Pão ou pães é questão de opiniães

As coisas, as empresas, as notícias, as pessoas são, para nós, o que achamos delas, como elas se apresentam e como as interpretamos.

Pão ou pães é questão de opiniães

Imagine que você tem o poder de decidir sobre qual programa de saúde pública adotar para combater uma doença perigosíssima vindo da Ásia. Se não agir rápido, o vírus matará 600 pessoas. Há duas possibilidades:

Adota-se o Programa 1, que salva a vida de 200 pessoas, com certeza.

Adota-se o Programa 2, que tem um probabilidade 1/3 de salvar 600 pessoas, e 2/3 de não salvar ninguém.

Qual escolhe?

Se você é como a maioria das pessoas, segue com o primeiro programa, salvando a vida de 200 pessoas com certeza.

Agora se veja diante da necessidade de, diante da potencial morte das 600 pessoas a serem infectadas pela doença, escolher entre:

O Programa 3, cuja adoção vai matar 400 pessoas.

E o Programa 4, que oferece 1/3 de chance de que ninguém seja morto e uma probabilidade de 2/3 de que 600 pessoas sejam mortas.

Nesse caso, se você segue o padrão de comportamento típico, prefere o Programa 4 ao 3.

Obviamente, o primeiro e o segundo problemas são rigorosamente idênticos, apenas tendo sido apresentados de outra forma. O fenômeno foi estudado à exaustão pelo pessoal das Finanças Comportamentais e batizado de framing. A forma como um mesmo problema é apresentado implica reações completamente diferentes pelos agentes econômicos.

Quando a questão foi associada a um ganho potencial (salvar vidas), a alternativa escolheu sugeriu aversão a risco. Já quando foi posta ligada a uma perda (mortes), optou-se pela disposição a risco.

Daí decorrem coisas importantes para o investidor. Uma manchete pode lhe dizer: “Bitcoin tem 20 por cento de chance de se multiplicar por 25x”. Outra talvez aponte: “Moeda digital tem 80 por cento de chance de não se multiplicar.”

No fundo, é a mesma coisa, mas a forma com que as situações nos são apresentadas fazem com que pulemos para conclusões diferentes.

O Ibovespa está apenas a dois mil pontos de seu recorde histórico, mesmo diante de uma trajetória explosiva da dívida pública brasileira.

O Ibovespa está à metade da sua pontuação máxima em dólares, enquanto avançamos gradativamente na agenda liberal e caminhamos para eleger um novo presidente reformista em 2018 – Eurasia acaba de dizer que Lula não é um grande risco para o próximo ano.

Algumas pessoas vão querer me matar. Eu respeito isso, de verdade. Aliás, podem entrar na fila. Eu gosto muito do Warren Buffett, mas pessoalmente me ligo muito mais nas ideias do George Soros. Falar isso no Brasil é quase pecado. Aqui parece haver uma espécie de seita religiosa dos verdadeiros Fundamentalistas (seriam eles islâmicos?) que repetem ad nauseam frases feitas do sábio de Omaha, compondo a ordem dos templários do value investing, mesmo que eles mesmo não saibam o que isso significa.

Nunca consegui aceitar a expressão “valor intrínseco”, que você pode ler várias e várias vezes nas cartas da Berkshire Hathaway. Intrínseco, como nos ensina o dicionário, é algo inapartável, indissociável, interno, próprio. Não pode, portanto, sofrer influência externa. A realidade (a notícia, a empresa) existe por ela mesma. É o que é. Portanto, possui um valor, independentemente do mundo exterior.

Ora, mas se interpretamos cada notícia a partir da forma com que ela nos é apresentada, uma mesma realidade pode ser vista de forma diferente. Necessariamente, a realidade está conectada com a percepção.

As coisas, as empresas, as notícias, as pessoas são, para nós, o que achamos delas, como elas se apresentam e como as interpretamos.

Acabamos de ver como um mesmo problema pode levar a conclusões diferentes a partir da mera apresentação distinta.

Isso nos traz a George Soros e sua teoria da reflexividade. Aqui estamos num mundo muito mais legal, não linear, não maniqueísta e não mecanicista-newtoniano. Realidade e percepção influenciam reciprocamente, numa caminhada dialética formando o curso da história. Elas se dividem para ser absorvidas posteriormente uma pela outra, completando-se para serem melhores juntas.

Em alguns casos, para não dizer todos, importa mais a forma com que o mercado reage a uma notícia do que a notícia em si. Isso é muito mais revelador sobre o comportamento dos ativos do que o fato propriamente dito.

O momento atual é emblemático. Há uma interpretação muito positiva sobre tudo, numa característica típica dos bull markets estruturais. Ficamos complacentes com riscos e as tendências de alta se provam muito maiores do que poderíamos conceber a priori.

Repare como o mercado tenta cair e simplesmente não consegue. Claro que lá na frente todos nós sabemos como essa brincadeira acaba – e nunca é algo bom. Mas a sensação é de que estamos diante apenas do início de um longo processo de recuperação da economia e dos ativos de risco brasileiros.

A recomendação, portanto, é se manter alocado. Até quando? Por ora, não sabemos. Os movimentos são sempre maiores do que nossa cabecinha linear gosta de supor.

“Mas você não está preocupado com o nível overbought (sobrecomprado) da Bolsa brasileira?”

Preocupação é meu sobrenome. Eu vivo nesse estado de espírito. Alguém que se compromete a fazer gestão de recursos de terceiros ou a dar recomendações de investimento com a alma – e esse é o meu caso – não encontra alternativa. É questão de vocação.

Só não acho que dê pra fazer market timing. Sair do mercado com ele sobrecomprado, esperar cair e acertar o bumbum da mosca. Como eu não sou mosco, sigo posicionado e tento me proteger de eventuais correções, que também são típicas do bull market, comprando seguros, principalmente quando eles estão baratos por conta da baixa volatilidade. É isso que estou fazendo no Palavra do Estrategista hoje – a série está fechada para novas assinaturas.

Mercados iniciam a quarta-feira dando continuidade ao bom humor recente. Alívio das tensões na Ásia com declarações consideradas mais brandas por representantes da Coreia do Norte valorizam fortemente o won, espraiando disposição a risco. Dados nos EUA de mercado de trabalho e PIB vieram acima do esperado, o que reforça percepção de retomada da economia global, ainda sem sinais claros de inflação forte.

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Por aqui, investidor repercute aprovação da nova meta fiscal na Comissão do Orçamento e aguarda votação final de destaques da TLP. Agenda ainda tem déficit consolidado do setor público e inflação de 0,1 por cento medida pelo IGP-M.

Termino hoje minha participação com um pedido e um convite.

Primeiro, o pedido, porque ninguém é de ferro: ajude-nos a saber o que você faria com 1 milhão de reais. Sua contribuição é fundamental para nos ajudar no nosso mais novo projeto.

Depois, o convite: entre em contato com o material produzido pelo Pedro Cerize, da Inversa Publicações. Pedro é um dos poucos gênios verdadeiros, com ideias próprias e prontas para te ajudar no processo de investimentos.

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