Obrigado a você, principalmente

Acho que a gente agradece as pessoas relevantes na nossa vida muito menos do que deveria.

Obrigado a você, principalmente

Uma das coisas boas que a Empiricus me proporcionou, de forma indireta e quase sem querer, foi a possibilidade de ler o Ivan Sant’anna e o Pedro Cerize semanalmente. Isso é algo caro pra mim. Antes, até havia alguma informação financeira de qualidade. Atualmente, não mais. A Dynamo escreve com frequência errática, a Atmos só fala a cada seis meses, o Stuhlberger anda muito lacônico – além de não dar mais entrevistas memoráveis para a Luciana. E a imprensa… bom, você já sabe…

Hoje é um dia especial pra mim. A Inversa Publicações relança o livro Mercadores da Noite, do Ivan, esgotado em todas as livrarias do país e gratuito pra você. Se não fosse esse livro, talvez eu não estivesse aqui. Verdade mesmo. Papai me deu uma edição, que guardo lá em casa, há 20 anos, como uma forma de me introduzir no universo financeiro.

Com a delicadeza de sempre, ele viria a me introduzir num outro universo mais tarde, daquela forma bem tradicional – e confesso, bastante constrangedora. Dessa vez, com o livro do Ivan, porém, ele acertou. Ali, sim, eu descobri que a vida é boa.

O Mercadores da Noite definiu a minha trajetória e conduziu-me à descoberta do que eu realmente gostaria de ser. Eu preciso agradecer ao Ivan Sant’anna publicamente por isso – já o fiz privadamente quando o conheci. Acho que a gente agradece as pessoas relevantes na nossa vida muito menos do que deveria.

Eu já falei obrigado para o Pedro Cerize algumas vezes também. Acho que ele não gosta muito. Fica até meio bravo. Tenho gratidão por ter sido uma das primeiras pessoas do mercado financeiro a conversar conosco sem preconceitos – a virtude, pra mim, não está em bajular os vencedores, mas em apoiar os negligenciados. Sou também profundamente grato por ter aprendido um monte de coisa com ele sobre ações, e por aprender até hoje.

Na sexta-feira passada, o Pedro escreveu mais uma de suas brilhantes newsletters, em que ele citava a importância de nos desprendermos do nosso preço de compra. Apegar-nos ao valor que pagamos por um determinado bem possivelmente vai nos trazer prejuízos. Papai era craque em fazer preço mérdio. Se a ação que você comprou caiu ou subiu, não importa. Ela é o ativo mais adequado para carregar em carteira pensando no que ela pode lhe oferecer de retornos à frente? Se sim, fique com ela. Se não, venda. É tão simples quanto isso. O valor da compra original não interessa.

Quando li o texto – o faço sempre no exato momento em que chega à minha caixa de emails -, fui mentalmente levado, de súbito, aos estudos do Teddy Odean. Enviei um link para o Pedro de artigo publicado por Odean, ao que ele respondeu: “Fico feliz que algum acadêmico tenha pensado nisso.”

Há muito nessa resposta curta. Ela mostra como os teóricos sobre finanças estejam desconectados da prática. A teoria econômica tradicional parte de suposições sobre o comportamento humano e, com essas premissas, acaba estudando algo que não existe, em vez de se preocupar com o mundo real.

O problema é que o mundo real não cabe no Excel ou no Eviews. Você tem um modelo teórico para viver a sua vida? Como você encaixa seu conhecimento sobre o mundo, a maior parte dele concebido, estimulado e desenvolvido de forma tácita, dentro de uma planilha? Lá vai mais um palavrão: a realidade é não ergódica.

Como bons invejosos da Física, os economistas driblam esse problema e estudam um bicho diferente, chamado homo economicus, que nada tem a ver comigo ou com você.

Teddy Odean é diferente. Ele faz parte da minoria de acadêmicos que estuda como a gente age. Sem formular hipóteses sobre os humanos tomam decisões, ele simplesmente observa as reais decisões dos humanos e suas repercussões.

