O Bitcoin e a Pós-História

Será que estamos hoje como a civilização inca à espera dos espanhóis, sendo gentis e até mesmo estimulando nossos próprios carrascos de amanhã?

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O Bitcoin e a Pós-História

Será que estamos hoje como a civilização inca à espera dos espanhóis, sendo gentis e até mesmo estimulando nossos próprios carrascos de amanhã?

Essa foi a pergunta do gênio da diplomacia Henry Kissinger, em artigo publicado em junho na revista “The Atlantic”. Segundo ele, os humanos não estão preparados para lidar com o real desenvolvimento da inteligência artificial. Sem o devido cuidado, a raça humana pode, em pouco tempo, ser simplesmente varrida do universo pela sofisticação dos robôs.

Confesso não ter lido o texto à época. Acabei no artigo quase por serendipity (desculpe o anglicismo, mas não dá para escrever “serendipidade” e eu desconheço termo em português capaz de transmitir a mesma ideia), enquanto lia “Lunch with the FT” (Um almoço com o Financial Times), justamente com Kissinger, publicada em julho.

Para mim, essa última é leitura obrigatória. Comentários ferinos sintetizando o cenário político e econômico internacional.

Destaco dois trechos:

“Eu acho que Trump pode ser uma daquelas figuras da História que aparecem de tempos em tempos e marcam o fim de uma era.”

“Um eminente germânico me disse recentemente que ele sempre colocou alguma tendência com os EUA para se afastar um pouco da América e dar maior importância relativa à Europa, mas agora ele tem mais medo de um mundo sem os EUA.” Segundo ele, a alternativa seria perigosa ao aproximar ainda mais a Europa da Ásia e da influência chinesa.

A preocupação de Kissinger guarda paralelos com aquilo que Marcos Troyjo havia chamado na Folha de “o fim do fim da História” — eu rebatizei de “Pós-história”, porque acho mais simples e eufônico, além de ser a única coisa que pode vir depois do “fim da história”, cronologicamente falando.

A emergência e a quase eternização no poder de líderes como Xi Jinping (China), Vladimir Putin (Rússia), Bashar al-Assad (Síria), Recep Erdogan (Turquia), Nursultan Nazarbayev (Cazaquistão) e outros por aí significariam o fim da hegemonia incontestável dos valores ocidentais sintetizados na chama democracia liberal.

Desde a queda do muro de Berlim, convivíamos com a ausência de antítese à tese da globalização, do livre comércio, do livre trânsito de pessoas, da defesa da democracia representativa, da desregulamentação, da desmilitarização, etc.

Parecia haver uma espécie de consenso totalmente consolidado em torno desses valores, o que feria o anterior curso típico da História entendido como um processo dialético de tese confrontada com antítese, para posterior formação de uma síntese, que viraria tese no período seguinte, a ser confrontada com uma nova antítese e por aí vai. Assim surgiu a expressão “o fim da História”, cunhada por Francis Fukuyama.

A tal guerra comercial de que tanto se fala hoje, ainda que mais se fale do que se faça na prática, é, em última instância, a transposição da ideia teórica do Pós-História para o plano concreto e material.

Estamos levantando as barreiras comerciais, elegendo líderes com características antidemocráticas ou, ao menos, flertes com esses traços (o fenômeno Bolsonaro não é apenas resultado de nossas próprias mazelas locais, mas fruto de um contexto global que favorece figuras dessa natureza, tendo, portanto, uma onda muito favorável para surfar e poder efetivamente se eleger), dificultando o livre trânsito de pessoas (“build the wall” e críticas aos refugiados na Europa), recuperando uma postura belicosa e armamentista (Coreia do Norte, Crimeia, Síria, Irã, etc.) e valorizando o nacionalismo em detrimento a organizações e instituições supranacionais.

Se 2017 foi o ano das criptomoedas, conforme sintetizou (com o brilhantismo costumeiro) a carta de dezembro da SPX, é no mínimo curioso que 2018 marque o início do Pós-História.

Se parar para pensar, ao menos em alguma instância, o bitcoin caminha na contramão da Pós-História, pois pressupõe justamente liberdade transacional, descentralização e universalização dos meios de pagamento (moeda potencialmente global em vez de nacional).

Um vai matar o outro. A retomada dos valores nacionais e o retrocesso da globalização podem frear o ímpeto com as criptomoedas. Ou talvez seja justamente o contrário: as moedas digitais serem a resposta orgânica para a recomposição dos valores por trás da democracia liberal.

Resta saber quem é o assassino. Na dúvida, tenho aqui meus bitcoins e meu dólar — aliás, o que algumas pessoas esquecem é que comprar bitcoin já configura uma exposição em dólar.

Como um grande defensor da gestão passiva, fiquei triste com nova frustração da ideia dos irmãos Winklevoss de lançar um ETF de cripto. Enquanto o retrocesso nas liberdades individuais dificulta assumirmos por aí nossa postura passiva, podemos ser ativos e comprar esta excelente oportunidade identificada pelo talento excepcional de André Araújo e Vinícius Bazan — minha primeira previsão na história da Empiricus está aqui: em cinco anos, esses dois caras, que já são incríveis hoje, serão, sem nenhum par sequer comparável, as duas maiores autoridades de moeda digital no Brasil. Pode anotar.

Sobre a oportunidade em si, adianto o alerta: não é para colocar parte expressiva de seu patrimônio aqui. O risco é alto, deixo claro. Mas o potencial de valorização é para multiplicar por 20 vezes.

Dois recados rápidos antes das frivolidades cotidianas:

• Lê-se por aí sobre o início dos debates com presidenciáveis hoje na TV Bandeirantes. A temporada já começou ontem aqui no vizinho. Não fui porque realmente precisava ficar acordado e trabalhar. Quem compareceu ao BTG confirmou que fiz a escolha certa. Deu sono. Nenhuma novidade. Com suas doideiras, frases bem colocadas e pensamento rápido, Ciro arrancou risadas dos banqueiros. Realmente, seu entusiasmo é contagiante. O resto dele é para rir mesmo.

• Vale ler sobre Gafisa e GWI hoje no “Valor”. Ao que me parece, plano da gestora seria assumir a companhia para a posterior liquidação e fechamento de capital. Se você lembrar, é a mesma historinha da Vinci com a PDG. Não dá certo. Planilha e teoria aceita tudo. A narrativa do desconto sobre o liquidation value cai bem, mas é inviável na prática — como lidar com estoque, distrato e obra em andamento? Não rola.

Depois de três dias mais difíceis, mercados brasileiros tentam alguma recuperação hoje, com sucesso apenas parcial. Sem novos drivers do horizonte, investidores procuram alternativas que teriam ficado baratas depois da temporada de vendas da semana, enquanto aguardam resultados e indicadores lá fora.

Grande expectativa é por inflação ao produtor nos EUA. Também por lá saem pedidos de auxílio-desemprego e estoques no atacado. Por aqui, temos IPC-Fipe, safra agrícola e dados regionais de produção industrial.

Ibovespa Futuro sobe 0,3%, dólar e juros futuros estão perto do zero a zero.