O trio MSN, versão brasileira, Herbert Richers

Uma nova porrada agora representaria o rompimento do tratamento feito a doses homeopáticas de sofrimento. A tragédia mesmo é um terror sem fim - ou Lula voltando em 2018, mas trataremos de 2018 na hora certa, em um novo texto.

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O trio MSN, versão brasileira, Herbert Richers

“Eu tenho sentimentos ambíguos ao receber o prêmio Nobel de literatura. Por um lado, estou lisonjeado. Muito lisonjeado. Mas, por outro lado, e esse infelizmente é o sentimento que prevalece em mim, estou convencido de que este tipo de reconhecimento unânime está relacionado de forma direta e inequívoca com o declínio de um artista. Este prêmio revela que meu trabalho coincide com os gostos e as necessidades do juri de especialistas, de acadêmicos e….reis. Evidentemente, eu sou um artista mais conveniente para vocês hoje. E essa conveniência contrasta com o espírito da arte. O artista tem que questionar, perturbar, provocar. Dai o meu pesar pela canonização final como artista. A paixão mais persistente – o orgulho, o mero orgulho – me leva hipocritamente a agradecer, nesta declaração pelo fim da minha aventura criativa. Mas, por favor, não pensem que a culpa é de vocês. Não é isso. Absolutamente. Aqui há apenas um responsável. E essa pessoa sou eu. Muito obrigado.””

Isso é Daniel Mantovani, argentino da pacata e minúscula cidade de Salas, vencedor do prêmio Nobel de literatura.

Ah, sim, é ficção. Apenas uma personagem do brilhante filme O Cidadão Ilustre. É também uma boa forma de encerrar a semana marcada pela formalização de uma nova fase da Empiricus. Nós nos institucionalizamos, é verdade. Algumas coisas que fizemos antes não serão feitas mais. O espírito, porém, ninguém vai conseguir quebrar.

Agora rola o papo de que as agências de classificação de risco podem rebaixar o Brasil diante da falta de avanço das reformas. A Fitch – e isso é apenas um exemplo, pois elas basicamente compõem uma espécie de samba de uma nota só – afirmou que o ambiente político é muito desafiador, a agenda de reformas está parada (sobretudo a previdenciária) e o ajuste fiscal está comprometido.

Eu agradeço fortemente, claro. Comentários indispensáveis. Certamente, ninguém tinha a menor noção sobre cada uma dessas coisas.

Onde está a novidade? Ler as agências de classificação de risco é como ir à remontagem de Roque Santeiro. Vale a pena re-re-rever de novo. Primeiro entra o smart money, depois os investidores um pouco mais de consenso e moderados; subsequentemente, alguns deles começam a proferir suas opiniões nos jornais e, então, finalmente, as agências de rating decidem mudar suas notas.

Fitch, Moody’s e S&P – calma, ainda não é o trio a que se refere o título de hoje – são seguidores de movimento e não líderes. Seus alertas, definitivamente, não me incomodam. Na sequência dos alertas das Moody’s, esperamos a capa da Economist afundando o Cristo Redentor e a Eurasia zerando a probabilidade de aprovação da reforma da Previdência – quando e se essas duas últimas coisas acontecerem, será o sinal histriônico de que chegou a hora de comprar pesado.

O erro dessa turma, que também é o erro daqueles que tradicionalmente apontam o Brasil entre os Fragile 5, é caracterizar o País como frágil. No meu entendimento, ele é antifrágil, pois ganha com o choque. Uma nova porrada agora representaria o rompimento do tratamento feito a doses homeopáticas de sofrimento. A tragédia mesmo é um terror sem fim – ou Lula voltando em 2018, mas trataremos de 2018 na hora certa, em um novo texto.

Todas as vezes em que parece não haver solução para o Brasil, a solução emerge do aparentemente imponderável. Tenho insistido nisso. Seguimos caminho semelhante no segundo semestre de 2015, quando nos tornamos otimistas com a Bolsa brasileira, num call totalmente contrarian à época. Voltamos a fazê-lo agora – sob forte ceticismo alheio, temos mantido altas posições em ações e, numa exposição ainda mais controversa, em juros longos.

