A pergunta de 4 milhões de reais

Com os mercados, em especial de câmbio e juro, em pânico por conta do medo do PT no segundo turno das eleições, preciso tratar do tema.

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A pergunta de 4 milhões de reais

Eu falaria de ações hoje, tentando mostrar por que uma posição diversificada em Bolsa é aquela de maior humildade epistemológica, por simples aplicação da aritmética. Vai ficar para amanhã.

Se as cores vermelhas entram pela porta, em suas mais variadas interpretações, a metodologia voa pela janela. Com os mercados, em especial de câmbio e juro, em pânico por conta do medo do PT no segundo turno das eleições, preciso tratar do tema. A maré das circunstâncias impõe-se naturalmente. O campo escala, nas palavras de Tite, que também vive seus altos e baixos.

Se, na academia, você não consegue concentrar-se no supino, nem no crucifixo porque há gente perseguindo-o de um exercício a outro para dizer que “era óbvio que o dólar subiria acima de quatro reais, que agora virou um suporte”, então temos um sinal claro de que precisamos falar sobre o câmbio. Aliás, tudo é sempre tão óbvio depois que acontece – 100% de probabilidade de ocorrência, a posteriori.

A primeira coisa que deve estar clara: não faço a menor ideia para onde vai o dólar. Acho que ninguém faz. O mundo se divide entre os que não sabem e os que acham que sabem.

Agora, não saber não significa não agir. X (a realidade material) não é F(x) (os retornos que se apreendem a partir da realidade material). É muito mais fácil controlar a matriz de payoff do que o mundo em si.

Meu entendimento é o de que você, necessariamente, precisa ter dólares na sua carteira. Até quanto pode ir o câmbio? Não sei. Possivelmente cinco, talvez seis reais.

“Ah, mas isso seria irracional, não condizente com nossos fundamentos de boa posição de balanço de pagamentos, grandes reservas internacionais, inflação sob controle.”

Aí depende do que você entende por racionalidade. Aqui, empregamos esse termo no sentido ecológico: ele precisa estar ligado à sobrevivência. O resto é… o resto.

Você não constrói uma casa para sobreviver ao clima de maior probabilidade de ocorrência. Sua residência deve resistir à mais feroz das tempestades. Assim também deve ser seu portfólio.

Faz sentido ter dólares não porque “fundamentos macro indicam nova depreciação à vista para o real”, mas simplesmente para garantir a travessia da tempestade. O guarda-chuva pode não ser necessário se fizer sol –, mas isso não significa que você não deva carregar um consigo. Para ser bem-sucedido, primeiro é preciso sobreviver, ensina Warren Buffett.

Se níveis como cinco ou seis reais para o dólar parecem fora do rol de possibilidades hoje, lembro que os mercados vivem ciclos de euforia e pânico – e, no pânico, ninguém quer saber de “níveis razoáveis”. Na dúvida, vende. Mais uma vez, os mercados são um grande teatro com uma porta pequena. Se alguém grita “fogo” – e todos nós conhecemos o caráter incendiário do PT (embora o Haddad em si possa participar de reuniões sem morder ninguém) –, o caos está instalado.

Lembro-me do Chico Lopes, no meio de um ataque especulativo, tentando explicar a política de “banda diagonal endógena” – só ele e o Rodolfo acham que as pessoas entendem de forma intuitiva a palavra “endógena”. Deu no que deu. Vende primeiro, tenta compreender depois.

Recordo-me também de Rudi Dornbusch provando como, mesmo dentro do conceito da racionalidade estrita (aqui no sentido acadêmico literal), o “overshooting” (reações além do que seriam razoáveis para o equilíbrio de longo prazo) faz parte da própria natureza do mercado de câmbio – e das variáveis financeiras em geral. Ou seja, se não imaginamos hoje níveis tão altos, é simplesmente por uma tendência de pensarmos linearmente as coisas, como se as variáveis financeiras obedecessem a distribuições gaussianas, em linha com medidas físicas e naturais como peso e altura. Não é assim. Estamos no terreno das distribuições com caudas gordas, com muita curtose e dispersão (tecnicamente, Levy, Cauchi, Pareto, Leis de Potência e por aí vai). Em português: o dólar pode subir muito mais do que todos imaginam.

“Mas, Felipe, também não tem a chance de o Banco Central intervir, dado que a vol aqui está mais alta do que a das demais moedas emergentes? Ou mesmo que Geraldo Alckmin passe a crescer nas pesquisas e derrube o dólar? Quem sabe Bolsonaro não é mesmo liberal e vive uma lua de mel com o mercado se eleito? Ou, ainda, que Haddad, muito mais moderado, venha a fazer uma versão do Lula 1? Dada a enorme posição em derivativos numa única ponta, se algo nesse sentido acontece, o dólar cairia para uns 3,30 reais, não?”

Acho, sim, que tem chance de tudo isso acontecer. Mas tudo bem. Você ainda terá uma enorme exposição de seu patrimônio em reais, que se beneficiará fortemente de um dos cenários descritos no parágrafo acima.

Em termos práticos, portanto, sugiro manter pelo menos 10% da carteira comprada em dólares (a Luciana Seabra indica a melhor forma de comprar dólares aqui), reservando um pequeno pedaço disso para o ouro (também em dólares). Sei que o metal precioso não tem vivido seus melhores dias. Isso por conta do aumento das taxas de juro nos EUA, que elevam o custo de oportunidade de carregar algo que não tem yield (rendimento). O ouro, porém, é um hedge (proteção) clássico contra um eventual cenário de inflação – por enquanto, ela não assusta, mas nunca se sabe quando o dragão vai acordar. Acima de tudo, sobrevivência. Penso nisso só quando respiro.

Mercados brasileiros voltam a sentir preocupações com cenário eleitoral, em dia também mais instável lá fora. Pesquisa Ibope mostrou grande crescimento das intenções de voto no ex-presidente Lula, alimentando suposições de alta transferência para Fernando Haddad.

Nos EUA, informação de que Michael Cohen, advogado pessoal de Donald Trump, fechou acordo de delação premiada gera certo desconforto, mas não chega a derrubar com vigor as cotações dos futuros.

Agenda é importante por lá, com ata do Fed atraindo as atenções. Vendas de moradias e estoques de petróleo completam as referências norte-americanas do dia.

Internamente, temos sondagem da indústria de julho e fluxo cambial.

Ibovespa Futuro registra baixa de 0,3%, dólar sobe 0,44% e juros futuros avançam.