A brilhante defesa do Pedro Cerize, com argumentos precisos de ordem prática, encontra ressonância entre os estudiosos do real comportamento humano naquilo que foi batizado de endowment effect, a nossa tendência a valorizar em excesso ativos e serviços que já detemos. Atribuímos às nossas posses mais valor do que elas realmente têm.

Ao mesmo tempo, queremos evitar a todo custo reconhecer um prejuízo, no que canonicamente se chama de aversão a perda.

De forma bem simples, o seu preço de compra está dentro do arcabouço dos custos irrecuperáveis. O passado não se muda. E as pessoas têm uma dificuldade tremenda para entender o conceito de custo irrecuperável. Se você já pagou por um coisa e aquilo não está mais lhe sendo útil, só tem um caminho: jogue aquilo fora. Mas ninguém quer fazer isso. Afinal, “eu to pagando!”

Tenho um amigo, cujo nome vou preservar por questão de privacidade, que vai ao rodízio de carnes e come sem parar. Nós fomos ontem e ele está até agora lá comendo.

Eu sempre pergunto pra ele: “André Kiss, você já não matou a sua fome? Não é possível…”

Ao que ele responde: “Claro que já. Estou mais do que satisfeito. Mas paguei, vou continuar comendo até não aguentar mais.”

O cara acaba vomitando, mas volta do banheiro e pede mais uma picanha. É uma loucura.

Obviamente, é um exemplo caricato, mas a dificuldade em se reconhecer custos irrecuperáveis é gigantesca, seja como investidor (queremos recuperar numa determinada ação ou título específico, sendo que temos a oportunidade de fazê-lo em qualquer outro, potencialmente muito melhor) ou mesmo no ambiente empresarial (você já gastou alguns milhões num determinado projeto ruim; só lhe resta um caminho: abandonar aquilo, mas como já foi muito dinheiro ali, você acaba insistindo).

Conto essa história toda com um fio de esperança de que, ciente dos erros costumeiros cometidos pelo investidor pessoa física, você talvez possa levantar a própria guarda contra essas tentações. No tal estudo que enviei ao Pedro, as principais conclusões são:

  • Os investidores negociam ações e títulos com mais frequência do que deveriam;

  • Eles tendem a vender muito rapidamente seus vencedores (ações e títulos em alta), e a segurar por mais tempo do que deveriam os perdedores (ações e títulos em baixa, exatamente o ponto do Cerize);

  • Investidores mantêm, na média, portfólios excessivamente concentrados;

  • Eles costumam ser muito influenciados por notícias atuais veiculadas na mídia e pela experiência passada.

Teddy Odean, muito obrigado.

Mercados domésticos fazem uma pausa no otimismo recente, realizando lucros acumulados nos últimos dias. Após recorde histórico nominal na véspera, Ibovespa Futuro registra queda de 0,4 por cento, pressionado por alguma elevação de temperatura política.

Relatório da Polícia Federal sustenta que o presidente Michel Temer teria levado 31,5 milhões e reais no esquema do “quadrilhão do PMDB”. Ademais, aguarda-se com ligeira cautela, embora sem pânico, nova denúncia de Rodrigo Janot contra o presidente da República.

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Na agenda econômica estrita, ata do Copom deixou aberta possibilidade de a taxa Selic vir abaixo de 7 por cento ao ano – mais detalhes sobre isso na nota da Marília, abaixo. Vendas ao varejo completam as referências relevantes na esfera doméstica.

Nos EUA, saem relatórios de emprego Jolts e otimismo das pequenas empresas. Na esfera corporativa, destaque especial para evento da Apple.

PS.: Diante dos recordes recentes do mercado brasileiro, Max Bohm garimpou oportunidades abaixo do radar, três delas com chances reais de multiplicar o capital. Vale a pena conferir no excelente Microcap Alert.

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