarcas, Fleury, Ultrapar, WEG, Equatorial, CVC. Não há muito mais opções no Brasil, essa é a verdade. Embora todos critiquem a baixa penetração da renda variável por aqui (sim, o problema de demanda é real), o fato é que a oferta também não ajuda muito.

Sempre tive um problema com as obviedades. Pra mim, evidências é coisa de Chitãozinho e Xororó. Ora, se a opinião mais mediana aponta para comprarmos essa estratégia, o retorno de sua aplicação só pode ser mediano. É uma tautologia. Opiniões de consenso vão lhe entregar retornos de consenso.

Desde cedo, muito antes de conhecer formalmente os ensinamentos de Nassim Taleb e sua aplicação na Empirica, que obviamente veio a influenciar a Empiricus, insisto nas ideias “fat tails”, aquelas muito distantes da média, tidas como improváveis e com impactos pronunciados sobre os ativos. Fiquei com certo bode no dia 18 de maio porque os tais cisnes negros viraram obviedade. Depois do áudio do Joesley, passamos a ouvir por todos os lados a expressão “black swan”. Tudo virou cisne negro.

O problema disso é que começam a surgir abordagens superficiais sobre o tema, como reportagens perguntando “qual o próximo cisne negro?” (por definição, esses são eventos imprevisíveis e, logo, impensáveis ex-ante) ou gestor famoso explicando no jornal se tratarem de eventos raros, de alto impacto, “presentes nas caudas das distribuições gaussianas”, ignorando algo essencial sobre a questão, que as séries financeiras não seguem distribuições gaussianas – sua representação costuma ser melhor descrita por distribuições de Cauchy, Levy, leis de potência e por aí vai.

A profundidade da questão é maior do que pode se supor a priori. No Brasil, quem melhor entendeu, do ponto de vista estruturado e formal a questão dos cisnes negros, me parece ser Fábio Okumura, gestor da Gauss, muito embora, ao que tudo indica, o fundo Verde tenha ao longo da história aplicado, talvez até intuitivamente, sem a configuração racional estruturada da técnica, várias vezes a mesma abordagem brilhantemente, conforme podemos conferir na bela dissertação de Marcelo Stuhlberger sobre o comportamento dos fundos de investimento no Brasil.

A nuance sobre a previsibilidade ou não dos eventos raros e de alto impacto gera divergências inclusive entre Nassim Taleb e seu ex-sócio Mark Spitznagel (eles fundaram a Empirica juntos). Para o primeiro, os grandes movimentos de mercado, aquilo que define quase integralmente os processos de construção e destruição de patrimônio, estão associados a eventos imprevisíveis. Você nunca pode antecipar um cisne negro. Não há nada a se fazer. Não existe indicador, tendência, macro, micro, búzios, tarô, macumba… nada pode sugerir quando teremos um problema.

Mark Spitznagel pensa diferente. Embora reconheça a importância dos cisnes negros, entende que as correções pronunciadas de mercado, com efeito permanente sobre o capital, decorrem de um elemento que pode, sim, ser detectado ex-ante. Ele chama seu indicador de MS Indices, em referência a Ludwig Von Mises, possivelmente o primeiro a capturar a distorção e formalizá-la. Daí emerge o que Spitznagel chama de Austrian Investing, em referência óbvia à escola austríaca de investimentos.

Para ele, em todas as situações em que os formuladores de política econômica atuarem nos mercados, eles vão retirar ou, ao menos, amenizar os feedbacks naturais associados às forças naturais típicas de oferta e demanda, impedindo que o sistema se autorregule. Essas distorções, cedo ou tarde, acabam corrigidas e o final não costuma ser feliz.

