O tema da vitória: nunca baixe a guarda

If you stop growing, you die (se você para de crescer, você morre)

O tema da vitória: nunca baixe a guarda

Talvez eu seja mesmo algo parecido com o saudosista personagem de Meia-noite em Paris, do Woody Allen. Não acho que o passado seja sempre melhor, mas tenho cá certas saudades. Nosso ídolo era o Ayrton. Hoje, vamos de Anitta ou Popozuda. Meus heróis morreram de overdose, ou de acidente de carro em Ímola. Choramos litros naquele 1º de maio de 1994.

Nada era mais emocionante lá em casa do que assistir às corridas de Fórmula 1 aos domingos, ansiosos e aflitos pelo tema da vitória ao final. Eu via automobilismo deitado no colo do meu pai, que se orgulhava por uma vez termos recebido um aceno, com o polegar direito levantado, do Senna enquanto passávamos pelos boxes em Interlagos.

Uma corrida especial era lembrada com frequência na nossa família. GP de Mônaco, 15 de maio de 1988. Senna dominava a prova com ampla vantagem. Na verdade, o show particular já vinha desde os treinos de sábado, quando Ayrton fez a pole position com uma vantagem de 1,24 segundo sobre o segundo colocado, o arquirrival Alain Prost. No domingo, Senna liderava a corrida com larga folga. Eram 50 segundos de vantagem sobre Gerard Berger, então o segundo colocado. Mas Prost vinha em terceiro, voando baixo. Ele logo ultrapassou Berger e começou a fazer volta mais rápida atrás de volta mais rápida. Ainda não representava qualquer ameaça material a Senna, líder à frente por dezenas de segundos. Mas Ayrton não poderia admitir aquilo. Ele faria a volta mais rápida em Mônaco, um símbolo do automobilismo. Então, veio a ordem dos boxes: “você está muito rápido, Ayrton, correndo riscos desnecessários. Sua vantagem é muito grande. Pode aliviar o ritmo.”

Aquilo não combinava com um verdadeiro herói, um obstinado, aquele que tem a competição como algo natural, um esportista obsessivo e por vocação. Distraído por aquela sensação de vitória ganha, Senna perdeu a concentração e passou reto na Portier, uma curva à direita próxima à entrada do clássico túnel de Monte Carlo.

(Peço desculpas aos fãs mais apaixonados por Fórmula 1 por eventuais imprecisões, que possivelmente cometi como leigo. Na essência, porém, para os fins aqui pretendidos, a coisa está preservada)

If you stop growing, you die (se você para de crescer, você morre), nos ensina Phil Knight, o fundador da Nike, em A Marca da Vitória.

Por que eu conto isso neste momento?

Ontem, o Ibovespa bateu 75 mil pontos. Os juros futuros estão num mínimo local. Provavelmente, se você topou incrementar sua posição em ativos de risco neste ano (e eu desejo fortemente que o tenha feito), está ganhando bastante dinheiro, num intervalo de tempo muito curto.

Daí emergem grandes tentações. O gosto da vitória é doce, mas também traiçoeiro. Seus sucessos vão esconder seus erros. Isso não significa que eles não tenham ocorrido. O cenário apenas se materializou de um determinado jeito e acabou sendo positivo. Entretanto, poderia ter sido bastante diferente. Não há materialismo histórico algum. A história narra apenas o que foi, não o que poderia ter sido.

Há uma tendência enorme a sermos complacentes quando as coisas estão indo bem. Depois de uma sequência longa e ininterrupta de knockouts, Anderson Silva baixou a guarda em excesso, achou-se Muhhamad Ali. Bastou um momento de distração para ser alvejado com um chute na cabeça destruidor de Chris Weidman para desabar apagado.

Riobaldo, de Grande Sertão: Veredas e meu personagem literário favorito (com marginal vantagem sobre Fat Tony) é muito sábio: deus faz é na lei do mansinho, mas o diabo é às brutas. Toda sua escalada patrimonial pode ser subitamente destruída se for complacente demais com riscos. O 18 de maio de 2017 é apenas um exemplo. Esse dia deveria se tornar feriado nacional. Vamos celebrá-lo todos os anos, para que não esqueçamos daquilo. Nosso museu do holocausto.

O viés cognitivo de excesso de confiança (overconfidence) já é uma tendência humana estrutural. Somos piores do que achamos que somos. O problema ganha contornos mais marcantes quando estamos por cima. Mas não há heróis neste mercado, nem mesmo gênios. Ou talvez todos sejam gênios. Seja uma coisa ou outra, não faz diferença, pois se todo mundo é competente ou incompetente não há vantagens relativas, aquilo que se precisaria ter para ser consistentemente acima da média.