A tendência humana de não ver uma saída e logo concluir que não há saída está mais uma vez diante de nós. A demonstração empírica e tangível daquilo que Daniel Kahneman colocou como WYSIATI – o que você vê é tudo que existe. No fundo, é uma posição altamente arrogante. Wall Street, Faria Lima e Leblon têm algo em comum: sua capacidade de atração de pessoas alta e excessivamente confiantes em seu próprio potencial, com desprezo por aqueles que não desfrutam do mesmo atributo. Narciso acha feio o que não é espelho.

Há menos de uma semana, parecia impossível tirar o País de seu estado catatônico. Desde ontem, no entanto, pululam notícias de que pode haver uma saída para a crise. O cenário “Rodrigo Maia presidente” ganha contornos factíveis. Se confirmado, formaria na minha cabeça o que entendo ser os fundamentos essenciais para um bull market estrutural, semelhante ao que vivemos entre 2003-2007. Batizei carinhosamente os elementos de “trio MSN” – é cada um tem o trio MSN que merece.

Apresento cada perna desse tripé:

M: representado evidentemente por Maia, nosso possível novo presidente. Claro que não é um Messi. Dificilmente alguém o colocaria como bastião da ética e da moral. Mas, como já disse o Mestre dos Magos, o mercado é aético. Podemos tecer comentários muito críticos sobre o caráter macunaímico de Pindorama em mesas de bar ou qualquer outra oportunidade. Aqui estamos atrás de ganhar dinheiro para nossos clientes. Ficamos sem dormir para que eles possam dormir tranquilos – não é apenas uma frase de efeito. Rodrigo Maia é bastante ligado ao mercado financeiro, tem se comprometido com as reformas e já explicitou que manteria a equipe econômica. Isso retira downsides muito expressivos do processo. Ademais, provavelmente já assumiria com as condições e o compromisso de fazer uma reforma da Previdência (veja o emprego deliberado do artigo indefinido “uma”, em vez da precisão do “a”). Não será a alteração dos sonhos nas regras; sonhamos com algo ambicioso e possivelmente acordaremos com a idade mínima e alguns pontos infraconstitucionais. Neste momento, pode ser mais do que suficiente para agradar os mercados;

S: alusão à Selic, que deve continuar caindo de forma vertiginosa e continuar lá por baixo. Câmbio bem comportado, cenário externo benigno (não vou usar o palavrão interregno), muita, mas muita capacidade ociosa, recuperação lenta, sem qualquer pressão de salário e inflação no chão. IGP-DI mergulhou -0,96 por cento, contra prognóstico de deflação de -0,70 por cento. IPCA caiu 0,23 por cento, frente à estimativa de recuo de 0,18 por cento, referendando corte de 1 ponto percentual no juro básico na próxima reunião do Copom. Selic deve ir a 8 por cento e por lá ficar, com chances inclusive de vir abaixo disso caso consigamos passar alguma coisa na previdência. Em sendo caso, necessariamente observaremos uma migração a ativos de risco por aqui; e

N: em referência à Nova Normal lá fora. Ainda que o termo esteja em desuso e o próprio El-Erian já tenha lançado livro novo, a ideia aqui é transmitir a percepção de que há fatores estruturais sugerindo inflação e juro baixo nos países desenvolvidos de maneira estrutural, por muito tempo. Isso é benigno ao fluxo de recursos a países emergentes.

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Depois de muito desalento, parece haver alguma luz no fim do túnel.

Sexta-feira começa com juros futuros caindo, após IPCA e IGP-DI. Alguma esperança com retomada da pauta de reformas também anima. Na mesma linha, Ibovespa Futuro abre em alta de 0,4 por cento, enquanto dólar está perto do zero a zero contra o real.

Petróleo cai lá fora e pode inibir reação de Petrobras por aqui. Ainda no exterior, olhos atentos para Relatório de Emprego norte-americano e produção industrial na Alemanha e no Reino Unido.

Encerro hoje convidando para ler uma pequena história de dois velhos amigos. Um está bem. O outro está realmente rico. Entenda as diferenças aqui.

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