Seus estudos apontam que todas as grandes correções das Bolsas norte-americanas, com efeitos permanentes sobre o capital, estiveram associadas a distorções causadas por excesso de incentivos monetários, que empurraram os investidores para posições muito arriscadas e os preços dos ativos a níveis além do razoável, no que tradicionalmente se classifica como “bolha”, seguida de um grande estouro. Você pode encontrar o desenvolvimento integral do argumento no artigo “The Austrians and the Swan: birds of a differrent feather”, disponível aqui: http://universa.net/UniversaSpitznagel_research_201205.pdf 

Note que a diferença entre as perspectivas não se trata de uma discussão diletante sem apelo prático. A partir das sutis diferenças entre suas visões de mundo, Taleb e Spitznagel têm recomendações diferentes para seus portfólios.

Nassim defende a adoção daquilo que chamou de Barbell Strategy. Para se proteger dos cisnes negros, sempre imprevisíveis, não há alternativa além de manter sempre – e também sempre – a maior parte de seu dinheiro (de 70 a 95 por cento, a depender do gosto do freguês, ou seja, de sua disposição a risco) em investimentos ultrasseguros; então, pode separar uma pequena quantia da grana e aplicá-la em ativos de muuuuuuito risco, com a contrapartida clara de um elevadíssimo retorno potencial – a ideia é diversificar ao máximo o dinheiro aplicado em vários ativos de risco, pois um grande acerto (alta de 1.000 por exemplo) pode compensar vários pequenos erros, sem alavancagem (perda máxima de 100 por cento por ativo), no que ele sintetiza como estratégia 1/N, com N tendendo ao infinito (muito grande; muitos ativos em carteira).

Mark resume sua abordagem no chamado Paradoxo do Maior Retorno com o Menor Risco, em que ele ataca frontalmente as canônicas Finanças Modernas, que apresentam um trade off clássico entre risco e retorno. Para ele, você pode, sim, ter uma fatia grande de seu patrimônio alocada em ativos de risco, contanto que a compense com uma pequena fatia em seguros catástrofe, normalmente puts (opções de venda) bem fora do dinheiro.

Quem eu prefiro? Sinceramente, não sei. Não tenho preconceitos. Sou um liberal convicto, na economia e nos aspectos sociais. Gosto dos dois e não consigo eleger um vencedor aqui. Uma coisa tenho certeza: nenhum deles repete clichês ou está domado a um mainstream pasteurizado que prefere errar com a maioria do que acertar sozinho.

Enquanto seguimos em busca da batida perfeita, ou seja, do melhor método para construção de seu patrimônio, mercados se entretêm com questões mais (ou menos, sei lá) frívolas. Investidores voltam a conviver com uma elevação, na margem, da temperatura política a partir da prisão de Geddel Vieira Lima, após algum alívio nos dias anteriores.

Possibilidade de adiamento na votação da reforma trabalhista para a semana que vem no plenário, diante de discussão sobre extensão do imposto sindical, também não é bem vista.

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Do exterior, chegam notícias díspares. Futuros e bolsas tentam se segurar em alta com destaque para setor financeiro, mas commodities pesam do outro lado. Petróleo recua depois de oito altas ininterruptas. Feriado de Independência fecha as bolsas norte-americanas e retira liquidez dos mercados.

Internamente, IPC-Fipe apontou ligeira inflação de 0,05 por cento, em linha com projeções, produção industrial cresceu um pouco mais do que o esperado (0,8 por cento contra 0,6 por cento) e Petrobras anunciou aumento dos combustíveis, elevando a frequência de revisões.

Ibovespa Futuro registra leve baixa de 0,2 por cento, dólar sobe ligeiramente contra o real e juros futuros sobem.

Acho que nunca encontraremos a batida realmente perfeita. Histórias de maximização, otimização, etc. pertencem às platônicas Finanças Modernas. A perfeição está além das nossas possibilidades. Erramos, erramos e erramos. Mas sabemos que podemos ter chances bem maiores do que a média a partir de uma equipe de 32 intelectual navy seals, pensando 24×7 na melhor forma de você ganhar dinheiro. Você pode conferir boa parte desta dedicação no mais novo projeto e tornar-se também um de nós. O Programa INS começa hoje.

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