Ao Pedro, nossa admiração

Pedro Damasceno: Veja as valiosas lições que ele nos deixou.

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Ao Pedro, nossa admiração

Esta é a primeira vez que peço para alguém escrever o Day One estando no escritório e tendo tempo para fazê-lo.

As palavras a seguir são uma breve e humilde homenagem a Pedro Damasceno. Na Empiricus, mesmo à distância, todos aprendemos algo com a Dynamo. Arrisco a dizer que todo o mercado de capitais brasileiro aprendeu algo com a Dynamo.

Eu, por não conhecê-lo pessoalmente, não conseguiria produzir algo que o representasse minimamente. Sinceramente, por mais que me esforçasse, não atingiria o nível mínimo exigido para a homenagem.

Então, pedi à Luciana para escrever. Ela esteve com ele algumas vezes e fez uma das mais belas entrevistas – ela tem esse hábito – que eu já li.

Perdemos mais um que combateu o bom combate. Ficaram contribuições valiosas para o mercado de capitais.

“Soube sua idade outro dia e fiquei impressionada. Parece muito mais novo” – eu disse para o Pedro Damasceno da última vez que nos encontramos. “Viu? É a convivência com eles que me faz mais jovem” – rebateu, tímido, inclinando a cabeça em direção aos sócios, Bruno Rudge e Luiz Orenstein, o Lula.

Estávamos os quatro sentados na biblioteca da Dynamo, no Leblon, em uma conversa de duas horas e meia cujo privilégio eu respirava, mas do qual só me dei conta de fato nesse sábado. Por que ele se foi tão jovem? – não canso de me perguntar.

Pedro transbordava paixão pelo trabalho no Cougar, o fundo brasileiro de ações que mais deu alegria aos seus cotistas (mesmo que se sorteie qualquer dia de sua história para o primeiro investimento, em janelas móveis de três a cinco anos, a medida mais correta da performance de um fundo como aprendi com os sócios da Dynamo).

A Dynamo é um estilo de vida, costumava dizer o Pedro. “Eu escuto isso de muitos amigos: ‘eu quero ganhar dinheiro para, aos 40 anos, parar de trabalhar’. A gente não quer parar de trabalhar. A gente gosta muito disso aqui”, disse na conversa para o livro. E, de fato, não parou.

Ele era um investidor dedicado sim, mas também um atleta – diz o Lula que ele só não foi surfista profissional porque não quis. E foi vítima de um infarto fulminante em meio a uma corrida na praia, aos 47 anos.

Difícil absorver tal agressão à ordem natural das coisas: termos que nos despedir tão precocemente do mais jovem dos veteranos da Dynamo, com quem Rudge dizia contar para, junto com ele, propagar os valores da maior gestora de ações da história brasileira para as próximas gerações.

Além das conversas informais, tive a felicidade de entrevistar Pedro duas vezes – uma sozinho, para um perfil publicado no Valor, e a última na Empiricus. Ouvi e reli as entrevistas na íntegra no sábado, como uma despedida.

Pedro sempre foi muito generoso, como o restante da equipe da Dynamo, que apesar de muito discreta e sem o menor desejo de captação adicional, topou dar uma entrevista para o livro com este objetivo: promover boas práticas no mercado de capitais.

Pincei dessas conversas algumas lições poderosas, que listo a seguir, nas palavras dele. O Pedro – uma combinação de genialidade, modéstia e gentileza pouco comum no mercado – na certa diria que não são regras universais, somente um modo de fazer.

1. “Concentração excessiva, não gostamos; investir em negócios que não entendemos, não gostamos; ficar olhando as tendências macroeconômicas, não temos esse talento e não gostamos. Gostamos de diversificação de risco no portfólio. Acertar é bom, mas evitar os grandes erros talvez seja mais importante”.

2. “Em vez de ficar tentando adivinhar como o mundo ou o Brasil vai ser, nos adaptamos e adaptamos o portfólio ao mundo que se coloca pra gente”.

3. “Liquidez não é necessariamente uma questão. Se estamos certos, a liquidez vai virar. Às vezes qualidade vem junto com iliquidez, e não nos incomodamos, desde que qualidade esteja presente”.

4. “A mesma pesquisa que serve para comprar serve para vender, mas o mesmo mindset não. No short, não basta estar certo na sua tese, você tem que estar certo no timing e não gostamos dessa guilhotina. No long, quando você erra diminui seu risco. No short, aumenta. Já fizemos short, mas em questões circunstanciais, quando o negócio está se deteriorando em velocidade muito rápida. Mas certamente não vamos pegar do high até o low, saímos muito antes do fim”.

5. “As pessoas no Brasil tendem a olhar só quanto o fundo deu, pouca gente gasta tempo olhando como ele chegou lá”.

6. “Já tivemos posições em commodities, mas você dificilmente vai ver uma empresa de commodities sendo a principal posição do fundo, por uma constatação de que não podemos ter uma opinião muito inteligente sobre o que mais importa na vida de uma empresa dessas: o preço da commodity”.

7. “Já perdemos boas oportunidades por excesso de zelo. E esse é um erro em que talvez continuemos incorrendo”.

Pedro foi conselheiro de várias empresas, mas sempre rejeitou o rótulo de ativista. Como os demais gestores da casa nunca gostou do conflito, da polarização, mas perseguia de forma elegante o alinhamento entre os controladores e os gestores, com saídas que beneficiavam todos os minoritários. Foi assim com Odontoprev, Eternit, Arcelor…

O que é a essência da Dynamo? “As mesmas pessoas fazendo a mesma coisa, durante muito tempo”, costumava dizer o Pedro.

Não há dúvida de que a Dynamo perdeu parte de sua essência no sábado. A gestora, felizmente, tem cultura e valores bem estabelecidos, preparados para sobreviver a cada indivíduo. Nas mãos de Bruno Rudge, Bruno Rocha e Lula, segue forte, assim como o Pedro gostaria que fosse.

Em homenagem ao Pedro, à sua generosidade e a seu desejo de promover as boas práticas no mercado de capitais, abrimos hoje a todos os nossos leitores a conversa que tive com ele e seus sócios. Peço que dedique a ela um tempo do seu dia.

Respeitosamente, a vida precisa continuar.

Segunda-feira começa com abrandamento das preocupações em torno da questão separatista da Catalunha. Títulos e ações da Espanha sobem após manifestações poderosas no final de semana em favor da unidade do país.

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Nos EUA, agenda é fraca e traz Columbus Day – bancos estão fechados, mas bolsas funcionam. Liquidez pode ser um pouco afetada diante da comemoração. Alemanha publica produção industrial.

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