Um conto chinês

Gostaria de dividir uma visão diferente sobre China, certamente um balizador importante das condições internacionais e para o fluxo de capitais aos mercados emergentes.

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Um conto chinês

Somos vividos por poderes que fingimos entender. A frase é do poeta Wynstan Auden. Carrego comigo lá dentro. Ela vem à superfície no momento em que todos começam a tratar com afinco sobre as perspectivas para 2018.

Sempre as explicações passam por nossas próprias mazelas e nossas oportunidades. Damos as próprias causas a cada uma das consequências. Desconfio de tamanho controle. Acho mesmo que o próximo ano dependerá, assim como outro qualquer, muito mais de elementos exógenos do que supõe o consenso, entre eles, o acaso e o comportamento do cenário externo. Nós – seja na vida pessoal ou nos mercados – não vivemos. Nós somos vividos. Isso muda tudo, adiciona complexidade ao processo e nos obriga a admitir não estarmos no controle. Combinamos uma série de forças, ambivalentes e incompreensíveis, uma aparentemente antagônica a outra.

Uma das defesas de minha dissertação de mestrado era justamente que o dólar e a sensibilidade às condições sistêmicas globais tinham mais peso na nossa economia do que usualmente consideram os economistas/financistas. Se não fosse o cenário externo sem precedentes – a expressão da moda agora é “crescimento sincronizado”, ajudado por alta liquidez, juros baixos e inflação baixa -, dificilmente estaríamos diante da recuperação atual, seja nos mercados ou na economia real.

Nesse contexto é que gostaria de dividir uma visão diferente sobre China, certamente um balizador importante das condições internacionais e para o fluxo de capitais aos mercados emergentes. Já teci aqui alguns comentários críticos e desconfiados sobre o país. Talvez eles estivessem completamente errados – não seria a primeira vez, nem será a última. Se podemos corrigir a rota, é melhor o fazermos o quanto antes. Fail fast, fail small (falhe rápido, falhe pequeno).

Na semana passada, tive a honra de dividir um painel com Marcos Troyjo, entre outras coisas diretor do BRICLab em Columbia. Tomei uma aula de China, mesmo que breve.

Tentando resumir um pouco o racional – certamente vou falhar também nessa tarefa, mas prometo fazer meu melhor -, Marcos Troyjo é um otimista com China. (Marcos, se eu falar muita besteira, você me escreve e eu corrijo aqui amanhã, por favor). Para ele, todos – eu inclusive – que olham para China apontando uma bolha em cada lugar usam um instrumental analítico inadequado. Se analisamos China com o software ocidental, dificilmente entenderemos o funcionamento de um país oriental.

A economia chinesa funciona muito na base da confiança, o tal do Guanxi, girando em torno das pessoas mesmo, sem mecanismos bancários, justamente devido à elevada taxa de poupança das famílias. É isso que consegue financiar dívidas aparentemente altas, com um mercado de capitais que, no geral, ainda é pequeno relativamente ao PIB. Diante de controle de capitais, o investidor local (um grande poupador) fica sem saída e acaba se vendo obrigado a financiar a própria economia.

“Mas e sobre a chance de termos pressão de salários na China a partir do desenvolvimento local, com consequências para a inflação mundial e, por conseguinte, para os juros?”

É improvável, porque a China está fazendo com outros países o que o mundo desenvolvido tradicional fez com a China há alguns anos, ou seja, terceirizando a produção fabril para outros lugares, como Vietnã, Índia e outros. Isso posto, é provável que continue exportando deflação.

Daí em grande medida deriva a crença de que podemos estar flertando com um novo ciclo de commodities. Sabemos o resultado que o anterior proporcionou. Talvez seja um pequeno motivo para otimismo nesta segunda-feira.

Antes de encerrar, um outro comentário, aparentemente desconectado com o supramencionado. Só aparentemente. Está também no âmbito de sermos vividos por poderes incompreensíveis, assim mesmo na voz passiva.

Após receber a nova pesquisa de intenções de voto para 2018, pensei: será mesmo que Luciano Huck está fora da disputa? Talvez ele mesmo ache que sim. Ou talvez não. Suspeito que ele queira ser presidente, só não quer ser candidato – são coisas bem diferentes; pode querer acordar com tudo feito e resolvido, só não quer passar pelo processo de desgaste até lá, com uma exposição da vida em praça pública. Se pudesse apertar um botão e aparecer na nova vida, suspeito que já teria feito.

Pelo que se conversa por aí, com a Globo, é um pequeno probleminha de 150 milhões de reais. Mas o que você faria se pertencesse à família Marinho e a polarização Lula/Bolsonaro parecesse insuperável em março de 2018? Se circulam vídeos de Bolsonaro dizendo que vai tirar verba da Globo e Lula quer regular a mídia sobretudo para combater a Globo-golpista, talvez abrir mão de 150 milhões de reais seja a decisão mais barata. Talvez os Marinho sejam os primeiros a implorarem pela candidatura de Luciano Huck. O menor prejuízo é o melhor, insistia o velho Ramiro, que faria aniversário amanhã e já me deixa de coração partido desde hoje.

Leia mais: A hipótese Huck

Mercados iniciam a semana demonstrando otimismo, empurrados por comportamento das bolsas norte-americanas, em alta diante da aprovação de pacote tributário no Senado dos EUA, e por confiança renovada, ao menos na margem, sobre reforma da Previdência. Após uma série de encontros no final de semana, Rodrigo Maia fez pronunciamento mostrando maior chance de aprovação das novas regras previdenciárias.

Entre as notícias de destaque, merece menção a conclusão de voto do relator do processo contra Lula no TRF-4, de modo que votação na turma pode ocorrer em março, tirando ao menos uma das incertezas com alguma celeridade.

Na agenda doméstica, destaque para relatório Focus e IPC-Fipe. Nos EUA, temos ISM de condições empresariais e encomendas à indústria.

Ibovespa Futuro abre em alta de 0,6%, dólar recua contra o real e juros futuros recuam. Bitcoin tenta se firmar acima de 11 mil dólares, depois de novo recorde pela manhã.

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