“O que você acha da Bolsa após o atingimento de novo recorde histórico?”

Eu não faço ideia, pra ser sincero. Todo mundo chuta. Essa é a verdade. Mas, se tivesse com uma arma na cabeça e tivesse que dar o meu chute direcionado, diria: acho que continua subindo, de forma errática, não linear, não gaussiana e em saltos, estendendo aquilo que tenho chamado de bull market estrutural.

“Então, vamos comprar mais ações?”

Não. Ao contrário, deveríamos vender algumas ações agora, por uma questão de balanceamento e diversificação do portfólio.

Se você é uma das três pessoas que seguiram minha sugestão de ter cerca de 30 por cento de sua carteira em Bolsa neste ano (eu e minha mãe já compomos uma dupla dentro desse seleto grupo), viu essa fatia de seu portfólio, supondo também ter seguido as recomendações de ações que proponho na Carteira Empiricus, subir aproximadamente 35 por cento em 2017, muito mais do que as demais classes de ativos. Logo, o tanto que você tem de ações hoje, caso não tenha vendido nada, por mera aplicação algébrica, é muito mais do que 30 por cento do seu portfólio.

Ademais, além de rebalancear a carteira, o momento abre espaço para a compra de alguns seguros. Quando ninguém acha que pode dar alguma cagada, daí que a diarréia te pega no pior momento. Mais do que isso, os preços do papel higiênico, diante da despreocupação e consequente baixa demanda, estão baixos. Você pode acumulá-los mais baratos.

É exatamente isso que estou propondo hoje na Carteira. Ela está voando neste mês e também no ano, com alta de mais de 200 por cento do CDI. É realmente impressionante. Olhando para o desempenho, nem eu mesmo sei como chegamos até aqui. Na verdade, sei. Sendo totalmente honesto, não é mérito pessoal algum. É a aleatoriedade atuando em nosso favor. Embora estivéssemos muito mais otimistas do que a média dos analistas e gestores, não imaginávamos a magnitude das valorizações. Desculpe, mas não é mérito próprio. É só um bull market. A materialização de um cenário, entre bilhões de outros possíveis que infelizmente não podemos enxergar, alinhado ao que esperávamos, mas com muito mais intensidade do que podíamos elucubrar.

Mantenho otimismo para frente e a Carteira posicionada para capturar ganhos adicionais do reapreçamento positivo dos ativos de risco. Mas “queimo” um pouco dos ganhos para comprar seguros.

Talvez você ache que estamos torrando dinheiro. Gastamos desnecessariamente com seguros que não têm sido acionados. É a mais pura verdade. Estaríamos subindo ainda mais se não os tivéssemos comprado – acho que gastei 2 a 3 por cento do portfólio neste ano comprando puts fora do dinheiro. Mas foi somente por essa proteção na Carteira que pudemos ter tantas ações e tanto juro longo.

Você só topa entrar na água sem saber nadar direito se estiver usando um colete salva-vidas. Não importa se você acha que consegue nadar. O rio não liga para as suas opiniões. Você apenas entra na água com proteção. Queda do minério de ferro em Dailan gera alguma pressão sobre mineradoras.

Mercados iniciam a quarta-feira fazendo uma pausa no bom humor recente, sob aumento da temperatura política. Investidores aguardam possivelmente para hoje nova denúncia de Rodrigo Janot contra Michel Temer. Ainda há desconfiança com eventual delação de Geddel Vieira Lima e Lúcio Funaro.

Na agenda, temos possibilidade de votação de novo Refis na Câmara, IPC-Fipe abaixo do esperado e fluxo cambial semanal. Prisão de Wesley Batista é novidade na novela J&F.

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Nos EUA, saem relatório mensal da AIE, estoques de petróleo e preços ao produtor. Na Europa, há produção industrial da Zona do Euro e preços ao consumidor na Alemanha.

Ibovespa Futuro abre em baixa de 0,4 por cento, dólar sobe ligeiramente contra o real e juros futuros caem depois de, na parte longa, passarem por ajuste na véspera.

PS.: Fique ligado na recomendação explosiva de Max Bohm no Microcap Alert, saindo do forno.

PPS.: Veja o recado que Rodolfo preparou especialmente pra você em seu novo projeto.

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