Você acha um lucro de 510% moderado e comedido?

Se há dois anos e cinco meses, eu lhe dissesse que as ações da Petrobras subiriam 510% e a companhia voltaria a ser a mais valiosa da América Latina, o que você diria? Acharia exagerado?

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Você acha um lucro de 510% moderado e comedido?

Por que as igrejas caíram e os prostíbulos continuaram lá, incólumes, postados alheios a tanta desgraça?

Essa era a pergunta que se abateu sobre Lisboa depois do Grande Terremoto. Eu não estava lá, fique claro; jamais… não frequento esse tipo de lugar. Era 1755, 1° de novembro…

Veja a gravidade da coisa: em pleno Dia de Todos os Santos, um terremoto, estimado hoje em 9 graus na escala Richter, varreu Lisboa, Setúbal e Algarve, destruindo as casas de Deus, enquanto preservou os meretrícios intactos. Qual era a mensagem que o Senhor estava mandando aos portugueses com aquilo?

Chegaram à seguinte conclusão: está muito mais próximo de Deus aquele que reconhece o mal em si. Os frequentadores das casas da luz vermelha sabem de seus pecados, de suas imperfeições e, portanto, poderiam ser preservados frente à hipocrisia alheia, frente aos sempre dispostos a julgar o outro apontando-lhe cruelmente o dedo diante do primeiro desvio. Os seres humanos, não gente assim como eu e você, claro, cometem erros.

O episódio encontrou ecos na literatura, como no clássico poema “Le Désastre de Lisbonne”, de Voltaire, e nos dizeres de Marquês de Pombal, ministro do reino de D. José e responsável pela reconstrução da cidade depois da tragédia. Quando perguntado sobre o que fazer em meio aos milhares de falecidos, o Marquês de Pombal respondeu: “Enterramos os mortos, cuidamos dos vivos” – o que não deixa de ser uma grande lição para o investidor pessoa física.

Outra, claro, seria a necessidade de reconhecer o mal em si. Somos todos hereges, miseráveis, intolerantes e arrogantes.

Se você conversar com financistas por aí, ouvirá de quase todos eles sobre sua capacidade individual de superar a média dos financistas, o que é um absurdo por construção.

Cada um deles tem o seu método vencedor. Mas não é só isso. O cidadão não apenas possui o superpoder de bater o mercado. Só ele o possui. Somente o seu o método vale, entende? Narciso acha feio o que não é espelho.

Se há dois anos e cinco meses, eu lhe dissesse que as ações da Petrobras subiriam 510% e a companhia voltaria a ser a mais valiosa da América Latina, o que você diria? Acharia exagerado? Talvez criticasse minha mensagem agressiva, não moderada…

Pois eis que a realidade insiste em seu não comedimento, em arrombar por completo a visão dos burocratas e suas cabeças lineares:

E, agora, todos querem saber da ação. O Bank of America Merrill Lynch, por exemplo, acaba de elevar sua recomendação sobre os papéis para compra, citando o impacto brutal sobre o endividamento de preços do petróleo maiores – a estimativa do banco sugere o barril da commodity a 75 dólares em 2019.

Nada contra a Merrill Lynch, fique claro. Ao contrário, tocada pelo Eduardo Alcalay, que para mim é pica das galáxias, só elogios. Mas do episódio inferem-se duas coisas (ao menos duas):

1 – Se o analista recomendou comprar depois que subiu 510%, perdeu ao menos uma boa parte da alta. Esse é um comportamento típico. As maiores valorizações estão concentradas justamente em ações para as quais a maioria dos analistas mantêm recomendação de venda. Pode parecer contraintuitivo, mas é absolutamente natural – as maiores altas precisam necessariamente vir de ações sobre as quais repousa uma incompreensão de seu negócio e um ceticismo atroz sobre seu futuro. Caso contrário, o bom entendimento e as excelentes perspectivas já estariam no preço. Sobre Porto Seguro, por exemplo, que em edição recente do Palavra do Estrategista recomendei comprar e ceder para alugar (taxa estava em dois dígitos), estão todos fragorosamente errados há uns dois anos pelo menos.

2 – O movimento das ações, e de quase todas as séries financeiras, é sempre maior do que conseguimos conceber a priori. Por isso, a medida de amá-las só pode ser amá-las sem medida. Se você colocou 100 dólares na Berkshire Hathaway em 1965, teria hoje nada menos do que 2,4 milhões de dólares. Sim, a conta está certa para a comedida e moderada empresa de Warren Buffett.

E se eu disser que, mesmo depois de subir 510% em cerca de dois anos e meio, as ações da Petrobras, com esse dólar e esse petróleo, ainda podem dobrar de valor? Ah, isso não! Jamais! 510% pode, mas 100% já é exagero…

Eu não devia te dizer, mas essa lua, mas esse conhaque, botam a gente comovido como o diabo. Por isso, em dia de maldade e bruxaria (de novo, no creo en brujas, pero que las hay, las hay), uma palavrinha sobre fluxo e outra sobre análise técnica.

Sobre fluxo, se você pegar as ações mais shorteadas da Bolsa (aquelas com maior número de posições vendidas), verá um desempenho bastante ruim nos últimos dois pregões. É um sinal de que o movimento positivo pode não guardar relação com um short squeeze (cobertura de posições vendidas), mas, sim, com propriamente comprador marginal novo. Com net new money positivo, Bolsa poderia flertar finalmente com o rompimento dos fatídicos 87 mil pontos.

Sobre Análise Técnica, uma imagem vale mais do que mil palavras. Make it or break it no EWZ:

Mercados iniciam a sexta-feira próximos à estabilidade, ponderando alguma pressão por realização de lucros e preços de commodities em níveis favoráveis, o que enseja possível retomada de melhor momento a emergentes. Agenda é menos relevante do que nos dias anteriores, de tal sorte que falta um norte muito claro.

Dólar e rendimento dos Treasuries recuam no exterior e ajudam a conter eventual força vendedora mesmo depois das altas da véspera.

Nos EUA, temos sentimento do consumidor medido pela universidade de Michigan. No Brasil, saem dados de vendas ao varejo.

Encerro agradecendo por mais uma semana com o livro “6 Caminhos para o Seu Dinheiro Render Muito Mais” na relação de mais vendidos da “Veja”. Obrigado pela confiança. É simplesmente impossível ultrapassar o Padre Marcelo.